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'A droga roubou minha esperança'

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Douglas Reis
"A gente quase não sai de casa por medo de ele entrar e vender tudo", conta a mãe de usuário

Quarto do rapaz passa os dias fechado; família colocou casa à venda

Mulher mostra cartão de Dia das Mães do ano passado enviada da prisão pelo filho usuário de crack

Estímulo da vida, a esperança faz com que se tenha fé no amanhã. Mas, para a mãe de um usuário de crack em Bauru, o ânimo por dias melhores acabou nas últimas semanas. Cansada do vício do filho e das consequências que isso trouxe para a família, ela decidiu, mesmo sem provas, denunciar o rapaz por furto a um estabelecimento para que ele fosse preso.

O caso levanta discussão sobre o impacto social e criminal causado pelo uso de entorpecentes. Até que ponto pode chegar o desespero de um familiar quando um dos entes se envolve com drogas?

Psiquiatra e professora aposentada da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Florence Kerr-Corrêa, especialista em álcool e drogas, diz que o índice de cura dos usuários do crack não supera 30%, mas defende a insistência no tratamento.

No caso citado, o rapaz chegou a ser internado pelos familiares por quatro vezes.

"A droga roubou minhas esperanças, destruiu meu filho. Transformou ele em algo oco, um zumbi, nem expressão facial ele tem mais", conta a diarista de 54 anos, que pediu para ter a identidade preservada por segurança.

"A gente quase não sai de casa por medo de ele entrar e vender tudo. Colocamos até a casa à venda. Ultimamente, só tenho paz quando ele está preso", relata a mulher.

TENTATIVAS

Moradores da zona leste, ela e o marido, um caminhoneiro aposentado de 60 anos, enfrentam o vício do filho de 28 anos há mais de uma década. "Começou aos 14, mas percebemos apenas quando ele tinha 18 anos e já tinha perdido uma moto na biqueira. Nós recuperamos a moto e tentamos a internação, mas nada adiantou. Até escândalo em bocas de fumo eu fiz para resgatá-lo", cita a mãe.

Aos 23 anos, o filho começou a furtar dentro e fora de casa para sustentar o vício. "Eletrodomésticos, roupas, sapatos... Tudo ele levava, até minhas panelas, mas não denunciávamos para não prejudicar ele, tínhamos esperança", comenta a mulher.

Fora dos limites do lar, contudo, as ocorrências tomavam proporções maiores. Ele chegou a ser preso por cinco vezes. "É um ano preso e dois meses na rua, em média. Mas eu sempre fiz visitas na prisão, nunca o desamparei. No ano passado, ganhei até um cartão feito por ele de Dia das Mães", narra a mulher, mostrando a lembrança. "Mas o triste é que, atrás, sempre vinha uma lista de compras. Até acabei queimando várias cartas", completa.

FURTO E ACUSAÇÃO

Liberado da prisão em novembro de 2017, o rapaz chegou a trabalhar com o pai em uma marcenaria montada nos fundos de casa. Mas, nas últimas semanas, segundo a mãe, ele furtou um cofre com joias avaliadas em R$ 50 mil de um dos clientes, uma revenda de semijoias no Centro.

Ela conta que seu filho sabia a localização e o segredo do cofre porque havia ajudado na confecção. E, dias depois do crime, apareceu com relógios, celular, bicicleta e motos em fotos no Facebook, o que reforçou a tese dela. 

O fato foi denunciado à polícia e o rapaz chegou a ser detido na última quarta-feira. Fora do prazo do flagrante (o crime ocorreu dia 16 de abril) e sem provas, contudo, ele acabou liberado na delegacia para responder em liberdade, conta ela.

"A marcenaria era nosso ganha-pão. Ele não podia ter feito isso. Tenho rodado todos os dias atrás de pistas, porque sei que foi ele. Até já devolvemos os cheques do serviço aos donos da loja. As portas de casa fecharam para este filho. Meu coração está em luto", declara a mãe, com os olhos marejados.

Divulgação
Psiquiatra Florence Kerr-Corrêa, especialista em álcool e drogas

Crack: 30% se curam

Fatores genéticos ou sociais podem levar ao vício por drogas. No caso do crack, por exemplo, em um único mês de uso a dependência já se estabelece, diferentemente da bebida, que pode levar até 5 anos para que o vício apareça.

Segundo a especialista Florence Kerr-Côrrea, o índice de cura do crack é de até 30% dos usuários. "Mas vale a pena investir. Além da desintoxicação, é preciso que o paciente crie novos hábitos. Para os casos graves, são seis meses de tratamento, no mínimo", pontua. Ainda sobre o assunto, ela aponta que, aparentemente, a internação compulsória tem ajudado a melhorar os resultados.

Uma das novidades no tratamento é a premiação de acordo com o comportamento adequado do paciente. "O estímulo para ficar abstinente tem sido uma saída", reforça. Apesar de ela concordar que o Brasil anda a passos lentos no tratamento contra as drogas, diz que alguns locais de referência no Estado têm ajudado a resgatar centenas de pessoas do vício. "Em Campinas, Atibaia e Avaré há boas unidades para o tratamento e elas cobram pouco", detalha Florence.

Malavolta Jr.
Delegado Seccional, Ricardo Martines
JC Imagens/João Rosan
Major Fabiano Serpa, comandante do 4.º BPM-I

Polícias: droga mudou perfil de ladrões

O crack chegou com força ao Brasil por volta de 1993 e é apontado como a principal droga a mudar o perfil da criminalidade. Isso porque seu efeito é intenso e rápido, assim como a crise de abstinência.

"Antigamente, quem cometia crimes como furtos e roubos ou contra o patrimônio tinha como objetivo obter dinheiro. Hoje, estes mesmos crimes têm como principal autor o usuário de crack, que furta ou rouba com intuito de arrecadar objetos para usar como moeda de troca para a droga", ressalta o delegado Seccional, Ricardo Martines.

A análise é compartilhada pelo comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM-I), major Fabiano Serpa. "O tráfico virou uma grande mola propulsora da criminalidade. O problema é que a punição para o uso ou porte de droga ainda não é grave, o que estimula", acrescenta.

Martines lembra ainda que a lei isenta de pena quem comete crimes contra o patrimônio, como furto, contra os familiares (cônjuges, ascendentes e descendentes).

"Então, mesmo que essa mãe denunciasse os furtos em sua casa, o filho não ficaria preso", frisa.

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