Araçatuba

Novela brasileira comemora 70 anos de olho no streaming

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 6 min
PRODUÇÕES. Ao longo desses 70 anos, diversos personagens e histórias marcaram as telenovelas brasileiras 
Crédito da foto: Reprodução
PRODUÇÕES. Ao longo desses 70 anos, diversos personagens e histórias marcaram as telenovelas brasileiras Crédito da foto: Reprodução

Produções, que acompanharam a evolução tecnológica da TV, se mantém como um dos principais programas

Era noite do dia 21 de dezembro de 1951 quando os diretores da extinta TV Tupi exibiram o capítulo inicial de “Sua Vida Me Pertence”, primeira telenovela brasileira. Foram apenas dez pessoas envolvidas na trama que, naquela ocasião, ficou no ar por 20 minutos – tempo suficiente para entrar para a história. Afinal, a estreia de “Sua Vida Me Pertence”, há 70 anos, marcou o pontapé da produção nacional desse que se tornaria o principal produto da televisão brasileira e uma paixão nacional. Mesmo não registrando a mesma audiência do passado, as novelas feitas no Brasil continuam a fazer sucesso, sendo reconhecidas mundialmente. Além da TV, elas têm ganhado outro espaço: o streaming. 

Nessas sete décadas das telenovelas brasileiras, centenas de histórias ganharam vida com a atuação de incontáveis artistas, como é o caso de Lima Duarte. “Em 70 anos de novelas, eu fiz quase todas. Só aqui na Globo eu estou há 50 anos e fiz umas 60 novelas”, afirma o ator mineiro, de 91 anos, um dos pioneiros da TV brasileira e o único artista ainda vivo e em atividade que participou da primeira telenovela nacional.  

Inúmeras novelas foram escritas e exibidas nas extintas Tupi, Excelsior e Manchete, e também no SBT, na RecordTV, na Bandeirantes e na Globo, que se tornou a dona dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira – a emissora da família Marinho exibiu, até hoje, 321 novelas, contando as recentes estreias de “Um Lugar ao Sol” e “Quanto Mais Vida, Melhor”.

Muitas dessas histórias pararam o Brasil. “Quem matou Odete Roitman?” foi a pergunta que prendeu telespectadores à tela em 1988, quando “Vale Tudo”, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, foi ao ar pela primeira vez. Afinal, todo mundo queria saber quem havia atirado e matado a vilã interpretada por Beatriz Segall.  

Já o último capítulo de “Avenida Brasil”, exibido em 19 de outubro de 2012, chegou a ameaçar o fornecimento de energia elétrica no país. Novela das nove de maior audiência dos últimos tempos, a trama de João Emanuel Carneiro fez o ONS (Operador Nacional do Sistema), que controla a distribuição da energia elétrica no país, emitir um comunicado alertando sobre o risco de apagão no Brasil e, por isso, pedindo às operadoras que gerassem energia com folga. Até Dilma Rousseff, que na época era presidente do país, mudou a agenda de compromissos para acompanhar o desfecho da história de Nina (Débora Falabella) e Carminha (Adriana Esteves). 

“A novela é um sucesso nacional e, mais do que isso, é formador da cultura brasileira”, afirma a jornalista Patrícia Kogut, autora do livro “101 Atrações de TV que Sintonizaram o Brasil”. “As novelas têm muita força porque elas contribuíram para a identidade; elas lançam e refletem comportamento, moda, música… Num país tão imenso como o Brasil, elas falam para todo mundo”, ressalta a crítica de TV e colunista do jornal “O Globo”. 

TRANSFORMAÇÃO

Até chegar aos dias atuais, as novelas percorreram muita estrada, acompanharam transformações e também se transformaram. “Sua Vida Me Pertence”, pioneira da teledramaturgia brasileira, era exibida ao vivo e ia ao ar somente duas vezes por semana. “Muita coisa mudou, porque a novela acompanhou toda a mudança tecnológica que a televisão incorporou. Quando o meio de transmissão era ao vivo, a teledramaturgia era assim. Quando tem o videoteipe, no meio dos anos 60, a telenovela passa a ser gravada”, explica o roteirista, professor e pesquisador de teledramaturgia Reynaldo Maximiano. 

Também foi um marco importante a mudança da tecnologia preto e branco para a colorida, o que aconteceu em 1973, com a novela “O Bem-Amado”. “Os profissionais envolvidos na televisão foram aprendendo a lidar com os dispositivos, com os equipamentos e com o gênero teledramaturgia; foram mudanças nas tecnologias de gravação e edição, por exemplo, até chegar às tecnologias digitais que temos hoje”, afirma o professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias, Comunicação e Educação da Universidade Federal de Uberlândia (PPGCE-UFU). 

Outro ponto proporcionado pela tecnologia e por novos recursos audiovisuais, segundo Reynaldo Maximiano, foi criar uma mudança no modo de consumir as telenovelas. “Somos uma sociedade oralizada. Antigamente, a TV era mais para ser ouvida do que necessariamente ser vista. Porém, com o passar dos anos, foi ficando uma experiência visual cada vez mais chamativa, fazendo as pessoas se sentarem no sofá para assistir às novelas, por exemplo”, cita. “Para compreender a história, você tem que ficar em frente à TV assistindo.

NOVOS TEMPOS 

O pesquisador Reynaldo Maximiano pontua que a telenovela é “herdeira da radionovela, do folhetim (histórias de ficção que eram publicadas nos rodapés de páginas do jornal) e do romance burguês”.

 “Você tem um sentimento de aventura, de entusiasmo, que é típico do herói da história; o sentimento de traição, típico do vilão ou antagonista; sentimento de piedade, associado à ‘vítima’, geralmente ligada à mocinha; e o sentimento de alegria, do riso, presente no núcleo de humor”, observa o pesquisador. 

Ele ressalta que essa fórmula segue sendo a base de todas as novelas, com algumas adaptações, de acordo com cada história. Entretanto, Maximiano afirma que as tramas, ainda hoje, seguem com uma “abordagem tradicional e conservadora”, deixando de lado questões importantes, como a diversidade. Segundo o pesquisador, esse ponto deve ser levado em consideração ao analisar a queda da audiência das novelas nos últimos anos na TV.

“As novelas já foram absolutas, hoje não são mais. A televisão, como um todo, mudou”, avalia a jornalista e crítica de TV Patrícia Kogut. “Acredito que elas não se esgotaram, ainda têm fôlego. Porém, para certas coisas, não há mais espaço”, pontua. “A disputa pelo tempo do telespectador, por exemplo, ficou mais apertada. Ninguém tem paciência com um capítulo em que não acontece nada. Se você assistir a ‘Um Lugar ao Sol’, atualmente no ar, não tem isso. A novela é muito dinâmica. A novela tem se transformado para sobreviver”, afirma.

ALÉM DA TV 

Para Patrícia Kogut, a força que as novelas carregam nesses 70 anos justifica o interesse em levar essas histórias para o streaming. “Verdades Secretas 2”, primeira novela brasileira produzida para essa plataforma, é a trama mais assistida no Globoplay neste ano. “Quem conhece o espectador brasileiro sabe que a novela tem um lugar ali muito importante”, ressalta. 

Reynaldo Maximiano destaca a importância de as novelas ganharem o streaming, porém, pontua que essas produções voltadas para essas novas plataformas precisam ir além do que é exibido na televisão. “‘Verdades Secretas 2’ estreou velha. Ela foi pensada para TV, mas exibida no streaming, com uma ideia conservadora”, pondera o pesquisador, que afirma que a trama não saiu do lugar-comum.

“Walcyr Carrasco já foi testado em todos os horários na Globo, com a maioria das novelas com muito sucesso, com histórias de forte inserção popular. Mas o streaming é um lugar diferente, a audiência se comporta de uma maneira diferente”, afirma.

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