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Após 3 anos, leishmaniose volta a matar

Marcus Liborio
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Reprodução
Doença é transmitida pelo mosquito-palha

Malavolta Jr.
Diretor do CCZ, Luiz Ricardo Paes de Barros Cortez iniciou projeto de pesquisa inédito em Bauru

Depois de mais de três anos, Bauru voltou a registrar uma morte por Leishmaniose Visceral Americana (LVA). Trata-se de um homem de 42 anos, morador do Núcleo Eldorado (região do Jardim Araruna), que faleceu no dia 8 de janeiro deste ano - porém, o caso só foi divulgado nessa quinta-feira (19) pela Secretaria Municipal de Saúde. O diagnóstico da vítima foi notificado em 31 de dezembro do ano passado e, por isso, o óbito será contabilizado em 2017.

A morte de humano por conta da doença havia sido registrada na cidade pela última vez somente em 2014, informou a pasta. Em nota, a prefeitura ressaltou que, após o diagnóstico confirmar que o homem estava infectado, foi feita busca de casa em casa, num raio de 200 metros do imóvel da vítima, com a realização de inquérito sorológico em diversos cães.

Inclusive, o poder público iniciou, nesta semana, um projeto piloto que visa combater a transmissão da leishmaniose sem que seja preciso eutanasiar o animal.

CÃES

Até março deste ano, 170 cães já haviam sido diagnosticados com leishmaniose em Bauru. Deste total, 46 foram eutanasiados, enumera o chefe da Seção de Controle de Zoonoses do município, o veterinário Luiz Ricardo Paes de Barros Cortez.

O percentual de casos positivos representa 9% de um total de 1.899 mostras de exames realizados.

"Nem todos foram submetidos a eutanásia porque o processo é demorado. A gente tem que entrar em contato com a pessoa e nem sempre recebemos a resposta na hora, porque os sintomas não aparecem no início. Depois de um bom tempo, ligam quando o cão já está doente", explica o veterinário.

POR BAIRROS

Os exames foram realizados pela prefeitura em oito bairros, justamente aqueles com maior transmissão - que registraram casos em humanos.

As buscas ativas em Bauru ocorreram, até agora, nas vilas Industrial e Dutra, Parque Santa Edwirges, Fortunato Rocha Lima, Nova Esperança, Bauru 16 e Pousadas 1 e 2.

'DEVER DE TODOS'

Presidente da Comissão da Responsabilidade Social no Terceiro Setor da OAB Bauru, Leandro Douglas Lopes observa que todas as entidades engajadas no combate à pobreza, proteção animal, questões ambientais e assuntos relacionados à urbanização devem estar envolvidas no trabalho de prevenção e conscientização.

"Não se pode responsabilizar, exclusivamente, o poder público por essas ações. Hoje, as entidades do terceiro setor estão diretamente envolvidas com a população. Esta proximidade parece-me essencial para ações efetivas no combate à leishmaniose. Saúde é função pública, mas cidadania é dever de todos", conclui Leandro Lopes.

Prefeitura inicia projeto piloto para tentar evitar eutanásia de cães diagnosticados com a doença

Divulgação
Coleira também será usada em cães que já têm a doença

No Brasil, uma grande parte dos animais não morre pela leishmaniose em si, mas eutanasiados ao serem diagnosticados. Isso porque o Ministério da Saúde orienta que não se faça o tratamento dos cães contaminados. Para tentar mudar esta realidade, a Divisão de Vigilância Ambiental de Bauru iniciou, nesta semana, uma ação que visa combater a transmissão da doença sem que seja necessário realizar a eutanásia em cães.

Trata-se de um projeto de pesquisa do veterinário do município Luiz Ricardo Paes de Barros Cortez. Ele narra que o projeto já foi aprovado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP e, ainda, conta com apoio do Instituto Adolf Lutz.

Cortez explica que, atualmente, as pessoas usam coleira com inseticida em cães saudáveis como método preventivo para espantar e matar o mosquito-palha, vetor da doença, cujo procedimento já foi comprovado como eficiente. "A ideia é usar essa coleira em cães diagnosticados com a leishmaniose. A eutanásia existe justamente para evitar que outros animais sejam infectados e este equipamento terá a mesma função. Então, o cão pode adoecer e morrer ou se recuperar após tratamento".

Inicialmente, foi autorizado que o procedimento seja realizado somente no bairro Isaura Pitta Garms e adjacentes (Parque Giansante e Chácara São João), locais em que, dos 500 animais submetidos a testes rápidos, 63 foram diagnosticados com a doença. Todos eles receberão a coleira durante o desenvolvimento do projeto, que recebeu o nome de "Coleiramento Inverso".

Ao todo, a prefeitura adquiriu 400 coleiras. Nesta semana, seis cães já receberam o equipamento, finaliza Luiz Cortez.

Infecção

A transmissão em humanos ocorre após a picada do Lutzomyia longipalpis, conhecido como mosquito palha, que se infecta pelo protozoário flebotomíneo depois de ter picado um animal doente, que, na área urbana, podem ser cães e gatos. Os sintomas em humanos são: febre, emagrecimento, fraqueza, anemia e aumento de baço, dentre outras manifestações.

O cão é considerado um importante reservatório do parasita. A leishmaniose visceral canina ocorre somente por meio da picada da fêmea do flebotomíneo infectada. O cão pode adoecer logo ou demorar meses para apresentar sintomas, que são atrofia muscular, diarreia, lesões oculares, sangramentos, descamação, úlceras e também nódulos na pele.

 

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