06 de outubro de 2026
HISTÓRIA

De Hiroshima a Piracicaba: Conheça a origem do CENA

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
Com 60 anos de história, o CENA-USP mantém pesquisas voltadas à agricultura, ao meio ambiente e ao uso de técnicas nucleares.

Quando o professor Epaminondas Sansígolo de Barros Ferraz atravessava o centro de Piracicaba, não imaginava que um encontro casual mudaria o rumo de sua vida e ajudaria a construir uma das instituições de pesquisa científica da USP na cidade. A história faz parte da reportagem de Denise Casatti, assessora de comunicação do CENA-USP, que resgata os bastidores da criação do centro, que completa 60 anos em 2026.

O encontro aconteceu diante da antiga Leiteria Brasileira. Epaminondas viu o professor Admar Cervellini, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), sentado em uma mesa. Após cumprimentá-lo, ouviu o convite: “Quer trabalhar na Física? Segunda-feira, apareça lá”. Formado como engenheiro agrônomo em 1958, Epaminondas deixou o emprego em uma indústria metalúrgica e passou a trabalhar no Departamento de Física da Esalq.

Antes disso, ele havia sido campeão de salto em altura e também trabalhado no projeto de uma turbina relacionada ao antigo Salto de Itapura, no Rio Tietê. Os diferentes “saltos” da vida de Epaminondas acabariam levando-o a participar da criação do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA).

A história do centro, porém, começa ainda antes de sua criação oficial e está ligada a acontecimentos que mudaram o mundo. Em 1945, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Anos depois, a tecnologia nuclear passou a ser incentivada também para fins pacíficos, especialmente após o discurso “Átomos para a Paz”, do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower, em 1953.

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O projeto que quase acabou

Na Esalq, pesquisadores já utilizavam técnicas nucleares em estudos relacionados à agricultura. No início dos anos 1960, havia cerca de 20 pesquisas produzidas na escola sobre o tema. Cervellini percebeu que reunir esses cientistas em um mesmo centro poderia facilitar a troca de conhecimento e o acesso a equipamentos e recursos.

Em 1961, um grupo de pesquisadores, entre eles Epaminondas, elaborou o projeto do Centro Nacional de Energia Nuclear na Agricultura (Cnena). A proposta foi aprovada pela Esalq naquele ano e, em 1º de agosto de 1962, o centro foi oficializado por meio de um convênio entre a Esalq, a USP e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

O projeto avançou nos dois anos seguintes, com estudos, cursos e aquisição de equipamentos. Mas o golpe militar de 1964 afetou a iniciativa. Com a interrupção do repasse de recursos do convênio com a CNEN, o Cnena chegou ao fim em 31 de dezembro daquele ano.

Os pesquisadores não desistiram. Em 1965, elaboraram um novo projeto, desta vez sem a palavra “nacional” no nome. A proposta foi aprovada pela Esalq e, em 22 de setembro de 1966, um decreto assinado pelo governador Laudo Natel criou oficialmente o CENA como instituto anexo à escola.

De um sonho a 60 anos de pesquisa

A criação oficial não significou que a estrutura estivesse pronta. O primeiro edifício de laboratórios só foi concluído em 1968. Dez anos depois, durante uma conferência da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Admar Cervellini destacou que somente então o CENA havia se tornado um instituto de fato, e não apenas uma ideia.

Apesar da origem ligada à energia nuclear, o CENA nunca teve um reator nuclear nem produziu energia nuclear. As técnicas nucleares passaram a ser utilizadas de forma integrada a métodos tradicionais de pesquisa, em trabalhos relacionados à agricultura e ao ambiente.

Hoje, 60 anos após sua criação oficial, o CENA reúne 37 cientistas e 120 funcionários técnico-administrativos de diferentes áreas. A instituição também participa da formação de pesquisadores e desenvolve estudos que envolvem campos como biologia, química, física e técnicas nucleares aplicadas à agricultura e ao ambiente.

A trajetória iniciada por um grupo de pesquisadores da Esalq mostra como uma ideia que enfrentou falta de recursos e turbulências políticas conseguiu se consolidar em Piracicaba. A história do CENA, que começou em meio às grandes transformações provocadas pela tecnologia nuclear no mundo, continua sendo construída seis décadas depois.
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