Antes dos centros cirúrgicos, dos jalecos e dos instrumentos de alta precisão, a história do Dr. Milton Seigi Hayashi, 63 anos, cirurgião plástico que há décadas atua em Birigui, começou em um cenário bem diferente: um sítio, no meio da cultura de algodão, sem energia elétrica e ia a pé até a escola.
Filho de imigrantes japoneses, o médico cresceu ao lado de dois irmãos em uma família que, segundo contou à reportagem da Folha da Região, tinha três princípios como base: trabalho, honestidade e humildade. Foi também dentro de casa que nasceu a importância dada aos estudos.
A inspiração para seguir a medicina veio de um tio médico. Segundo Milton, naquela época ele enxergava no familiar uma referência de vida e chegou a pensar que gostaria de seguir o mesmo caminho.
O menino que saía da roça para estudar acabou chegando à Universidade Federal do Paraná e depois a Escola Paulista de Medicina da Unifesp, onde fez a especialização em cirurgia plástica. A formação foi marcada principalmente pela atuação em cirurgias reconstrutoras.
Em 1995, veio para Birigui. E foi justamente na sua cidade natal que sua profissão começou a ganhar uma segunda dimensão.
Não apenas a de tratar pacientes, mas a de usar o conhecimento médico para atender pessoas que não tinham condições financeiras de pagar por uma cirurgia.
“VOCÊ ME DÁ O MATERIAL E EU DOU A MINHA MÃO DE OBRA”
Pouco depois de chegar a Birigui, Dr. Milton foi convidado a integrar o Rotary Club da cidade. Foi ali que surgiu a ideia que mudaria parte de sua trajetória.
Em entrevista à nossa reportagem, ele contou que apresentou aos companheiros uma proposta simples: se conseguissem os materiais necessários, ele ofereceria o próprio trabalho para realizar cirurgias em crianças com orelhas em abano.
A iniciativa ganhou apoio. Foram realizadas campanhas, caminhadas e rifas para arrecadar recursos. O projeto também foi encaminhado ao Rotary Internacional e recebeu a parceria de um clube dos Estados Unidos.
Com os recursos obtidos, foram adquiridos materiais cirúrgicos e outros insumos necessários para os procedimentos.
O que começou como uma iniciativa pontual, porém, acabou se transformando em uma jornada de décadas.
NÃO ERA APENAS A ORELHA, ERA A AUTOESTIMA
Ao longo dos anos, o trabalho social foi muito além das correções de orelha.
O Dr. Milton relatou à reportagem ter atendido gratuitamente pacientes vítimas de acidentes, queimaduras e traumas, além de pessoas com malformações congênitas, cicatrizes e outras condições que exigiam procedimentos reparadores.
Em determinado período, também passou a atender pacientes no Ambulatório de Especialidades de Birigui, com foco em câncer de pele. Mas encontrou dificuldades estruturais para realizar os procedimentos no local.
A solução encontrada, segundo ele, foi levar os pacientes para sua clínica.
“Doutor, eu não tenho dinheiro para te pagar”, ouviu de alguns pacientes.
A resposta, conforme contou à reportagem, era direta:
“Não, não vai pagar nada. Deixa que é tudo por minha conta.”
Ele conta que, durante anos, forneceu estrutura, equipamentos, materiais e mão de obra para que essas pessoas pudessem ser operadas.
Mais de 200 pacientes, segundo sua estimativa, teriam passado por esse modelo de atendimento.
E foi nesse contato com os pacientes que o médico passou a perceber que a cirurgia plástica não produzia apenas uma mudança física.
“Não é porque não tem dinheiro que vai ficar sem essa cirurgia”, afirmou o médico à nossa reportagem.
BLEFAROPLASTIA, MAMOPLASTIA, RINOPLASTIA E ATÉ PRÓTESES DE MAMA
O trabalho também alcançou procedimentos considerados estéticos.
Segundo Dr. Milton, foram realizadas cirurgias em pacientes que apresentavam problemas que interferiam diretamente na qualidade de vida e na autoestima, como blefaroplastias, mamoplastias redutoras, rinoplastias, abdominoplastias e colocação de próteses mamárias.
Em alguns casos, a indicação estava associada a dores, dificuldades funcionais ou impactos emocionais.
Foram, segundo ele, quase uma dezena de pacientes que receberam próteses mamárias sem custo.
Mas nenhuma dessas iniciativas alcançou a dimensão do trabalho como as orelhas em abano.
Hoje, o médico estima estar próximo da marca de mil crianças e adultos atendidos gratuitamente.
UMA CIRURGIA CONTRA O BULLYING
Para o cirurgião, a correção das orelhas em abano vai muito além da estética.
Ele contou que, ao longo dos anos, ouviu relatos de famílias que buscaram atendimento gratuito, mas não encontraram alternativas para realizar o procedimento.
Segundo sua avaliação, muitas crianças convivem com constrangimento e bullying durante uma fase extremamente importante da formação pessoal.
O médico estima que mais de 500 mil crianças no Brasil sofram com o problema e não tenham acesso ao procedimento.
É justamente nesse ponto que pretende concentrar sua próxima batalha.
O MÉDICO QUE TAMBÉM VIROU PADRINHO, PATROCINADOR E APOIADOR
As cirurgias representam apenas uma parte da história.
Em diferentes momentos da vida, o Dr. Milton também ajudou famílias, estudantes, atletas e entidades.
Ele recordou, durante a entrevista, o caso de uma mulher que vivia em situação extremamente precária com duas filhas pequenas. Ao visitar a família, encontrou as crianças dormindo em um colchão deteriorado no chão.
A resposta foi transformar completamente o ambiente.
Geladeira, guarda-roupa, mesa, fogão, alimentos e roupas foram providenciados pelo médico.
“A gente mobiliou a casa dessas meninas”, lembra.
Em outra história, decidiu investir no talento de um jovem jogador de golfe que trabalhava carregando tacos. O menino não tinha sequer equipamentos básicos para competir.
O médico passou a acompanhá-lo, financiou competições e chegou a viajar com ele para um campeonato mundial nos Estados Unidos.
“Eu fui como se fosse um pai dele”, relatou.
Também ajudou estudantes que enfrentavam dificuldades financeiras durante a faculdade, chegando a presentear dois deles com veículos para que pudessem continuar os estudos.
Há ainda histórias envolvendo crianças e adolescentes com talento esportivo, entidades assistenciais, eventos beneficentes, doações de alimentos, roupas, bicicletas e materiais.
Entre as instituições ajudadas, ele cita o Recanto do Vovô, em Birigui, para o qual conseguiu doações de alimentos e produtos utilizados pelos idosos.
R$ 16 MILHÕES EM 31 ANOS
Transformar décadas de trabalho voluntário em números não é simples.
Mas o médico fez uma estimativa.
Considerando mais de 1.300 cirurgias realizadas ao longo de 31 anos, entre procedimentos reparadores e estéticos, de diferentes níveis de complexidade, além das contribuições destinadas a pessoas e entidades, ele calcula que o valor correspondente aos serviços e ajudas ultrapasse R$ 16 milhões.
O cálculo, segundo ele, utiliza valores abaixo daqueles praticados normalmente pelo mercado.
Mais do que o número, entretanto, ele diz enxergar satisfação na possibilidade de ajudar.
“É uma alegria poder ajudar, poder contribuir. Estou fazendo a minha parte do trato que fiz com Jesus quando pedi para Ele me aprovar no vestibular”, afirmou.
E existe uma particularidade que talvez seja uma das maiores marcas dessa história: ele não costuma tornar públicas todas as ações que realiza.
Segundo o próprio médico, prefere não transformar a solidariedade em exposição.
A PRÓXIMA BATALHA
Depois de três décadas dedicadas à cirurgia plástica e milhares de procedimentos realizados, o médico não fala em encerrar o trabalho.
Pelo contrário.
Ele pretende continuar operando crianças gratuitamente, ampliar as palestras sobre o tema e, principalmente, buscar uma forma de fazer com que o acesso à cirurgia chegue a um número muito maior de famílias.
Para isso, reconhece que será necessário enfrentar um desafio bem maior do que uma sala cirúrgica.
Será preciso mudar regras, discutir políticas públicas, convencer empresas, quebrar paradigmas e estruturar uma organização capaz de sustentar o projeto.
A ideia é criar algo semelhante a um “Projeto Orelhinha”, mas com a ambição de ampliar o acesso gratuito para crianças carentes.
Ele reconhece a importância de iniciativas que já existem no país e cita o Projeto Orelhinha, que, segundo ele, já realizou mais de 55 mil cirurgias, não de forma totalmente gratuita, mas quer ir muito mais além.
E termina com uma promessa que resume sua história:
“Eu vou tentar, nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida.”
Talvez seja essa frase que melhor traduza os 31 anos de trajetória: o menino que saiu de uma pequena propriedade rural, enfrentou as dificuldades para chegar à medicina e, depois de conquistar espaço profissional, decidiu que parte do que aprendeu poderia servir para abrir portas que, para muitas famílias, pareciam impossíveis.
No fim, a história não é apenas sobre cirurgia plástica.
É sobre o que alguém escolhe fazer com aquilo que conquistou.
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