Meio que por acaso ou talvez pela estranha sincronicidade dos sentimentos que se irmanam, fui convidada para participar de um painel de debates sobre um filme que estreará em janeiro nos cinemas. “Jovens Mães” foi vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes e, aos meus olhos de leiga, mas admiradora da Sétima Arte, tem tudo para conquistar muitos outros prêmios. Dirigido pelos consagrados cineastas belgas, os irmãos Dardenne, o filme conta as experiências de cinco adolescentes, emocional e economicamente vulneráveis, moradoras de uma casa de acolhimento, diante da gravidez precoce.
Guardadas as devidas proporções, embora ambientado na Bélgica, poderia (im)perfeitamente se passar no Brasil. Não vou dar spoilers, porque entendo que é preciso assisti-lo, de preferência no cinema, onde a imersão de imagem e som é capaz de vencer a quarta parede e nos transportar para uma realidade que é mais próxima do que gostaríamos. Sugiro atenção especial à peculiar trilha sonora, cujas notas, mesmo passados alguns dias, ainda parecem ressoar aos meus ouvidos.
Creio que durante toda minha vida estive em contato com crianças e adolescentes abrigados, mesmo quando eu mesma ainda nem era adulta, em atividades de voluntariado. A delicada, porém, potente, narrativa do filme, transportou-me para dentro de muitos relatos que ouvi e situações que acompanhei, arrancando-me lágrimas.
Se eu fosse capaz de transpor em palavras a beleza e a verdade que o filme “Jovens Mães” imprime, seria igualmente uma obra de arte, mas nem me atrevo. Reflito, entretanto, que a narrativa, fictícia na apresentação, mas fiel à verdade de centenas de milhares de mães adolescentes e desprotegidas, vai muito além de um único recorte.
Muita coisa está errada quando uma menina engravida enquanto ainda é tempo de crescer; quando tem que criar uma criança sozinha; quando o pai, adolescente ou não, acredita ter o direito de não fazer parte; quando não há para onde correr, sem saber a diferença entre ninar e ser ninada. Diante de famílias desestruturadas, resta à sociedade, pelas instituições públicas e privadas, oferecer um oásis, um lugar de respiro e esperança, permeada pelo senso de responsabilidade, a essas jovens mães, como tem feito, aqui em São Paulo, a Santa Fé, instituição religiosa e benemerente, há décadas voltada ao acolhimento de crianças e adolescentes.
No painel de debates, uma mulher de 42 anos dava seu testemunho. Grávida aos 14, usuária de drogas, foi acolhida pela Santa Fé, onde a filha nasceu. Naquela sala de cinema, sentadas lado a lado, eram a prova viva de que destinos também se constroem com amparo e entendimento. A filha, aos 29, uma publicitária, olhava para a mãe com gratidão e afeto de quem sabe que venceu os estigmas da miséria.
Impossível não se comover e, nesta época do ano, não associar a imagem do Menino na manjedoura, pobrezinho, ao lado de sua humilde mãe, ao desejo de que todas as crianças venham ao mundo cercadas de uma Família, seja ela como for, repleta de respeito e de amor.
Que o Natal seja mais do que uma palavra. Que seja verbo e esperança.