A história da indústria açucareira de Piracicaba também passa pela trajetória de Pedro Morganti, italiano que chegou ao Brasil ainda adolescente e se tornou um dos nomes de destaque do setor. Em 1910, ele adquiriu o Engenho Central de Monte Alegre, empreendimento que marcou sua carreira e reforçou sua ligação com a cidade.
Nascido em 2 de abril de 1876, em Bozzano, na região da Toscana, na Itália, Pietro Morganti desembarcou no Porto de Santos em 1890, aos 14 anos. No Brasil, passou a ser chamado de Pedro e começou a trabalhar na torrefação de café, atividade exercida pelo irmão Carlo em São Paulo. No início, chegou a dormir sobre o balcão do estabelecimento.
Depois de retornar à Itália para cumprir o serviço militar em Bolonha, Morganti voltou a São Paulo, casou-se com Giannina Morganti e mudou de ramo. A partir de 1902, passou a se dedicar à refinação de açúcar, utilizando um processo manual em instalações modestas na Rua Amaral Gurgel, na região da Vila Buarque.
Em 1904, expandiu os negócios com uma filial na atual Rua Quirino de Andrade, na capital paulista. Em 1910, participou da criação da Companhia União dos Refinadores, iniciativa que buscava integrar a produção da matéria-prima à fabricação do açúcar e ampliar o alcance dos negócios.
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Foi também em 1910 que Morganti adquiriu o Engenho Central de Monte Alegre, fundado em Piracicaba em 1889. Em sociedade com José Pugliesi, iniciou a transformação do empreendimento na Usina de Monte Alegre, consolidando sua entrada na produção açucareira e sua ligação com a economia piracicabana.
A expansão continuou nos anos seguintes. Em 1917, o empresário comprou o Engenho Fortaleza, uma propriedade de aproximadamente 2 mil alqueires em Araraquara, no interior paulista. O local passou a abrigar a Usina Tamoio, que se tornaria o principal símbolo de sua trajetória empresarial.
Em 1930, a Usina Tamoio produzia uma média de 3,9 mil sacas de açúcar por ano e respondia por aproximadamente 12% da produção estadual, segundo os dados históricos reunidos sobre o empreendimento. Em 1946, a unidade alcançou um recorde continental de produção e se consolidou como uma das maiores indústrias sucroalcooleiras do Brasil e da América do Sul. Morganti, porém, morreu em 1941, aos 65 anos, antes de presenciar esse marco.
O complexo chegou a reunir cerca de 3 mil trabalhadores e, somadas as famílias, abrigava uma população estimada entre 7 mil e 10 mil pessoas. A estrutura incluía moradias, uma igreja construída em 1943, o Estádio Comendador Freitas e uma ferrovia particular de aproximadamente 30 quilômetros. Após passar por diferentes proprietários, a usina enfrentou dificuldades e, em 2017, teve o encerramento de suas atividades anunciado pela Raízen, medida posteriormente suspensa por decisão judicial.
A trajetória de Morganti faz parte de um contexto mais amplo de imigração italiana para o Brasil, marcado por pessoas que atravessaram o oceano em busca de trabalho, melhores condições de vida e reencontros familiares. Um registro dessa experiência é o diário de Diego Morandi, que deixou Torricella del Pizzo, na província de Cremona, em janeiro de 1911, aos 22 anos, para reencontrar o irmão Paolo em Porto Alegre.
Durante a viagem a bordo do vapor Lombardia, Morandi anotou as despedidas, a saudade dos conhecidos e a primeira visão do mar. Na partida, descreveu o sentimento como estar com o coração apertado, comparando a sensação à pressão de uma morsa. O diário mostra a mistura de esperança e insegurança que acompanhava quem deixava a terra natal sem saber o que encontraria no destino.
Em 8 de fevereiro de 1911, 21 dias após deixar sua cidade, o navio chegou ao Rio de Janeiro. Morandi se impressionou com a paisagem, mas também registrou aspectos da cidade que lhe causaram estranhamento. Depois, seguiu para Porto Alegre, onde reencontrou o irmão. O manuscrito está preservado no Archivio Diaristico Nazionale, em Pieve Santo Stefano, na Itália.
As histórias de Morganti e Morandi seguiram caminhos diferentes: um construiu uma trajetória empresarial ligada à indústria açucareira, enquanto o outro documentou as emoções de sua travessia. Em comum, os dois representam a presença italiana na formação social e econômica do Brasil.