Qual a sua resolução de ano novo? Comprar um novo carro, fazer uma viagem ou um curso? Pois para a pespontadeira Graziele Furquim do Amaral de Farias a vida inicia em 2023 cheia de significados que ela mesmo ainda não tem como assimilar ao mesmo tempo. Especialmente quando partida e chegada acontecem simultaneamente. E especialmente quando a dor da perda de um filho é também seu próprio recomeço – o “renascimento” de uma mãe graças à doação de um rim do filho, morto em um acidente de trânsito.
A guinada na vida de Graziele acontece precisamente quando o filho, Kauan, de 20 anos, sofre um grave acidente de moto em Birigui, onde moram, no primeiro dia de 2023. Com politraumatismo e traumatismo craniano, Kauan teve morte encefálica constatada no início da tarde de terça-feira, 3.
Reunida com a equipe da Santa Casa de Araçatuba para receber informações sobre a morte encefálica, a mãe é informada sobre a possibilidade de doação de órgãos do filho. E imediatamente Graziele vê passar em sua mente toda a batalha que o jovem travou ao lado dela, acometida de sérios problemas de saúde decorrentes de hipertensão arterial, o que levou ao comprometimento das suas funções renais e à perda da visão.
Graziele lembrou-se de todas as vezes em que Kauan, ainda adolescente, tomou à frente nos cuidados da mãe, ajudando nos deveres de casa, nas compras e a acompanhando nas três vezes da semana em que ela tinha de fazer sessões de hemodiálise Hospital do Rim da Santa Casa de Araçatuba.
Kauan era esse rapaz comprometido com o bem-estar da mãe que tanto amava. A ponto de certa vez jurar que assim que completasse 23 anos – idade mínima exigida para doação de órgãos intervivos – , doaria um dos seus rins para ela.
“Minha irmã certamente nem lembrou da intenção do Kauan em doar um rim para ela. Mas, mesmo devastada, não pensou duas vezes em autorizar a doação, pois isso iria salvar muitas vidas. E ela queria um pedacinho dele em cada pessoa que pudesse ser salva”, afirma Nayara, irmã de Graziele, que enfrentou o delicado momento da família para destacar a importância da doação de órgãos, que no caso de Kauan ajudou a salvar outras vidas além da própria mãe, graças à doação também dos pulmões, fígado, córneas, coração e tecido ósseo.
O drama de Graziele
No final de junho de 2018, Graziele passou 45 dias internada, 15 dos quais em UTI , devido uma crise severa de hipertensão.
Ao final da longa internação, ela ficou diante de um diagnóstico cruel: os rins pararam de funcionar e ela precisaria fazer hemodiálise. Na época, Graziele tinha 32 anos. Em novembro daquele mesmo ano, perdeu a visão, outra decorrência de seu quadro clínico.
Mãe de dois filhos – Yasmim e Kauan –, na época com 4 e 16 anos respectivamente, Graziele fazia as sessões três vezes por semana no Hospital do Rim da Santa Casa de Araçatuba.
Com as dificuldades da mãe, Kauan assumiu a responsabilidade de ajudá-la em todas as tarefas, como cuidar da casa, das compras e de acompanhá-la três vezes por semana nas sessões de hemodiálise.
“Ele não se conformava em ver o sofrimento da mãe, por isso quis doar um rim para ela ficar livre das máquinas de hemodiálise”, conta a comerciante Nayara Furquim do Amaral, irmã de Graziele.
Porém, na época, Kauan era menor de idade. Pela legislação, o doador tem de ter acima de 23 anos. “Ele dizia que quanto completasse a idade exigida doaria um rim para sua mãe”, relembra a tia.
Outro impedimento para um transplante era um quadro de insuficiência cardíaca, descoberto durante os tratamentos renais.
Decorridos cinco anos da crise de saúde que modificou totalmente a vida de Graziele, a tragédia que abalou a família e a maior dor de uma mãe, que a é perda de um filho transformou-se neste paradoxo da vida real – morte e vida entrelaçadas pelo amor.
De acordo com a tia de Kauan, Graziele “ficou prostrada com a morte do Kauan e chegou dizer que não faria mais nada por sua saúde, que queria morrer logo para poder estar com ele”. Um sentimento compreensível de revolta diante do impacto de uma dor que não se pode aferir.
A legislação que normatiza os transplantes no país assegura aos parentes de até quarto grau que estejam na fila de espera, prioridade em relação a órgãos de um familiar que se tornou doador após morte encefálica.
O transplante
Aos 37 anos, devastada pela dor de uma perda irreparável, Graziele ficou dividida entre estar presente no velório e sepultamento de Kauan ou ir para o Hospital das Clínicas de Botucatu, que já havia confirmado duas etapas de compatibilidade para o transplante. “Minha irmã aceitou tentar o transplante. Ela decidiu ter para sempre dentro dela um pedacinho do filho”, conta Nayara.
Quando o núcleo renal do hospital, que é referência estadual em transplantes de rins, entrou em contato com Graziele, faltava ainda uma avaliação sobre as condições cardíacas. Caso a insuficiência estivesse fora das condições, o transplante não seria autorizado.
“Mas em meio a toda a dor, tivemos a boa notícia de que ela estava em condições de fazer a cirurgia”, diz Nayara.
O procedimento foi realizado na manhã de quinta-feira, 5, no Hospital das Clínicas de Botucatu, referência em transplantes renais no interior paulista.
À equipe Hospital do Rim da Santa Casa de Araçatuba, o HC de Botucatu informou que o transplante foi bem sucedido e sem intercorrências.
Familiares que a visitaram nesta sexta-feira, 6, informaram que Graziele está em boa recuperação e deve ter alta da UTI ainda neste fim de semana.
Filho presente e herói
A tia de Kauan vivenciou, ao lado de todos os familiares e os muitos amigos, as dores das despedidas do rapaz que deixou, além da saudade, a certeza de que foi um herói desde o começo da doença de sua mãe e partiu como tal.
“Ele era tudo para minha irmã. Um filho presente, participativo, amigo e dizia que ela e a irmãzinha Yasmim eram suas princesas”, contou Nayara, muito emocionada.
Ela define o sobrinho como um menino que precisou ficar adulto muito depressa para cuidar da mãe, mas o fazia com amor e sem queixas.
O rapaz também tinha muitos sonhos. Ser campeão em uma competição de skate era um deles. Atleta há sete anos, ele era apaixonado pelo skate e se firmava a cada dia como skatista e recentemente conquistou o segundo lugar em um campeonato. “Ele falava para mãe que um dia ia ficar muito famoso”, conta Nayara.
Casar e constituir uma família, também faziam parte de seus projetos de vida. “O Kauan dizia que um dia iria se casar e ter sua família, mas só faria isso com um moça que aceitasse sua mãe e a tratasse bem, pois ele jamais a deixaria. Agora não deixará, mesmo”, finaliza a tia.
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Comentários
1 Comentários
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Iraci mattos domingos 08/01/2023que esse pedacinho dele, consiga,levantar essa mae, ness a hora de dor