Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Yale identificou uma possível explicação molecular para a diferença na intensidade da dor entre pacientes com endometriose. A pesquisa encontrou alterações na atividade de centenas de genes em lesões de mulheres com sintomas e sem sintomas e apontou uma associação entre níveis elevados da molécula IL-16 e quadros de dor mais intensa. O trabalho foi publicado em setembro na revista científica Molecular Human Reproduction.
O resultado ajuda a investigar uma característica que dificulta a avaliação da endometriose: a quantidade de lesões nem sempre acompanha a intensidade dos sintomas. Segundo a equipe de Yale, algumas pacientes com alterações aparentemente menos extensas podem apresentar dores debilitantes, enquanto outras podem ter lesões sem manifestações dolorosas. O estudo sugere que diferenças nos processos inflamatórios podem ajudar a explicar parte dessa variação.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram 27 amostras de tecido retiradas de 19 participantes, sendo nove com sintomas e dez sem sintomas. O sequenciamento de RNA identificou 890 genes com expressão diferente entre os grupos. Entre os genes que mais se destacaram estavam aqueles relacionados à sinalização inflamatória, à adesão celular e à modulação do sistema nervoso.
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Entre os achados, a IL-16 chamou atenção por apresentar relação com a intensidade dos sintomas quando os casos foram classificados de acordo com a gravidade da dor. A molécula é uma citocina, ou seja, uma proteína que participa da comunicação entre células do sistema imunológico e está envolvida em processos inflamatórios. Os pesquisadores também analisaram proteínas presentes nas biópsias e encontraram resultados compatíveis com as alterações observadas na expressão dos genes.
A hipótese levantada pela equipe é que a IL-16 possa participar de uma reação inflamatória nas lesões, favorecendo o recrutamento de células do sistema imunológico e a produção de outras moléculas inflamatórias. Esse mecanismo poderia contribuir para a dor, mas o estudo ainda não permite afirmar que a IL-16 seja a responsável direta pelos sintomas. Os próprios pesquisadores indicam que são necessários novos trabalhos para confirmar essa relação.
A descoberta pode, no entanto, abrir uma nova frente para a investigação de tratamentos. A equipe de Yale pretende estudar se medicamentos capazes de bloquear a IL-16 poderiam reduzir a dor associada à endometriose. Essa possibilidade ainda está no campo da pesquisa e não representa uma terapia disponível para pacientes. A endometriose continua sem cura conhecida, e os tratamentos atuais buscam controlar os sintomas e reduzir seus impactos.