OPINIÃO

O amor num voo de chocolate

Por Roberto Magalhães | O autor é professor de redação e autor de diversas obras didáticas e de ficção
| Tempo de leitura: 2 min

Aceita um chocolate? Era a moça do lado, companheira de voo. Confuso, disse não, depois, sim. Não era bonita, feia também não. Chocolate pra mim é música, ela disse, é dança, atiça a minha alma, mexe com o meu corpo. Trincou a barra nos dentes, sorriu, pronto já estou dançando. Eu sou Maria. Eu sou José. Essa imagem do corpo dançando me fisgara. Maria, respondi, nada me faz mais feliz do que dançar salsa cubana.

Que coincidência, José, a linguagem dos tambores cubanos é caliente, me enfeitiça. Fui fisgado outra vez, agora pela palavra "linguagem". Você usou a palavra exata, Maria, tudo é "linguagem": a poesia, os tambores, o corpo, as águas, o amor... A beleza escreve e grita em tudo, mas, infelizmente, poucos têm olhos de ler. Fiquei vaidoso, acreditando ter dito algo poético, até filosófico.

Desculpe-me, José, penso diferente. Antes da linguagem, é preciso ter música na alma. Primeiro a música, só depois a linguagem. Enquanto ela falava, a beleza, que nela eu desconhecia, aflorava e a iluminava. Maria era linda, era música, era corpo dançante, era salsa, era chocolate.

Quando me percebi, já havia destampado uma coragem atrevida que desconhecia em mim. Maria, me desculpe, é uma loucura o que vou lhe dizer, mas estou apaixonado por você! Sua alma incendiou a minha. Com pouco chocolate, você me inundou de poesia. Ela me olhou fundo, encostou o seu rosto no meu e sussurrou: eu também, José, me apaixonei por você. Incrível como seus olhos sabem conversar com os meus. Sabe José, a gente devia se apaixonar sempre, teríamos música na alma, viveríamos encantados. Só que agora o avião pôs as rodas no chão, melhor aterrissarmos também.

É hora de pôr os pés no chão. Sou casada, amo meu marido, temos uma filhinha, linda, nossa vida tem sido um chocolate e assim deve continuar. Foi a última coisa que ela me disse. Nenhum endereço. Nenhum telefone. Nenhum abraço.

Notei, contudo, que ela dobrou cuidadosamente os dois papeizinhos laminados dos nossos chocolates e os guardou na bolsa. Foi o que ela levou de mim. E eu dela nada guardei, senão essa difícil lembrança.

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