O registro de novos casos do vírus Nipah em países da Ásia, no início de 2026, voltou a chamar a atenção das autoridades de saúde e do público para um animal pouco conhecido fora de sua região de origem: a raposa-voadora, considerada o maior morcego do mundo. Associado a surtos graves e com alta taxa de letalidade, o vírus levanta questionamentos sobre possíveis riscos para outros países, incluindo o Brasil. A ciência, no entanto, aponta que o temor não encontra respaldo nos dados atuais.
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A raposa-voadora pertence ao gênero Pteropus e se destaca pelo tamanho impressionante. Algumas espécies podem alcançar quase dois metros de envergadura, superando qualquer morcego encontrado no território brasileiro. Além do porte, o animal chama atenção pela aparência, com focinho alongado e olhos grandes, adaptados à navegação visual.
Diferentemente da maioria dos morcegos do Brasil, que dependem da ecolocalização e têm hábitos estritamente noturnos, as raposas-voadoras utilizam principalmente a visão e apresentam atividade crepuscular. Essa diferença revela uma distância evolutiva profunda entre os grupos.
Um dos principais pontos para entender os riscos é a distribuição geográfica. As raposas-voadoras não ocorrem no Brasil nem em qualquer parte das Américas. Sua presença está restrita ao Sudeste Asiático, regiões da Oceania, Madagascar e áreas específicas da África.
Além da separação por oceanos, essas espécies evoluíram de forma isolada dos morcegos americanos por dezenas de milhões de anos. Isso resultou em diferenças anatômicas, metabólicas e imunológicas que tornam improvável qualquer interação direta com a fauna brasileira.
O Nipah é um vírus zoonótico identificado no fim dos anos 1990 e conhecido por causar quadros graves em humanos, com comprometimento neurológico e respiratório. As raposas-voadoras são consideradas reservatórios naturais, ou seja, carregam o vírus sem desenvolver a doença.
Essa convivência é explicada por adaptações fisiológicas únicas. Para sustentar o voo com um corpo grande, esses morcegos mantêm um metabolismo elevado, o que aumenta a temperatura corporal. Ao longo da evolução, isso favoreceu um sistema imunológico altamente eficiente, capaz de controlar vírus sem desencadear inflamações severas.
Do ponto de vista científico, a possibilidade de o Nipah se estabelecer no Brasil por meio da fauna silvestre é considerada remota. Não há evidências de que o vírus consiga infectar morcegos brasileiros ou criar um ciclo de transmissão em espécies nativas.
Mesmo em um cenário hipotético de entrada do vírus por meio de um humano infectado, o foco da vigilância sanitária estaria no controle da transmissão entre pessoas, com medidas de isolamento e monitoramento clínico. A adaptação do vírus a novos hospedeiros silvestres exigiria condições altamente específicas.
Os episódios de Nipah registrados na Ásia estão diretamente relacionados à interferência humana no ambiente. A destruição de florestas e a expansão de áreas agrícolas aproximam morcegos de zonas habitadas, aumentando o contato indireto com alimentos e animais domésticos.
Esse desequilíbrio ambiental cria oportunidades para que vírus circulem fora de seus ciclos naturais. Por isso, pesquisadores reforçam que o problema não está nos morcegos, mas na forma como os ecossistemas vêm sendo modificados.
No Brasil, os morcegos exercem funções essenciais para a saúde dos ecossistemas. Muitas espécies são responsáveis pela dispersão de sementes, contribuindo para a regeneração de florestas. Outras atuam na polinização de plantas e no controle de insetos que afetam lavouras e áreas urbanas.
A redução dessas populações pode gerar impactos ambientais e sanitários ainda maiores, contrariando a ideia de que eliminar morcegos aumentaria a segurança humana.
Embora o Nipah não circule no Brasil, morcegos podem transmitir outras doenças, como a raiva. A recomendação é nunca tocar nesses animais, vivos ou mortos. Caso um morcego seja encontrado em local inadequado, a orientação é isolar a área e acionar o serviço de zoonoses do município.
Manter cães e gatos vacinados contra a raiva também é uma medida fundamental de prevenção. Mais do que motivo de medo, o caso do vírus Nipah reforça um alerta global: preservar o meio ambiente é uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco de novas doenças emergentes.