07 de fevereiro de 2026
CONFLITO GLOBAL

“Estamos na 3ª Guerra Mundial”, afirma análise da Marinha; VEJA

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução/Marinha do Brasil
Ataques cibernéticos, sabotagem de infraestruturas críticas, pressão econômica, manipulação de informações e interferência política passaram a integrar o arsenal estratégico das grandes potências.

A percepção de que o mundo atravessa um período de relativa estabilidade internacional vem sendo substituída por uma leitura mais dura e pragmática do cenário global. Em encontros recentes entre militares e especialistas em defesa, o entendimento predominante é de que o planeta já vive um conflito de alcance mundial — ainda que distante das imagens clássicas de guerras declaradas.

Essa avaliação foi apresentada durante o III Simpósio de Defesa e Segurança Internacional, realizado em outubro de 2025, em parceria entre a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Marinha do Brasil. O evento reuniu pesquisadores brasileiros e estrangeiros para discutir transformações profundas na forma como os conflitos são conduzidos no século XXI.

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Guerra sem frentes e sem declaração formal

O diagnóstico apresentado no simpósio aponta que a atual disputa global ocorre em um ambiente conhecido como “zona cinzenta”, no qual as fronteiras entre paz e guerra se tornaram difusas. Em vez de confrontos diretos entre Estados, o cenário é marcado por ações indiretas, contínuas e muitas vezes difíceis de atribuir.

Ataques cibernéticos, sabotagem de infraestruturas críticas, pressão econômica, manipulação de informações e interferência política passaram a integrar o arsenal estratégico das grandes potências. Trata-se de um tipo de conflito permanente, que opera abaixo do limiar da guerra convencional, mas com impactos reais sobre a soberania dos países.

O colapso da lógica da globalização pacificadora

Especialistas destacaram que a crença de que o comércio internacional e a interdependência econômica seriam suficientes para evitar guerras perdeu força ao longo da última década. A crise financeira de 2008 marcou um ponto de inflexão, ao enfraquecer economias centrais e acelerar a transição para um sistema internacional multipolar.

Desde então, observa-se a ascensão de disputas estratégicas abertas, o fortalecimento do protecionismo e a perda de protagonismo de instituições multilaterais. Nesse ambiente, o poder voltou a ocupar posição central nas relações internacionais, com a segurança sendo tratada como ativo essencial.

América do Sul no radar das potências

Embora a América do Sul não enfrente conflitos armados diretos entre Estados, a região passou a ocupar espaço relevante na disputa global por recursos estratégicos. Minerais críticos, biodiversidade, energia e rotas comerciais tornaram-se alvos de interesse crescente de potências externas.

O risco apontado para o Brasil é o de permanecer em uma posição periférica, limitada à exportação de commodities, sem avançar de forma consistente na produção de conhecimento, tecnologia e valor agregado. Essa condição amplia a vulnerabilidade do país diante de pressões típicas da zona cinzenta.

Marinha alerta para limitações operacionais

As análises estratégicas apresentadas no simpósio ganham peso ao serem confrontadas com a situação atual da Marinha do Brasil. Avaliações internas já reconhecem que a Força Naval opera abaixo do patamar considerado compatível com a dimensão territorial, econômica e marítima do país.

Responsável pela proteção da chamada Amazônia Azul — área marítima fundamental para o comércio exterior e para a produção energética nacional —, a Marinha enfrenta desafios como o envelhecimento de meios navais, restrições orçamentárias e incertezas na continuidade de programas estratégicos.

Navios são retirados de operação por fim de vida útil em ritmo superior à incorporação de novos meios, enquanto projetos estruturantes sofrem com a falta de previsibilidade de recursos.

Autonomia como eixo central da defesa

Um dos consensos do debate foi a necessidade de fortalecer a Base Industrial de Defesa como caminho para ampliar a autonomia estratégica do país. Em um ambiente internacional cada vez mais competitivo, a capacidade de desenvolver e manter tecnologias sensíveis é vista como condição básica para a defesa dos interesses nacionais.

A ausência dessa autonomia reduz o poder de dissuasão e aumenta a exposição do Brasil a pressões externas, especialmente em um contexto no qual conflitos não se apresentam de forma explícita, mas atuam de maneira contínua e indireta.

Fragmentação regional amplia riscos

Outro ponto levantado foi o enfraquecimento dos mecanismos de integração sul-americanos. A instabilidade política em países vizinhos e a perda de eficácia de fóruns regionais diminuem a capacidade coletiva de resposta a ameaças externas.

Nesse cenário, cresce a expectativa de que o Brasil exerça papel de liderança regional não apenas no campo diplomático, mas também por meio de capacidade estratégica e estabilidade institucional.

Zona cinzenta exige mudança de postura

O encontro entre academia e Forças Armadas reforçou a importância da produção de conhecimento estratégico e da ampliação do debate público sobre defesa nacional. O interesse crescente de estudantes e civis pelo tema foi apontado como sinal positivo, mas ainda insuficiente diante da complexidade do cenário global.

A leitura predominante é clara: espionagem tecnológica, desinformação, coerção econômica e disputa por recursos já fazem parte da realidade contemporânea. Tratar essas ameaças como hipóteses distantes pode custar caro.

Em um mundo moldado pela zona cinzenta, a falta de preparo deixa de ser apenas um problema de planejamento e passa a representar um risco direto à soberania.