Como pode ser definido o conceito de felicidade nos dias atuais?
Leandro Karnal - Onde houver seres humanos, o conceito vai variar. Temos vivido a ascensão de dois valores fortes que regulam certo padrão de felicidade: o consumo e a popularidade via redes sociais. Sou adepto da ideia clássica de que a felicidade não é aleatória, mas deriva de opções e ações efetivas e de como lidamos com fracassos e sucessos. A velha ideia de que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional contém parte da crença da nossa participação ativa nas coisas.
E o conceito de liberdade?
Leandro Karnal - Hamlet (personagem do dramaturgo inglês William Shakespeare) define como independente do espaço: posso ser livre em uma casca de noz. Há coisas que limitam minha liberdade, como os vícios, por exemplo, e, por isso, devem ser combatidos. Drogas, álcool, excesso de qualquer coisa que se imponha à minha vontade é algo complexo. Apesar de parecer contraditório, por vezes, o controle de si garante mais liberdade. Somos sempre livres, mas gostamos de atribuir limitações.
Como as redes sociais influenciam ideais de felicidade e liberdade?
Leandro Karnal - Criam modelos, como grandes religiões e pensamentos criam. Estabelecem um tempo líquido (conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman) no qual "ser" é ser notado. É difícil saber se é bom ou ruim, porque a minha geração, mais velha, ainda distingue perfeitamente entre um amigo real, de carne e osso, e um amigo virtual. Isso não ocorre mais (nos dias atuais), e a própria percepção do real está ligada a redes. Temos um outro paradigma, um novo modelo. As redes formaram outra percepção de mundo, e, como toda novidade, encontra detratores, especialmente entre adeptos da velha ordem.
Qual é a importância da tristeza para nossa vida?
Leandro Karnal - A tristeza é um estado natural e não indesejável. Não se confunde tristeza com depressão, esta última é uma doença que escapa ao controle do indivíduo e que necessita de atenção profissional. A tristeza é parte essencial ao projeto de felicidade. Por exemplo, não importa o que você faça, você perderá alguém importante na sua vida. O luto mostra a importância das pessoas e é um amor com vetor trocado. Sou feliz porque já estive infeliz. A tristeza marca um ponto a partir do qual você estabelece a perspectiva da felicidade. Desejar que todos os momentos sejam de êxtase total é infantilidade. Perder meu pai e minha mãe rasgou meu coração e mostrou o quanto eu os amava. Hoje, sou melhor como pessoa pelo amor deles.
Como a liberdade e a felicidade influenciam em nossa vida como sociedade?
Leandro Karnal - Estabelecemos projetos públicos de felicidade. Todos querem a selfie do momento perfeito e com alguém famoso. Todos publicam e esperam likes. Ao contrário do que possa parecer, estamos em uma época de fraqueza narcísica. O verdadeiro narcisista não precisa da aprovação de ninguém.
É possível conquistar a felicidade plena?
Leandro Karnal - A palavra plena não condiz com a condição humana. As religiões a projetam, no além paradisíaco. Em primeiro lugar, temos a finitude e, em segundo lugar, o caráter efêmero de tudo, do prazer à saúde. Único animal com consciência da morte, o ser humano vive em uma estrada determinada com fim conhecido. O que fazer antes do fim é o desafio de todo gesto de pensar.
Vivemos em uma sociedade em que somos, praticamente, obrigados a ser felizes o tempo todo, mas, em contrapartida, os níveis de depressão só aumentam. O que está acontecendo?
Leandro Karnal - Isso é a grande cafonice contemporânea. Todos sorrindo o tempo todo, vestindo uma máscara dentária. Estamos com preconceito com a dor, inevitável ao viver. Achamos que a infelicidade é um acidente quando ela é inevitável em determinados momentos. Ter de parecer feliz sempre e postar sempre como estamos bem é algo muito, mas muito cafona.
De que forma a crise financeira e moral que enfrentamos no Brasil influencia na percepção de felicidade e liberdade das pessoas?
Leandro Karnal - Temos uma época de pessimismo dominante, como a primeira década do século 21 foi de otimismo. Esse movimento é pendular na história. Mas essa é uma condição sociológica geral. Pode ser que você esteja muito bem hoje, em meio ao pessimismo sobre as eleições de 2018. Pode ser que, no momento em que o Brasil parecia prosperar, em 2005, por exemplo, você estivesse mal. O pessimista, em geral, recolhe do real o que reforça sua posição pessimista.
Como você analisa a mudança de valores, no Brasil, ao longo da nossa história?
Leandro Karnal - Toda época histórica constitui valores. Não apenas no Brasil, mas em todos os lugares, cada época ditou suas regras e sempre houve adaptados e transgressores. Cada rebelde e cada ajustado pagam um preço por aceitar ou não as molduras. Não existem pessoas integralmente livres e felizes, mas algumas olham pelas grades, outras lamentam e outras decoram a cela.
A população brasileira está envelhecendo. Muitos enxergam isto como algo ruim. Como envelhecer feliz?
Leandro Karnal - Sou muito mais feliz aos 55 do que eu era com 18. Isso é subjetivo. A velhice tem mazelas, como a juventude tem. Quem anseia pela infância é o adulto, nunca a criança. A cor da morte combina com a cor da vida: jovens otimistas e estratégicos podem gerar, com mais facilidade, velhos otimistas e estratégicos. Há belezas e problemas no crepúsculo. Você tem mais dinheiro, menos colágeno, passa à frente nas filas, tem mais dores etc. Cada época é acompanhada de novas consciências. Pelo menos, o amadurecimento vem acompanhado de mais chance de ficar sábio. Ninguém é sábio com 15 anos.
Em um de seus vídeos, você fala que a solidão é "o lugar onde estou comigo mesmo". Na sua concepção, isto é bom?
Leandro Karnal - Solidão não depende de estar ou não com pessoas. Há solitários acompanhados e pessoas muito felizes sem ninguém. Solidão vista como defeito, é a falta que eu sinto, uma ausência, um vazio insuperável. Solidão como virtude é estar consigo, bem, pensando ou fazendo coisas: absorvendo um livro, um chá, um vinho, um quadro ou uma música. Os diálogos do meu eu com o mundo não dependem dos outros. Se você nunca pode estar com ninguém e nunca pode ficar sem outra pessoa, temos um problema que não é com a solidão, mas com você.