19 de agosto de 2026
MEIO AMBIENTE

Piracicabano assume conselho global de restauração ecológica

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
De Piracicaba e formado pela Esalq, Luiz Fernando construiu uma trajetória de mais de 30 anos dedicada à restauração ecológica.

Da formação em Piracicaba à liderança de uma organização internacional dedicada à restauração ecológica. Essa é parte da trajetória de Luiz Fernando Duarte de Moraes, engenheiro agrônomo formado pela Esalq e pesquisador da Embrapa Agrobiologia, que assumiu a presidência do conselho da Society for Ecological Restoration (SER) para o biênio 2026-2028.

A chegada ao cargo, no entanto, não foi resultado de um projeto pessoal. Luiz Fernando conta que sua relação com a SER começou em 2018, quando passou a representar a América Latina e o Caribe no conselho da entidade. Com o passar dos anos, foi convidado a participar de outros comitês, entre eles o Comitê Executivo, até entrar naturalmente no processo de sucessão da presidência. “Não foi algo que eu almejei. Eu fui consultado, fui convidado, fui eleito, mas num processo muito natural de continuar colaborando com a SER”, disse Luiz Fernando ao Jornal de Piracicaba.

A partir de agora, a atuação ganha uma responsabilidade maior. Entre as prioridades, ele pretende contribuir para o fortalecimento da SER como uma organização central na articulação entre países e instituições envolvidas com restauração ecológica. Também aponta como desafio aprofundar a internacionalização da entidade, ampliando o protagonismo de diferentes países e fortalecendo organizações locais.

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Um desafio que vai além da restauração

Para Luiz Fernando, um dos principais desafios do Brasil é fazer com que os princípios da restauração ecológica sejam incorporados pela sociedade e, principalmente, pelas normas e políticas públicas.

A agricultura é um dos setores que, na avaliação dele, pode se beneficiar dessa mudança. A adoção de práticas relacionadas à conservação da biodiversidade, proteção do solo e provisão de serviços ecossistêmicos pode contribuir para um ambiente rural mais saudável, além de ajudar na fertilidade do solo, na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e na disponibilidade de água.

Para isso, ele defende investimentos em políticas públicas, apoio tecnológico e capacitação de agentes de extensão rural e agricultores, especialmente pequenos produtores e agricultores familiares. Ao mesmo tempo, ressalta que essas soluções precisam ser construídas sem impor uma carga excessiva ao agricultor. Mas, antes mesmo de pensar em como restaurar, o pesquisador aponta uma questão anterior: é preciso parar de degradar.

“Não basta a gente aprender ou se sentir capaz de restaurar se a gente continuar degradando os ecossistemas naturais”, afirma. Segundo ele, o desafio envolve também repensar os modelos de desenvolvimento e de uso dos recursos naturais, para que atuem menos como agentes de degradação.

Piracicaba como ponto de partida

A preocupação com a relação entre sociedade e natureza também se conecta à própria história de Luiz Fernando. Piracicabano, ele deixou a cidade, mas diz que a cidade continua presente em sua trajetória. “Eu sou de Piracicaba. Eu já saí de Piracicaba, mas, obviamente, Piracicaba nunca saiu de mim”, afirma. Formado em Engenharia Agronômica pela Esalq, ele atribui à instituição não apenas parte de sua formação técnica, mas também da maneira como aprendeu a interagir com grupos e coletivos.

A ligação com a Esalq também aparece na própria história da restauração ecológica no Brasil. Luiz Fernando participou de momentos importantes da construção da Rede Brasileira de Restauração Ecológica e da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica. Em 1999, a Esalq sediou o primeiro Simpósio de Restauração Ecológica de Ecossistemas Naturais, evento que ele aponta como um dos primeiros a trazer o termo “restauração ecológica” para o debate no país.

Para o pesquisador, Piracicaba funcionou como um canal para o encontro com diferentes profissionais e conhecimentos que ajudaram a construir sua trajetória. “É como se Piracicaba fosse um canal que me possibilitasse essas interações todas”, diz.

A lição que veio do Rio Piracicaba

Entre as lembranças que ajudam a explicar a forma como Luiz Fernando enxerga a relação entre sociedade e meio ambiente está uma conversa que teve anos atrás com um morador da região da Rua do Porto, onde cresceu. O pesquisador conta que costumava conversar com o homem, que morava em frente ao rio. Certa vez, perguntou se as enchentes não prejudicavam a casa. A resposta ficou marcada.

“Mas sou eu que estou no lugar errado. Nós aqui que estamos no lugar errado, porque esse lugar aqui pertencia ao rio”, respondeu o morador, segundo Luiz Fernando. Na sequência, o homem explicou que primeiro um prefeito abriu uma rua; depois, outro a alargou; outro a asfaltou; e, aos poucos, a ocupação avançou em direção ao rio.

Para Luiz Fernando, a fala traduz de maneira simples um dos problemas da relação humana com a natureza: muitas vezes, os impactos não são apenas resultado de eventos naturais, mas também da maneira como os espaços são ocupados. “Chega uma hora que a natureza fala com aquele sotaque bem piracicabano: ‘Olhe, não é bem assim que funciona, viu?’”, relembra.

A história, que o pesquisador guarda como uma espécie de ensinamento, resume também um dos desafios que ele leva para a nova função internacional: não basta recuperar os ambientes que já foram degradados. É preciso repensar as formas de ocupação e de uso dos recursos naturais para evitar que novos processos de degradação continuem acontecendo.