OPINIÃO

Imprevisões para 2026

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

Depois da guerra no século passado, a previsão tornou-se um grande negócio. Milhares de pessoas no mundo vivem de fazer previsões sobre todos os temas.

Esse pessoal sabe de tudo: economia, demografia, possibilidade de terremotos e até mesmo se o Corinthians vai ser campeão da Libertadores.

Vamos para o 26º ano do Terceiro Milênio e a única certeza é que o futuro continua em grande parte tão imprevisível quanto sempre foi. Melhor é recolher lembranças, como aconselhava Jorge Luís Borges. "Que importa o tempo já ter passado se nele houve uma plenitude, um êxtase, uma tarde". Em algum momento o passado esteve a serviço dos prazeres da alma.

A princípio, profecia significava palavra divina. Os profetas bíblicos não eram profetas porque previam acontecimentos, mas porque traziam uma mensagem de Deus. Da mesma forma, na tradição islâmica, Maomé foi o profeta por falar em nome de Alá, não por prever fatos. Como o futuro se insinuava na ideia do profeta, com o tempo, "profético" passou a ser sinônimo de "previsão".

Quem toma uma decisão no trabalho, quem faz um investimento financeiro ou decide apostar na Megasena, deve ter no mínimo a sensação de que está nas malhas de uma temível e silenciosa besta chamada Futuro que pode, num toque, desfazer os planos mais bem elaborados. Saber o que tal monstro esconde é a chave para o sucesso ou o fracasso em todos os nossos projetos de longo prazo. Nenhum outro conhecimento é tão importante ou tão difícil de ter.

O profeta da era moderna é um pouco diferente daqueles que conhecemos como videntes, cartomantes e astrólogos. Existe a previsão como ciência. Há físicos que preveem terremotos, erupções vulcânicas, meteoros e passagens de cometas. Demógrafos e estatísticos estudam a população futura e a idade com que as pessoas poderão adoecer e morrer. Batalhões de estrategistas em administração e mercado ganham a vida aconselhando empresas a adaptar seus métodos de trabalho a um mundo em mutação. Os governantes, no limiar de um novo ano, aparecem para nos prometer um porvir cor de rosa, nunca antes visto na história deste país.

Uma ciência que tem a possibilidade de uma verdadeira previsão é a genética. Sua aplicação mais evidente é saber da predisposição de uma pessoa de sofrer determinada doença e assim evitar a transmissão por hereditariedade. Às vezes, os cientistas penetram na seara dos antigos adivinhos - como, por exemplo, na previsão do tempo. Na antiga Babilônia, as pessoas não confiavam na astrologia e se voltavam para os fatos e tradições, que eram guias mais precisos. Mais ou menos como eu, lá em casa: sei que vai chover porque o meu cachorrinho procura proteção e pula no meu colo.

Na véspera do Réveillon, vi em um programa de tevê interessante discussão sobre a cor da calcinha a ser usada na passagem do ano. Branco é paz; rosa é amor; vermelho, paixão; e amarelo chama riqueza. Para não errar usei cueca amarela, calça branca, camiseta laranja e um lenço verde. Sem esquecer o roxo-purificação das meias.

Em outro quadro do programa surgiu um especialista em conselhos sobre "como esquentar as relações". Se a vontade sexual já não é a mesma de antigamente, os parceiros devem planejar uma viagem para um lugar romântico, por exemplo. Se viajar é impossível, o sexólogo sugeriu que, pelo menos, o casal transe em locais imprevistos como a mesa da cozinha ou algum vão da escada. - Ah! Minha mulher não vai topar... (descartei).

Os economistas opinam que o Brasil vai crescer em 2026. Mais por inércia do que por estímulos. A agropecuária, mais uma vez, será "a salvação da lavoura", com uma supersafra.

A vida é o aqui e agora e não o que estamos esperando. Caso contrário, o perigo é não vivermos o real-hoje, o único a ser melhorado para poder nos assegurar um futuro melhor. Feliz Ano Novo.

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