OPINIÃO

Receita de olhar

23/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Tive um impacto, em abril, ao saber que a escritora Roseana Murray, 73 anos, fora atacada, na rua onde mora, em Saquarema (RJ), por três cães da raça pitbull. Teve o braço direito e a orelha arrancados, além de ferimentos no rosto e no corpo e foi arrastada por cinco metros.

O primeiro livro que li dela, que é autora de livros de poesia e contos para crianças, jovens e adultos, ainda no meu tempo de magistério, foi "Receita de Olhar". Uma coletânea de poemas que traz "receitas" ou fórmulas poéticas para olhar e sentir muitas situações que nos cercam, desde arrumar a gaveta, andar sem rumo, espantar a tristeza... falam da crença em novas possibilidades.

Fiquei encantada e transcrevo um dos poemas, que dá título ao livro: "Nas primeiras horas da manhã/ desamarre o olhar/ deixe que se derrame/ sobre todas as coisas belas/ o mundo é sempre novo/ e a terra dança e acorda/ em acordes de sol/ faça de seu olhar imensa caravela."

Acompanho suas entrevistas posteriores ao ataque. Numa delas defende a castração dos cães da raça pitbull. Segundo a lei, devem, na rua, estar com focinheira, mas ela mesmo afirma que no Brasil não se cumprem muitas das leis.

Em uma de suas falas, no Fantástico, lembrou de Cérbero da mitologia grega, o cachorro de três cabeças que tomava conta da passagem dos recém mortos para o outro mundo. Eram ferozes e ninguém os vencia. Estavam prontos para levá-la à morte, mas não conseguiram. Segundo ela, se sente meio humana e meio ursa, porque venceu a luta contra os pitbulls. Sua colocação se baseia no livro "Escute as Feras", de Nastassja Martin - antropóloga francesa, que é a história da mulher que foi atacada por um urso, "lutou e venceu, e no final, é uma mulher meio humana meio ursa, eu também me sinto meio humana, meio mulher selvagem, porque venci".

Acabo de ler o livro por ela citado, do qual destaco uma colocação: "Porque é preciso poder viver mais além, como dizem todos aqueles que vivem aqui na floresta sobre o rio sob o vulcão. É preciso poder viver depois com e diante disso: simplesmente viver mais além".

Percebo que Roseana prossegue com "Receitas de Olhar". Planeja um sarau de poesia no Hospital Alberto Torres, em que ficou internada, onde irá presentear cada um que cuidou dela com um livro de sua autoria e autografado com a mão esquerda. Disse que ouve as histórias dos enfermeiros e enfermeiras, troca com eles as suas histórias, trocam galáxias de amor. Acrescenta: "Essa experiência de ser meio humana meio selvagem, com a força adquirida de Cérbero, aumenta minha responsabilidade em relação à vida e a tudo que é belo. Mesmo nos piores cenários há que buscar beleza. Esse é o nosso ofício. E a Paz acima de tudo".

Homenageou os servidores do hospital com um poema ditado a sua irmã. Referiu-se ao hospital como um lugar onde todos são anjos: "Um anjo varreu a tristeza da casa. / Com suas asas feitas/ de alguma coisa que não conhecemos. / Varreu como varrem ruas e praças. / Juntou tudo em suas mãos, / soprou, soprou, soprou".

Em entrevista ao Estadão, declarou: "Eu vou ter de reaprender a escrever com a mão esquerda. A vida vai ter de continuar, eu não morri", prosseguiu e relembrou um dos seus versos: "viver é o milagre que nos guia".

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista (criscast@terra.com.br)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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