O perfil da Casa Branca publicou uma foto em preto e branco do presidente Donald Trump triunfante com o acrônimo FAFO que, no linguajar do baixo Bronx sintetiza a frase: Fuck Around and Find Out. Numa tradução livre e mais educada, seria o nosso Vacilou, Perdeu. Ou, Quem Mexe com Fogo acaba Tostado.
Ironizava o presidente venezuelano Nicolás Maduro, abduzido pela tropa de elite norte-americana, acusado de chefiar o narcoterrorismo. Perante a Corte de Nova York, onde Maduro foi apresentado, essa queixa já foi retirada e não se sabe qual a substituirá. A de fraudar eleições não pode ser porque Trump apoiou a vice-presidente Delcy Rodriguez, marxista desde o seu pai e que prega a continuidade do "regime bolivariano". O povo venezuelano livrou-se de Maduro, mas não da ditadura.
Simón Bolivar passou a ser venerado pelo marxismo venezuelano, depois que Hugo Cháves começou a citá-lo em seus discursos, como o grande inspirador do socialismo. Foi a primeira vez que uma figura histórica, depois de 200 anos, passou da direita para a esquerda. O próprio Karl Marx chamou Bolívar de "canalha", por defender o absolutismo monárquico nos territórios que ele ajudara a libertar do rei espanhol. Foi latifundiário e senhor de escravos. Seu maior medo era que negros, índios e mestiços tomassem o governo e instalassem uma "pardocracia". Benito Mussolini, o criador do fascismo, elegeu Bolivar à condição de herói e ele mesmo se julgava uma reencarnação do caudilho.
Bolívar sonhava ser coroado o Rei da América Latina. Morreu antes. Dois séculos depois, talvez Trump realize este sonho. Como corsário do século 21 assalta petroleiros no Mar do Caribe, para ficar com o butim. As ditaduras poderão sobreviver, uma vez alinhadas com os interesses dos EUA. Trump trabalha com déspotas sauditas, com a Junta Militar egípcia e com oligarcas reais dos Emirados Árabes.
A doutrina do presidente James Monroe, de 1823, pregava uma "América para os Americanos". Uma forma de impedir que os países europeus instalassem colônias no Hemisfério. Como corolário, Theodor Roosevelt, no início do século 20 aperfeiçoou a cartilha com a política do "Big Stick" - "Fale manso e carregue um grande porrete". Diplomacia amigável com a ameaça implícita de uso da força militar para garantir os interesses americanos.
Agora, por suas próprias palavras, Donald lançou a Doutrina "Donroe". O Hemisfério é dele, o controle do fluxo de pessoas, das drogas e dos ativos estratégicos ficam sob vigilância dos EUA. As petrolíferas norte-americanas cuidam de explorar as reservas de óleo e gás. A democracia fica para depois, quando estiver tudo organizado. A doutrina trumpista vai precisar da Groenlândia, por questões de segurança. Simples assim, como se fosse a uma compra em supermercado. Ou adquire o território, que é da Dinamarca há 200 anos, ou irá ocupá-lo com o uso da força. Para assegurar a esfera de influência norte-americana no hemisfério, Trump também vai precisar enquadrar a Colômbia, o México e Cuba. Kennedy tentou derrubar o regime dos irmãos Castro, em 1960, mas deu mole. Da próxima vez será diferente, com Trump mais forte, mais tirânico, mais armado e mais desavergonhado.
E o Brasil, como fica? O grande desafio de quem ganhar a eleição presidencial será o de amansar a fera, de tal maneira que não leve uma patada da besta. Vejo três estratégias para o governante brasileiro. Primeira: enfrentar a potência, como um chefe de Estado destemido, tipo macho-man e seja o que Deus quiser. Segunda: submeter-se - entrega o pré-sal, a soja, a carne, o café e o que ele quiser mais, em troca de proteção. Terceira: autonomia light com colaboração negociada via diplomacia pragmática. Algo parecido com o estilo Zé Carioca, no desenho de Walt Disney, também com o Pato Donald de temperamento explosivo e impaciente - Nosso herói perde as penas, mas não perde a dignidade.