Durante décadas, as gorduras saturadas ocuparam o papel de vilãs nas recomendações nutricionais. No entanto, um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Lund, na Suécia, reacendeu a discussão ao apontar uma possível associação entre o consumo regular de queijo com alto teor de gordura e a redução do risco de demência ao longo da vida.
A investigação acompanhou cerca de 28 mil pessoas por até 25 anos, analisando hábitos alimentares detalhados e o surgimento de doenças neurodegenerativas. Os dados foram publicados na revista científica Neurology e rapidamente dividiram opiniões no meio acadêmico.
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Entre todos os alimentos avaliados, apenas alguns se mostraram associados a diferenças relevantes nos índices de demência. Participantes que consumiam cerca de 50 gramas diárias de queijo com mais de 20% de gordura apresentaram um risco aproximadamente 13% menor de desenvolver a doença, em comparação com aqueles cujo consumo era inferior a 15 gramas por dia.
O impacto foi ainda mais expressivo quando observada a demência vascular: nesse grupo, a redução do risco chegou a quase 30%. Já outros laticínios amplamente consumidos, como leite, iogurte e manteiga, não demonstraram relação estatisticamente significativa com a saúde cognitiva ao longo do tempo.
Outro dado que chamou atenção foi a associação entre o consumo de natas com alto teor de gordura e menor incidência de demência. Pessoas que incluíam ao menos 20 gramas diárias desse produto na alimentação apresentaram um risco cerca de 16% menor da doença em comparação com quem não o consumia regularmente.
Apesar disso, os próprios pesquisadores ressaltam que os números não devem ser interpretados de forma isolada ou simplista.
Por se tratar de um estudo observacional, não é possível afirmar que o queijo ou as natas atuem diretamente como fatores de proteção contra a demência. Os resultados indicam associação, não causalidade. Há a possibilidade de que pessoas com esse padrão alimentar também adotem outros comportamentos favoráveis à saúde cerebral, como maior nível de atividade física, melhor acesso à saúde ou dietas mais equilibradas no geral.
Além disso, mesmo com ajustes estatísticos, variáveis sociais, metabólicas e de estilo de vida podem influenciar os desfechos observados.
Os achados não anulam as evidências já consolidadas sobre os riscos do consumo excessivo de gorduras saturadas, especialmente no contexto cardiovascular. Ainda assim, o estudo contribui para uma visão mais nuançada da nutrição, sugerindo que alimentos fermentados e matrizes alimentares complexas, como o queijo, podem ter efeitos distintos daqueles atribuídos às gorduras isoladas.
A hipótese levantada é que a relação com a demência vascular esteja ligada, de forma indireta, à saúde dos vasos sanguíneos, o que impacta diretamente o funcionamento do cérebro. No entanto, os mecanismos envolvidos ainda precisam ser melhor compreendidos.
Especialistas reforçam que os resultados não justificam uma dieta rica em gorduras sem critérios. O principal recado é a importância de analisar os alimentos dentro de um contexto mais amplo, considerando qualidade, quantidade e padrão alimentar como um todo.
Na disputa constante entre modismos nutricionais e evidências científicas, o estudo sueco adiciona mais uma camada ao debate, e mostra que, quando o assunto é alimentação e cérebro, as respostas raramente são simples.