O primeiro porco clonado do Brasil morreu no fim de julho, aos quase quatro meses de vida. Criado em Piracicaba, o animal fazia parte de uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) voltada ao desenvolvimento de técnicas que, no futuro, poderão permitir o uso de órgãos de suínos em transplantes para seres humanos.
A morte foi divulgada pelo G1, que ouviu o professor Ernesto Goulart, do Instituto de Biociências da USP e responsável pelo projeto. Segundo o pesquisador, o fim do animal estava previsto no protocolo da pesquisa, mas acabou sendo antecipado em cerca de dois meses devido às dificuldades financeiras enfrentadas pela equipe.
Mesmo com a antecipação, o clone havia cumprido a principal missão da primeira etapa do estudo. Durante os meses de acompanhamento, os pesquisadores avaliaram seu desenvolvimento e suas condições de saúde. O animal apresentou evolução considerada satisfatória e foi considerado saudável pela equipe.
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Após a morte, o animal passará por um processo de taxidermia e deverá ser levado ao Museu de Zoologia da USP, em São Paulo. A ideia é preservar o exemplar como parte da história da pesquisa científica brasileira e registrar uma etapa importante do desenvolvimento da clonagem de suínos no país.
O porco nasceu no Instituto de Zootecnia de Piracicaba e posteriormente foi transferido para as instalações da USP na capital paulista. A experiência permitiu aos pesquisadores acompanhar de perto o desenvolvimento de um animal produzido por clonagem e verificar se a técnica utilizada apresentava os resultados esperados.
Um segundo porco também chegou a ser produzido pela equipe, mas morreu apenas um dia depois do nascimento. O episódio demonstra uma das dificuldades envolvidas na clonagem, considerada uma técnica de alta complexidade e que ainda exige avanços para alcançar resultados mais consistentes.
A clonagem, porém, é apenas uma das etapas do projeto. O objetivo seguinte é produzir suínos geneticamente modificados para que seus órgãos apresentem maior compatibilidade com o organismo humano e possam, futuramente, ser estudados como alternativa para transplantes.
A estratégia está ligada ao xenotransplante, área da ciência que investiga a utilização de órgãos, tecidos ou células de uma espécie em outra. No caso dos suínos, os pesquisadores buscam realizar alterações genéticas capazes de reduzir a rejeição do órgão pelo corpo humano.
O projeto começou a ser estruturado entre o fim de 2019 e o início de 2020 e reúne diferentes instituições e pesquisadores. A equipe recebeu recursos públicos, mas enfrenta dificuldades relacionadas ao financiamento, que afetaram a manutenção da estrutura e reduziram o número de profissionais envolvidos.
De acordo com informações do Ministério da Saúde apresentadas no projeto, a iniciativa integra o Programa Genomas Brasil. Foram aprovados R$ 11,6 milhões para a pesquisa, dos quais R$ 6,15 milhões já haviam sido liberados. A liberação das demais parcelas depende do cumprimento das metas, da prestação de contas e da disponibilidade orçamentária. Mesmo diante das limitações, os pesquisadores pretendem avançar para a próxima fase. O trabalho também busca dar continuidade à trajetória iniciada pelo professor Silvano Raia, um dos principais nomes ligados à pesquisa e pioneiro dos transplantes no Brasil, que morreu em abril de 2026.