A divulgação do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói para o Carnaval 2026 colocou a escola no centro de um debate que extrapola o universo da folia. Em um ano eleitoral, a decisão de homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reacendeu discussões sobre os limites entre expressão cultural, política e o uso de recursos públicos no maior espetáculo popular do país.
Com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a agremiação propõe levar à Marquês de Sapucaí uma narrativa que percorre a trajetória pessoal e política do presidente, desde a infância marcada pela pobreza no Nordeste até sua consolidação como liderança sindical e figura de projeção internacional.
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A letra do samba aposta em um tom épico e emocional, abordando temas como desigualdade social, fome, direitos dos trabalhadores e soberania nacional. Ao longo da composição, a história de Lula é apresentada como símbolo de resistência e transformação social, conectando vivências individuais a episódios marcantes da história recente do Brasil.
Referências a personagens ligados à luta democrática e à cultura brasileira reforçam a proposta de um desfile com forte carga política, característica que historicamente faz parte do carnaval em momentos decisivos do país.
Enredo: Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil
Autores: Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr
Intérprete: Emerson Dias
Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, à luz de Garanhuns
Lugar onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns
Me via nos olhares dos meus filhos
Assombrados e vazios com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um sol da pátria incessante
Pro destino retirante te levei, Luiz Inácio
Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial
Vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Vladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui no Brasil de Rubens Paiva
Lute pra vencer, aceite se perder
Se o ideal valer, nunca desista
Não é digno fugir, nem tão pouco permitir
Leiloarem isso aqui a prazo, à vista
É… tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
É… teu legado é espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia
Quanto custa a fome? Quanto importa a vida?
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói o amor venceu o medo
Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula! Lula!
A repercussão do samba ganhou novos contornos após o Tribunal de Contas da União (TCU) solicitar a suspensão parcial de recursos federais destinados ao carnaval. A análise envolve um contrato de R$ 12 milhões firmado entre a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), voltado à promoção do turismo internacional.
Pelo acordo, cada escola do Grupo Especial receberia R$ 1 milhão, incluindo a Acadêmicos de Niterói. O questionamento surgiu diante do entendimento de que a homenagem a um presidente em exercício poderia levantar dúvidas sobre a finalidade e a impessoalidade do uso do dinheiro público.
Parlamentares de oposição passaram a contestar o repasse, alegando risco de desequilíbrio político e possível caracterização de propaganda eleitoral antecipada. O caso também chegou ao Ministério Público Eleitoral, ampliando a discussão jurídica em torno do desfile.
Enquanto a decisão final do TCU não é tomada, a Acadêmicos de Niterói segue com os preparativos para o desfile marcado para 15 de fevereiro. Independentemente do desfecho, o episódio reforça o papel histórico do carnaval como espaço de debate, provocação e reflexão sobre o Brasil e suas contradições.