PADRE CHARLES BORG

Dignidade

Por Padre Charles Borg | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

“A mão que embala o berço, governa o mundo”! Exemplos impactam mais que discursos! Neste domingo dedicado às mães, partilho fato acontecido na sala de audiências do admirado magistrado americano, Frank Caprio, falecido no final de ano passado. Este juiz notabilizou-se pela habilidade digna de administrar justiça. 

Levaram para a sua aula um rapaz negro, coberto de trapos e tiritando de frio. O policial que conduzia o rapaz declarou que o menino foi encontrado na rua com uma carteira cheia de dinheiro. A bem da verdade, continuou o oficial, foi o próprio rapaz que, sentado na calçada e tomando chuva, acenou para a viatura e entregou a carteira. O juiz notou que o olhar do rapaz não denunciava malícia, mas impotência, pavor. Nisto um ilustre comerciante entrou na sala e foi diretamente até a cátedra do juiz acusando o rapaz de furto e exigindo punição exemplar. 

O juiz pediu que o policial lhe exibisse a carteira e perguntou se era mesmo sua. O requerente disse que sim, e já se moveu para retira-la. Calmamente, mas com firmeza, o juiz pediu que não se mexesse e indagou se recordava quanto dinheiro tinha na carteira. O juiz pediu que o homem falasse em voz alta a quantia, de modo que toda a sala ouvisse, U$10.000,00. Pediu, então, ao policial que contasse o dinheiro que havia na carteira. O policial confirmou que havia exatamente U$10.000,00.

Satisfeito, o comerciante, agradeceu ao juiz e pediu licença para retirar-se. Caprio confessa que àquela altura, um sentimento de indignação começou a crescer em seu interior. O cara tinha recuperado integralmente seu dinheiro e nem sequer dignou-se olhar o jovem maltrapilho. Com firmeza pediu ao comerciante que se sentasse, pois sairia da sala somente quando o juiz autorizasse. Em seguida, pediu que o rapaz se levantasse e lhe perguntou como a carteira acabou em suas mãos. 

O rapaz confessou que tinha encontrado a carteira no chão, percebeu que havia muito dinheiro. Então sentou-se na calçada e esperou uma viatura passar para entrega-la. Caprio intuiu que o rapaz não mentia. Indagou em seguida quando foi a última vez que havia comida. Trémulo, o jovem disse que tinha comido um modesto lanche somente na noite anterior. Insistente, o juiz perguntou se o rapaz estava com fome. O rapaz acenou sim com a cabeça. O magistrado então questionou o rapaz porque não usou o dinheiro para comprar uma quentinha. 

O jovem hesitou, mas com voz firme confessou: a última coisa que minha mãe fez antes de falecer foi pegar firma em minha mão, olhou-me nos olhos e me disse que se eu a amava e quisesse ser homem, nunca era para pegar nada que não fosse meu. Minha mãe faleceu faz dois meses, e eu guardo essa lição com muito amor. O dinheiro não era meu. Tinha que devolver, mas não sabia como. 

Comovido, Caprio declarou solenemente: dinheiro compra muita coisa, mas não compra honestidade nem dignidade! Sua mãe deixou para você, meu jovem, uma herança que dinheiro algum compra, ladrão nenhum furta. Você é um cidadão digno, honrado, decente. Parabéns! Reze por sua mãe! Feliz Dia das Mães!

PS: O caso ficou conhecido, o rapaz foi adotado e hoje segue a vida, formado e trabalhando.

O padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba.

 

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