Mais da metade dos brasileiros convive hoje com dívidas, segundo levantamento do Datafolha, em um cenário que já redefine hábitos, prioridades e a própria sensação de segurança financeira. O aperto é amplo: 45% da população enfrenta algum nível mais intenso de dificuldade para fechar as contas, sendo 27% em situação considerada apertada e 18% em condição severa.
O estudo, realizado com 2.002 pessoas em 117 municípios, ajuda a explicar por que o dinheiro lidera as preocupações pessoais no país. Para 37% dos entrevistados, questões financeiras são o principal problema atual, à frente de saúde, trabalho e relações pessoais. O impacto aparece diretamente no cotidiano, com cortes que vão além do supérfluo.
A redução de gastos já atinge áreas essenciais: 52% diminuíram a compra de alimentos, 50% passaram a economizar em contas como luz e água, e 38% reduziram até a aquisição de remédios. O ajuste no orçamento, antes concentrado em lazer, agora compromete itens básicos e afeta a qualidade de vida.
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O cartão de crédito ganhou protagonismo nesse cenário. Utilizado por 57% dos brasileiros, ele deixou de ser apenas um meio de pagamento e passou a funcionar, para muitos, como ferramenta para equilibrar o orçamento. Parte dos consumidores já recorre ao parcelamento até para despesas cotidianas, como supermercado e contas domésticas.
O uso frequente do crédito rotativo agrava a situação. Essa modalidade, acionada quando o pagamento da fatura é parcial, impõe juros elevados e acelera o crescimento da dívida. Mais de um quarto dos entrevistados admite recorrer a esse recurso, ainda que de forma eventual.
Na avaliação de especialistas ouvidos no levantamento, a ampliação do acesso ao crédito nos últimos anos, combinada com juros altos e custo de vida pressionado, elevou o comprometimento da renda das famílias. Ao mesmo tempo, a facilidade de contratação por meios digitais estimula decisões impulsivas — percepção compartilhada por 68% dos entrevistados do Datafolha.
O endividamento já não se limita a bancos ou financiamentos. Cerca de 28% dos entrevistados pelo Datafolha estão com contas básicas em atraso, como energia, água, internet e tributos. Esse dado evidencia um nível mais profundo de fragilidade financeira, quando despesas essenciais entram no vermelho.
A vulnerabilidade é agravada pela falta de planejamento e de reserva. Embora parte dos entrevistados mantenha algum controle sobre os gastos, 23% afirmam não fazer qualquer tipo de acompanhamento financeiro. Além disso, 66% dizem não possuir poupança, o que aumenta a dependência do crédito diante de imprevistos.
Sem uma rede de segurança, situações como perda de renda, emergências ou aumento de preços tornam-se gatilhos para o endividamento. Nesse contexto, o crédito deixa de ser uma escolha estratégica e passa a ser uma necessidade imediata.
O resultado é um ciclo difícil de interromper. O crédito, que deveria organizar a vida financeira, acaba sendo utilizado como mecanismo de sobrevivência. Em meio à renda comprimida e ao encarecimento do custo de vida, a dívida se consolida como parte estrutural da realidade de milhões de brasileiros.