OPINIÃO

Exercício de alterar a história

Por Adilson Roberto Gonçalves | O autor é pesquisador da Unesp – Rio Claro
| Tempo de leitura: 1 min

O "se" na História não existe. Que fique claro se tratar da conjunção condicional e não da partícula apassivadora e de indeterminação do sujeito. Se algo tivesse sido diferente, o desenrolar dos acontecimentos teria sido outro.

As hipóteses que são constantemente testadas nas chamadas ciências exatas, por se basearem em experimentos que podem ser controlados, nas ciências humanas podem ter o impeditivo da realização, uma vez que estudam principalmente fatos pretéritos ou em curso.

A ficção se farta da possibilidade de mudança história para criar cenários distintos em que a condição humana possa ser avaliada também de formas distintas. E grandes escritores fazem constantemente o exercício para entender a si próprio e aos mundos que cria com suas obras. José Saramago é um deles.

O colunista e imortal Ruy Castro propôs algo semelhante em recente artigo para a Folha de S. Paulo (Corrigindo a história). Ele avaliou a possibilidade da mudança de finais de jogos e filmes para ser favorável ao narrador, tal como o Brasil ganhar a Copa de 1950 ou o filme Casablanca terminar com os dois protagonistas juntos. José Saramago, cuja morte completou 15 anos no último 18 de junho, fez algo semelhante, mas alterando a história em um livro (História do Cerco de Lisboa).

No caso, a consequência da introdução de um "não" pelo revisor no texto foi uma bela história de amor. Um exercício real apenas na ficção, portanto.

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