OPINIÃO

A rosa púrpura de Erechim

Por Zarcillo barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

O golpe do amor é uma das versões mais cruéis do crime cibernético. Os estelionatos sentimentais, como a daquela senhora de 54 anos que na véspera do Natal ficou esperando o ator Brad Pitt no Aeroporto de Erechim (RS) deixou-nos comovidos. Ninguém sabe até aonde vai a maldade humana e o que são capazes de criar para engabelar o próximo. Maria, em plena crise da meia-idade, foi roubada duas vezes: nas suas economias e na sua dignidade.

O noticiário nos dá conta de centenas de golpes idênticos ocorridos no Brasil e no mundo, não só com o Brad Pitt imaginário, mas também com Keanu Reeves, Leonardo DiCaprio e muitos outros galãs. Somente no Reino Unido, no ano passado, os prejuízos somaram 150 milhões de libras (mais de R$ 1 bilhão). No mundo todo, 41,6 milhões de pessoas foram vítimas da sua boa-fé em amores fictícios. A solidão dos velhinhos virou oportunidade de negócio para bandido.

Viralizou para o mundo o vídeo da Maria, de 54 anos, esperando o fruto do seu amor surgido da maravilha tecnológica da internet. A polícia estranhou as horas de espera em um aeroporto onde aviões comerciais não operam. Ela informou que aguardava Brad Pitt para com ele se casar, "conforme o combinado". Repetidas vídeochamadas, com o ator ao vivo, não deixaram dúvidas. Numa delas Brad ainda vestia o macacão de piloto do seu último filme "F1". O relacionamento iniciara-se há dois meses e os planos eram o de morar em São Valentim, cidade de 2 mil habitantes, não muito longe dali. A paisagem bucólica faria bem para o artista cansado da vida agitada de Hollywood.

A repercussão gerou ataques. A mulher se disse arrasada e deserdada pela família. "Minha vida acabou!" Brad Pitt ainda não se manifestou. Fez facelift aos 61 anos, está com um novo relacionamento depois que se separou de Angelina Jolie por "diferenças irreconciliáveis". Corrigiu a flacidez, tirou as rugas profundas e restaurou a autoestima perdida. Mesmo consagrado com dois Oscars e dois Globos de Ouro vivia preocupado com o clima de "final de carreira". Dizem que ele sofre de "prosopagnosia" (cegueira facial), uma condição neurológica que dificulta o reconhecimento de faces e afeta a interação social do paciente. Isso não o impede de gozar dos 30 milhões de dólares (R$ 180 milhões) que ganhou pelo seu último filme no papel de Sonny Hayes, um problemático piloto de corrida.

Final mais feliz que o da Maria teve aquela personagem (Mia Farrow) de Woody Allen ("A Rosa Púrpura do Cairo") que ia todos os dias ao cinema para fugir da sua triste rotina de garçonete. Até que um dia o impossível acontece e o herói do filme predileto sai da tela para declarar seu amor por ela. O ator desce literalmente do filme em preto e branco para o mundo real e colorido da plateia, a fim de declarar o seu amor a maior fã. Moral da história: O amor verdadeiro, mesmo que nasça da imaginação, pode ser a coisa mais real do mundo.

Na meia-idade, explicam os psicólogos, nasce uma sensação de que o tempo passa rápido e o receio do envelhecimento leva a uma ressignificação da vida. A menopausa, a mudança sexual, tudo leva ao desejo de mudanças radicais. Vem aquela solidão do "ninho vazio", o marido morreu ou se foi com outra, os filhos cresceram e bateram asas. A mulher se torna mais vulnerável, isola-se dos amigos e passa a ter uma vida interior. Quem sabe o desejo de se reinventar gere amores imaginários, como a da gaúcha de Erechim. Os malandros se aproveitam dessa desconexão emocional para ganhar vendendo ilusões e expõe as vítimas ao ridículo.

Ao intitular o seu filme de "Rosa Púrpura...", Woody Allen inspirou-se na cor bíblica onde ela significa realeza, soberania e autoridade de Cristo em suas vestes usadas no Tabernáculo. Pilatos, para zombar de Jesus, aceitando a acusação de que Ele se intitulava "Rei dos Judeus", crava uma flor de espinhos em sua cabeça e veste-o com uma capa purpurada.

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