| Samantha Ciuffa |
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| Alexandre Volney Villa: em mulheres, a ocorrência de infarto é bem menor |
Jovens não deveriam sequer constar em estatísticas de infarto. Mas, infelizmente, fazem parte dela, embora a definição do que seja infarto em jovem seja variável de acordo com a literatura médica. A incidência, porém, não está no topo das ocorrências. Mas é exatamente o critério de poucos registros - diante do universo total de ocorrências de infarto - que chama a atenção de profissionais e da pesquisa em medicina. O fato concreto, objetivo, óbvio, mas de advertência por si só, é o de que homens e mulheres saudáveis, no auge da energia física e do desenvolvimento, não deveriam perder a vida deste modo.
Exatamente a presença de jovens nas estatísticas de atendimento de saúde por infarto e, inclusive, nos dados de óbitos, que se amplia a preocupação, argumenta o cardiologista Alexandre Volney Villa. Ele é graduado pela Unesp, fez residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo, em cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor), especialização em tomografia e ressonância Cardiovascular (InCor) e também em ecocardiografia (HNB/SP).
Infarto, tecnicamente, aponta o médico, é doença que causa obstrução coronariana do fluxo sanguíneo ao coração e leva à lesão do músculo cardíaco. "A gente considera de uma forma geral que, abaixo dos 45 anos, é uma manifestação precoce. A incidência em pacientes jovens é baixa. Mas nem por isso deixa de ser preocupante. Porque são jovens. A cada 1.000 infartos, apenas 5% são em jovens homens e 1%, em mulheres jovens", menciona.
Mas há outros fatores a considerar no assunto. De maneira geral, o evento é incomum. Por outro lado, hoje o que acontece é que o desenvolvimento tecnológico é capaz de diagnosticar muitos casos que por vezes não apareciam nas estatísticas. "A tecnologia gerou dados e a precisão pode levar à impressão de aumento entre jovens por isso", pondera.
Outra ponderação é quanto à desinformação. É comum confusão entre ocorrência de infarto e outro problema no coração de jovens (e adultos). "Fulano sofreu infarto, teve dor no peito e o braço adormeceu", virou 'definição' consumida por muita gente, no jargão popular. E esse desconhecimento dificulta outras avaliações. Então há várias situações em que o coração do jovem sofre prejuízos, eventos graves, e que não são especificamente infarto clássico. Dissecção, quando a coronária rasga, doenças congênitas e trombofilia (coágulos espontâneos que podem levar ao infarto por trombose da coronária) são outros casos", aponta.
Mas e as mulheres, por que nelas a ocorrência é muito menor do que em homens? "A mulher tem muito menor incidência de infarto que o homem porque ela tem uma proteção natural pelo estrógeno, hormônio. Ele tem potencial de estabilizar, atenuar o desenvolvimento de artereoesclerose. Mas vale dizer que a incidência de infarto se iguala entre homens e mulheres depois da menopausa", explica Villa.
ORIGEM E DIFERENÇAS
Outro aspecto é que os infartos em jovens têm origem por diversas formas. "E a fisiopatologia que gera o infarto é diferente nos jovens, os indivíduos abaixo dos 45 anos, do que nos indivíduos mais velhos. Nos mais velhos é, basicamente, a placa de gordura ou de calcificação dentro da artéria que entupiu e gerou o infarto. Nos jovens isso pode acontecer, mas é menos comum", posiciona o médico.
Assim, se há histórico familiar importante, como o pai infartou, o irmão infartou, o quadro muda. "Então, a base genética muito forte pode incidir para o desenvolvimento da arterosclerose que é esse processo de acúmulo de gordura nos vasos sanguíneos, dentre os quais a coronária", afirma o cardiologista.
Mas os jovens apresentam outras causas que exigem procedimentos diferentes de diagnóstico. "A mais comum é o uso de drogas. É todo tipo, mas aqui a mais comum é a cocaína. Ela causa obstrução coronariana também. Mas nesse caso o mecanismo não é placa. O jovem drogado tem as artérias normais, só que a cocaína causa um espasmo, a artéria contrai durante o uso. Ou pode causar microcoágulos que podem entupir. E a origem disso é a cocaína", enfatiza Villa.
Como em outras doenças, os fatores de risco mudam ao longo dos anos e da evolução da medicina e, ainda, do comportamento humano. "Nos anos 70, 80, o tabagismo era um indicador bem significativo de morte. Hoje ele continua sendo um gatilho importante, sobretudo entre jovens, mas a incidência do tabagismo tem diminuído", diz.
Villa menciona que a incidência de obesidade é maior, atualmente. Regra geral, a maior ou menor chance à doença cardíaca segue uma combinação de fatores. "E o infarto entre jovens está muito associado à base genética e ao modo de vida. Mas o indivíduo colabora com a genética dele com obesidade, sedentarismo, dieta inadequada e, por vezes, com tabagismo, e droga", complementa o cardiologista.
O médico chama a atenção para a inversão da lógica de prevenção. "O cidadão leigo tem de entender que os cuidados com o coração não têm de começar quando ele sente o infarto. Os cuidados têm de começar quando seu coração é bom e o indivíduo é jovem e saudável. Porque é esse cuidado ao longo do tempo com o corpo e sua saúde que vai fazer a diferença depois. A prevenção é, sim, o menor custo e o caminho menos doloroso e efetivo no caminho de evitar, postergar ou atenuar o evento do infarto", reforça.
Formigamento e aspirina
Fábio Parra tinha 33 anos quando começou a não se sentir bem, após um jogo de futebol em um clube da cidade, em uma tarde de sábado de julho de 2009.
"Eu jogava futebol duas vezes por semana. Eram minhas únicas atividades física da semana. Mas nunca havia sentido nada. Terminei o jogo, tomei banho e almocei feijoada com os amigos no clube. No final da tarde, comecei a sentir um formigamento no braço esquerdo. Depois, apareceu também uma pressão leve, de fora pra dentro, bem no meio do peito. Não sentia dor, mas desconforto. Fui para casa. Disse à minha mãe que estava muito cansado. Liguei para um amigo para pedir que me cobrisse no turno do trabalho da noite, que seria da meia noite às 6h15. E fui com minha mãe no pronto atendimento para ver o que havia", conta.
Fábio trabalhava em dois turnos e vinha de um acúmulo de cansaço com estudos e dois trabalhos. Mas eu não sabia o que era. Estava no sofá assistindo à TV quando decidi pedir à minha mãe que me acompanhasse no médico porque não estava bem. Falei dos sintomas ao médico e ele pediu na hora um exame de sangue. Esperei uns 20 minutos o resultado e já vieram com minha mãe, a enfermeira e uma cadeira de rodas. Fui direto pra UTI e lá fiquei em tratamento por uma semana", conta Fábio, hoje com 43 anos.
Profissional da área de televisão, Fábio informa que passou mal com a notícia. "Fiquei nervoso, como acho que é comum acontecer com todos. A pressão caiu. Mas já fui medicado e cuidado na UTI. Deu tudo certo. Mas e se eu não tivesse ido ao pronto atendimento? Uma semana antes, eu tinha concluído checkup geral e deu tudo certo. É um choque que você leva com a notícia de infarto", comenta.
No procedimento médico-hospitalar, Fábio recebeu um stent (pequena prótese em formato de tubo colocada no interior de uma artéria para evitar uma possível obstrução total dos vasos). A rotina diária, para sempre, envolve cuidados com a saúde. "Desde aquele sábado de julho de 2009, eu nunca mais deixei de tomar uma aspirina prescrita para afinar o sangue e outro remédio pra arritmia. Vou tomar pra sempre", acrescenta.
Parra voltou a sentir desconforto algum tempo depois, com reações atípicas parecidas com seu caso de infarto, por duas vezes. "Mas graças a Deus, não era nada. O fato é que sou muito ansioso e quem já passou por isso fica mais nervoso quando começa a sentir os mesmos sintomas. Estou bem", finaliza. Hoje ele está com 43 anos.
Drogas X genética
O médico Alexandre Volney Villa também destaca a relação entre doença do coração e uso de drogas. "O uso de substância ilícita tem incidência maior do que o fator genético na ocorrência de infartos entre jovens", afirma.
No site da Sociedade Brasileira de Cardiologia existe o cardiômetro. O indicador traz o número de doenças cardiovasculares e não só de infartos. "Lá está que a incidência de infarto tem aumentado entre jovens, embora a medicina tenha conseguido diminuir a incidência de morte decorrente do infarto", comenta.
O cardiômetro mostra que, nos últimos três anos, morreram 340 mil pessoas por doença cardiovascular. O dado inclui o AVC, o acidente vascular cerebral. "Ou seja, o número registra que a população de uma cidade do tamanho de Bauru é aniquilada todo ano por doença cardiovascular", enfatiza Villa.
Em relação ao uso de bebida alcoólica, o cardiologista não desconsidera o vício como fator de risco importante para 'ajudar' no desenvolvimento da doença. "Porque o álcool é um depressor miocárdico. A miocardiopatia alcoólica não é especificamente o infarto, ou seja, a obstrução coronariana, mas prejudica muito o coração. E nos jovens há doenças congênitas (Kawazaki) que têm manifestação típica e há tratamentos para esses casos com anticorpos (imunoglobolinas)", argumenta.
Outra situação é relacionada ao aumento do uso de substâncias para prática de exercício em academias. "Alguns estimulantes podem desencadear problemas com o coração. Os hormônios (GH) são muito prejudiciais. A testosterona tem efeito pró-trombótico. O indivíduo que faz uso de esteroide e anabolizante está sob risco maior de fazer trombose, inclusive coronariana. Prescrições de substâncias com pouca regulamentação e de uso fácil são perigosos", adverte.
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