Gosto de dizer que alguns anos parecem nascer vocacionados ao desafio. 2026 é um deles. O Brasil entra no novo calendário carregando tensões acumuladas, expectativas eleitorais à flor da pele e uma economia que tenta respirar, mas enfrenta cada vez mais obstáculos. Não é exagero afirmar que atravessaremos um período em que política e economia andarão de mãos dadas — e não necessariamente em sintonia.
No plano fiscal, o país vive uma realidade desconfortável que já não cabe mais debaixo do tapete: o endividamento público segue firme em trajetória ascendente, enquanto a carga tributária bate no teto da capacidade de suporte da sociedade.
É ilusório imaginar que, em um ano eleitoral, surgirá de súbito o espírito reformista capaz de segurar gastos e promover austeridade. A história recente mostra o contrário. Em eleições, a tentação de ampliar despesas vence a prudência, e 2026 dificilmente fugirá dessa regra não escrita da política brasileira. Seria quase esperado observar novas pressões sobre o orçamento, sobre o déficit e, claro, sobre a credibilidade fiscal.
O Banco Central viverá, mais uma vez, seu ritual de equilíbrio instável. A economia enfraquece, pede juros menores, mas a incerteza política e fiscal exige contenção. Assim, a taxa de juros deve cair, sim — mas naquele ritmo que irrita quem tem pressa e tranquiliza quem teme a inflação. O Comitê de Política Monetária precisará atuar como equilibrista profissional: qualquer passo mais ousado pode colocar a inflação de volta no centro do palco; qualquer hesitação excessiva pode aprofundar a desaceleração do PIB. Um dilema clássico, mas agravado pela turbulência eleitoral.
E, falando em atividade econômica, 2026 não dará margem a euforia. O crescimento será mais tímido, consequência direta da combinação entre desconfiança, incertezas e esgotamento fiscal.
O setor privado deve adotar o modo de espera — e quem pode culpá-lo? Em momentos assim, empresários costumam postergar investimentos, consumidores recalculam rotas e o Estado, atolado em gastos correntes, tem pouca capacidade de impulsionar o desenvolvimento.
O ponto mais relevante, no entanto, virá após as eleições. Quem assumir a Presidência encontrará um país que exigirá firmeza e coragem. Caso 2026 seja mais um ano sem controle rigoroso das contas públicas, o governante eleito herdará em 2027 um terreno ainda mais árido. Será inevitável encarar uma reforma profunda do Estado, não apenas modernizadora, mas saneadora. Não se trata de vontade política — trata-se de necessidade econômica. Continuar ampliando despesas obrigatórias sem rever a estrutura do setor público significa empurrar o país para outro ciclo de baixo crescimento, juros altos e incerteza crônica.
Portanto, 2026 será um divisor de águas. Não porque teremos uma Copa do Mundo, não porque será um ano eleitoral — mas porque o Brasil está chegando ao limite de suas escolhas fáceis. Será um ano que exigirá maturidade coletiva e coragem institucional. Se soubermos atravessá-lo com responsabilidade, abriremos uma porta para um ciclo mais promissor. Caso contrário, continuaremos andando em círculos, revisitando velhos problemas como se fossem novidades.
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