O desenho da cidade como processo de construção coletiva
No planejamento urbano contemporâneo, a diferença entre desenho autoral e desenho como processo torna-se cada vez mais evidente. O desenho autoral concentra decisões e cria imagens de cidades fechadas, em que a forma e a visão do projetista determinam a configuração do território. Já o desenho processual, defendido por urbanistas como Bernardo Secchi e Paola Viganò, desloca o foco da forma final para estratégias, diretrizes e participação coletiva, lidando com a complexidade, a fragmentação e as mudanças constantes da cidade contemporânea.
O desenho como processo se articula à gestão democrática da cidade, prevista pelo Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001), que reconhece a população como participante ativo na formulação, execução e acompanhamento dos planos urbanos. Ferramentas como conselhos municipais, audiências públicas e oficinas participativas não são apenas procedimentos legais: são mecanismos centrais para transformar o desenho em instrumento de mediação social, capaz de equilibrar interesses diversos e orientar decisões em consonância com a função social da cidade, como também observou Vittorio Gregotti ao refletir sobre o projeto como dispositivo crítico do território.
Além disso, essa abordagem dialoga com a Nova Agenda Urbana, aprovada pela ONU na Conferência Habitat III, que propõe cidades inclusivas, resilientes, seguras e sustentáveis, e com o ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, que reforça o direito à habitação adequada, à mobilidade urbana, à qualidade dos espaços públicos e à participação cidadã na tomada de decisões. O desenho processual organiza não apenas formas, mas procedimentos, pactos e estratégias compartilhadas, tornando o planejamento urbano flexível, adaptativo e socialmente legítimo.
E é justamente nesse contexto que se revela o poder do desenho como processo. Em oficinas e consultas públicas, o momento mais importante não é quando o planejador apresenta uma solução pronta, mas quando os participantes olham para o desenho e se reconhecem nele. Uma moradora pode apontar para uma praça imaginada no cenário e dizer: “É aqui que quero que meus filhos cresçam”. Nesse instante, o desenho deixa de ser uma proposta técnica e se transforma em saber coletivo, resultado da escuta, do diálogo e da corresponsabilidade entre cidadãos, gestores e técnicos. É quando o desenho se dilui, se transforma e se torna uma obra construída por todos, reforçando que a cidade não é de um autor, mas de quem nela vive e decide sobre seu futuro.