Há histórias que atravessam os séculos porque falam menos sobre o passado e mais sobre aquilo que nunca deixa de ser humano. A Odisseia, escrita por Homero há quase três mil anos, é uma delas. Costuma ser lembrada como a aventura de Odisseu tentando voltar para casa depois da Guerra de Troia. Mas existe uma narrativa paralela, igualmente poderosa: a jornada de Telêmaco em busca do pai que mal conheceu.
Quando Odisseu partiu para a guerra, Telêmaco era apenas um bebê. Vinte anos se passaram entre batalhas, tempestades, monstros e naufrágios. Enquanto isso, o menino crescia cercado pela ausência. No palácio de Ítaca, via pretendentes consumirem os bens da família e pressionarem sua mãe, a rainha Penélope, a desistir da espera pelo rei. Faltava-lhe justamente aquilo que nenhum reino poderia oferecer: a presença do pai.
Ainda assim, Telêmaco não permaneceu imóvel. Incentivado pela deusa Atena, decidiu partir em busca de notícias de Odisseu. Não procurava apenas um homem desaparecido. Procurava respostas sobre si mesmo. Afinal, parte da identidade de um filho nasce do espelho que encontra no pai. É impossível não perceber como essa busca continua atual. Mudam os séculos, mudam as tecnologias, mudam as formas de comunicação. Mas permanece a necessidade de uma referência.
Um pai não é importante apenas porque sustenta ou protege. É importante porque ajuda o filho a descobrir quem pode ser. Christopher Nolan parece compreender essa verdade em seus filmes. No maravilhoso Interestelar, o astronauta Cooper atravessa o universo movido pelo amor à filha Murph e pela esperança de voltar para casa, como lhe prometeu. A distância física jamais rompe o vínculo entre eles; ao contrário, reforça a influência que um exerce sobre o outro, até um reencontro que ainda é um dos maiores plot-twist do cinema.
Em A Odisseia, adaptação cinematográfica que Nolan leva agora às telas em salas superlotadas, essa dimensão afetiva ganha novo fôlego ao mostrar que a maior aventura de Odisseu nunca foi enfrentar o Ciclope ou escapar das sereias, mas reencontrar o filho que deixou para trás e descobrir o homem em que ele se tornou. Quando finalmente se encontram, pai e filho não têm tempo para um abraço sentimental típico dos tempos modernos. Vivem algo maior. Lutam lado a lado para recuperar Ítaca e restaurar a justiça.
Odisseu oferece estratégia, coragem e experiência. Telêmaco demonstra lealdade, maturidade e confiança. Nenhum substitui o outro. Complementam-se. Talvez essa seja a maior lição da Odisseia. Ser pai não significa criar alguém à própria imagem, mas preparar um filho para caminhar ao seu lado e, depois, seguir o próprio caminho porque, sim, eles não ficam juntos (desculpas pelo spoiler).
Da mesma forma, ser filho não é viver à sombra do pai, mas honrar aquilo que recebeu dele e transformar esse legado em novas escolhas. As batalhas de hoje têm outros nomes: falta de tempo, excesso de trabalho, distrações permanentes, distâncias emocionais, abandonos afetivos. Ainda assim, o desafio dos filhos permanece o mesmo de Telêmaco, encontrar um pai que estará presente quando realmente importar.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, professora e mestre em comunicação e semiótica com MBA internacional em gestão executiva
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