28 de agosto de 2026
CIÊNCIA E INOVAÇÃO

Pesquisas da Esalq ajudam a transformar o agro brasileiro

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 8 min
Reprodução
A Esalq amplia sua atuação em pesquisa e inovação ao desenvolver conhecimentos voltados à produtividade, sustentabilidade e adaptação do agro.

Em um cenário em que o agronegócio brasileiro precisa produzir mais, lidar com eventos climáticos extremos e, ao mesmo tempo, reduzir os impactos sobre os recursos naturais, o Jornal de Piracicaba ouviu pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, sobre estudos que podem ajudar a enfrentar esses desafios.

Os trabalhos desenvolvidos na instituição abrangem diferentes áreas, mas têm em comum a busca por transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis. Entre os exemplos estão pesquisas sobre o uso de plantas de cobertura para melhorar a saúde do solo e aumentar a produtividade, modelos capazes de antecipar os impactos do clima sobre as safras e estudos que mostram como técnicas de manejo florestal podem acelerar a recuperação do carbono na Amazônia.

Além das pesquisas, a Esalq também busca aproximar a produção científica do setor produtivo. Para o professor José Belasque Junior, que atua na área de inovação e empreendedorismo da instituição, esse processo exige uma mudança na forma como a universidade se relaciona com o mercado. “Fazer inovação é conversar e atuar junto com o mercado”, afirma.

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Solo mais saudável para uma agricultura mais resiliente

Uma das frentes de pesquisa destacadas pelo professor Maurício Cherubin é o uso de plantas de cobertura como estratégia para melhorar a saúde do solo, aumentar a produtividade e tornar os sistemas agrícolas mais resilientes às adversidades climáticas.

Os estudos são desenvolvidos em diferentes regiões do país pelo grupo de pesquisa em Manejo e Saúde do Solo (SOHMA), ligado ao Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON) da USP. Os experimentos abrangem áreas de diferentes estados brasileiros, do Tocantins ao Rio Grande do Sul.

A ideia é utilizar diferentes espécies vegetais para aumentar a biodiversidade dos sistemas de produção. Além de proteger o solo, essas plantas podem produzir efeitos químicos, físicos e biológicos que contribuem para sua qualidade e também ajudam no sequestro de carbono. Segundo Cherubin, os experimentos realizados pelo grupo apontam ganhos de 10% a 15% na produtividade de culturas como soja e milho quando essas estratégias são utilizadas.

A prática também pode contribuir para a adaptação às mudanças climáticas. Um solo mais saudável tende a apresentar melhores condições para enfrentar períodos de estresse, enquanto a diversificação das plantas amplia a capacidade do sistema produtivo de responder a diferentes condições ambientais.

A pesquisa também deu origem a ferramentas voltadas diretamente ao produtor. Entre elas está o KIT SOHMA, desenvolvido para avaliar os impactos de práticas de agricultura regenerativa sobre a saúde do solo diretamente no campo. A ferramenta foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como uma das inovações globais voltadas a uma agricultura mais sustentável e resiliente.

O trabalho do pesquisador também ganhou reconhecimento na área acadêmica. O livro “Saúde do Solo em Ecossistemas Tropicais – A base para mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, produzido por pesquisadores da área, recebeu o Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, na categoria de Ciências Agrárias e Ciências Ambientais.

Quando o clima deixa de ser apenas uma variável

Se o solo pode ser manejado para aumentar a resiliência da produção, outra frente de pesquisa busca justamente entender melhor um dos fatores que mais influenciam o resultado de uma safra: o clima. O professor Fábio Marin, do Laboratório de Modelagem Agrícola da Esalq, trabalha no desenvolvimento de modelos capazes de separar o impacto da variabilidade climática dos demais fatores que influenciam a produtividade.

A proposta parte de um problema prático: muitas vezes, o produtor termina uma safra sem saber exatamente quanto do resultado foi consequência das condições climáticas e quanto veio das decisões de manejo. Para transformar essa informação em uma ferramenta de decisão, os pesquisadores desenvolveram o Coeficiente de Produtividade Climática (CPC), indicador que expressa a variação da produtividade atribuível exclusivamente à variabilidade climática entre uma safra e outra.

O sistema também permite antecipar esses efeitos. No caso da cana-de-açúcar, por exemplo, as projeções podem ser feitas com até 11 meses de antecedência, possibilitando que informações sobre o comportamento esperado do clima sejam consideradas em decisões relacionadas à colheita, moagem, contratos e logística. O trabalho está inserido no Tempocampo, sistema de monitoramento agrometeorológico e projeção de safras que está em funcionamento desde 2016 e possui cobertura nacional para culturas como cana-de-açúcar, milho e soja.

A base científica acumulada inclui  dezenas de dissertações teses de doutorado e artigos científicos publicados em revistas com revisão por pares. Os conteúdos produzidos para divulgação dos resultados também já ultrapassaram 130 mil visualizações entre o canal do pesquisador e a TV USP Piracicaba. Para Marin, o objetivo não é controlar o clima, mas transformar sua variabilidade em informação para tomada de decisão. No curto prazo, isso pode ajudar o produtor a definir, por exemplo, quando plantar, qual ciclo de cultivar escolher ou quando colher. No longo prazo, os dados podem contribuir para decisões sobre irrigação, escolha de cultivares, seguros, crédito e planejamento das áreas produtivas.

Manejar a floresta para recuperar carbono

Na Amazônia, a pesquisa coordenada pelo professor Edson Vidal mostra como o modo de exploração da floresta pode influenciar diretamente sua capacidade de recuperar o carbono perdido. O estudo “Reduced-impact logging shortens carbon recovery time in eastern Amazonian forests”, assinado por Nathalia Sousa Braga, Jonathan William Trautenmüller e Edson Vidal, analisou três décadas de dados de uma floresta localizada em Paragominas, no leste do Pará.

O experimento, iniciado em 1993, comparou uma área sem exploração, uma submetida ao manejo florestal de impacto reduzido e outra explorada de forma convencional. Ao longo de 30 anos, os pesquisadores acompanharam a dinâmica da biomassa e do carbono nas diferentes áreas. A principal diferença apareceu no tempo necessário para recuperar o carbono perdido com a exploração. De acordo com os resultados, a floresta submetida ao manejo de impacto reduzido recuperou seu estoque de carbono em aproximadamente nove anos, enquanto a área de exploração convencional levou cerca de 32 anos. Ou seja, a recuperação ocorreu aproximadamente 3,6 vezes mais rápido no sistema de menor impacto.

A quantidade de madeira retirada nas duas modalidades foi semelhante: cerca de 39 metros cúbicos por hectare no manejo de impacto reduzido e 37 metros cúbicos por hectare na exploração convencional. O que mudou foi a forma de realizar a operação. No manejo de impacto reduzido, houve planejamento de estradas e trilhas de arraste, derrubada direcionada por trabalhadores treinados e medidas para diminuir os danos às árvores que permaneceram na floresta.

Em média, o crescimento líquido de carbono chegou a 1,67 tonelada por hectare ao ano no manejo de impacto reduzido, diante de 0,55 tonelada na exploração convencional. Trinta anos após a retirada de madeira, as árvores sobreviventes armazenavam aproximadamente 106 toneladas de carbono por hectare na área de impacto reduzido, contra 80 toneladas por hectare na exploração convencional.

Para Vidal, os resultados mostram que é possível conciliar a exploração econômica da floresta com a conservação, desde que sejam adotadas técnicas capazes de reduzir danos desnecessários à vegetação remanescente. O pesquisador também destaca que esse tipo de manejo pode ser reconhecido como um serviço ambiental, já que a recuperação da biomassa contribui para o armazenamento de carbono e, consequentemente, para a mitigação das mudanças climáticas.

Outro estudo desenvolvido por Vidal e pesquisadores da Esalq também aponta para a necessidade de aperfeiçoar as regras de exploração. A pesquisa propõe que, além do diâmetro mínimo de corte previsto pela legislação, seja considerada a distância entre árvores da mesma espécie, de forma a favorecer a dispersão de pólen e a manutenção da diversidade genética das populações florestais.

Da pesquisa ao mercado

Os exemplos mostram diferentes formas de atuação da Esalq diante dos desafios do agronegócio. Mas, para o professor José Belasque Junior, o desenvolvimento de uma pesquisa é apenas uma das etapas do processo. A instituição vem ampliando sua estrutura para aproximar ciência, empresas e investidores. Um dos principais projetos é o Esalq Science Park, parque científico que será instalado na Fazenda Areão, onde já funciona a EsalqTec, incubadora que existe desde 1994. A previsão é que a nova estrutura seja inaugurada em 2030 e tenha espaços para empresas, além de áreas destinadas a experimentos em condições reais de agricultura.

Para Belasque, algumas das áreas com maior potencial de inovação estão justamente na intersecção entre os desafios atuais do agro e o conhecimento produzido na universidade. Entre elas estão o controle biológico de pragas e doenças, o uso de microrganismos para nutrição de plantas, o reaproveitamento de resíduos dentro de uma lógica de economia circular, o sequestro de carbono e a agricultura digital, incluindo inteligência artificial e computação aplicada.

A Esalq já possui exemplos de pesquisas que ultrapassaram os limites da universidade. Segundo o professor, 23 empresas já passaram pela EsalqTec e chegaram ao mercado, incluindo negócios relacionados ao controle biológico, tecnologia da informação, agricultura de precisão e avaliação da qualidade de carne. O desafio, segundo ele, é justamente criar uma ponte entre o conhecimento produzido no laboratório e as necessidades encontradas no campo. “Quando a gente vai fazer inovação, não interessa a publicação, interessa atender uma necessidade”, explica.

É nesse ponto que as pesquisas se encontram. No solo, a ciência busca aumentar a produtividade e a capacidade de resistência dos sistemas agrícolas. No clima, transforma variabilidade em informação para antecipar decisões. Nas florestas, mostra como o planejamento pode acelerar a recuperação do carbono e reduzir impactos. E, por trás dessas iniciativas, a Esalq busca fazer com que o conhecimento produzido na universidade não termine no artigo científico, mas chegue ao campo, ao mercado e à sociedade.