05 de fevereiro de 2026
SAÚDE MENTAL

Transtornos alimentares vão além da estética e exigem atenção

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 5 min
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A relação com a comida pode adoecer. Especialistas explicam como identificar sinais de alerta e quando buscar ajuda profissional.

Mudanças sutis no comportamento alimentar, culpa recorrente após comer e preocupação constante com o corpo são sinais que muitas vezes passam despercebidos, mas podem indicar o desenvolvimento de transtornos alimentares. Para especialistas, esses quadros não se resumem à comida ou à estética: envolvem fatores emocionais, sociais e culturais e exigem diagnóstico precoce e acompanhamento especializado.

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Quais são os transtornos alimentares mais comuns

Segundo o psiquiatra Lucas Brandi Varella, com residência em Psiquiatria e subespecialização em Psiquiatria da Infância e Adolescência pela Unicamp, os transtornos alimentares mais frequentemente diagnosticados atualmente são a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar, além de apresentações consideradas atípicas, que também podem gerar sofrimento psíquico importante.

“A anorexia costuma surgir com mais frequência na adolescência, especialmente entre meninas, e se caracteriza pela restrição alimentar progressiva, medo intenso de ganhar peso e distorção da imagem corporal”, explica.

Já a bulimia tende a aparecer no final da adolescência ou início da vida adulta e é marcada por episódios de compulsão seguidos de comportamentos compensatórios, como vômitos, uso de laxantes ou exercícios físicos excessivos, muitas vezes sem alterações evidentes de peso, o que dificulta o diagnóstico.

O transtorno da compulsão alimentar, por sua vez, é hoje o mais prevalente na população geral e pode surgir em qualquer faixa etária. Ele envolve episódios de ingestão exagerada de alimentos, sensação de perda de controle e culpa posterior, sem comportamentos compensatórios regulares.

Sinais de alerta que não devem ser ignorados

Lucas alerta que mudanças abruptas nos hábitos alimentares merecem atenção. “Restrição intensa, exclusão de grupos alimentares sem orientação profissional, rituais rígidos em torno da comida, checagens corporais repetidas e culpa intensa após comer são sinais importantes”, afirma.

Em crianças e adolescentes, outros indícios podem surgir, como queda no rendimento escolar, isolamento social, irritabilidade, atraso no crescimento ou alterações puberais. Do ponto de vista físico, perda ou ganho de peso significativos, fadiga, tonturas, alterações menstruais e sintomas gastrointestinais persistentes indicam que a relação com a comida ultrapassou o limite do saudável.

A nutricionista Bianca Lovadini, que atua na área clínica e cursa pós-graduação em Endocrinologia e Metabolismo, complementa que muitos sinais acabam sendo naturalizados. “Comportamentos alimentares rígidos, medo persistente de determinados alimentos, prática compulsiva de exercícios e oscilações de humor relacionadas à alimentação ou à imagem corporal são comuns e muitas vezes passam despercebidos”, explica.

O impacto da cultura das dietas e do corpo ideal

Para os especialistas, fatores emocionais, sociais e culturais exercem forte influência no desenvolvimento dos transtornos alimentares. De acordo com Lucas, dificuldades na regulação emocional, baixa autoestima e perfeccionismo podem tornar o indivíduo mais vulnerável. “Em muitos casos, o comportamento alimentar disfuncional passa a funcionar como uma forma inadequada de lidar com emoções difíceis”, afirma.

Bianca destaca o papel da cultura das dietas e da busca constante por um corpo ideal. “Esse discurso reforça a ideia de que o corpo precisa ser controlado o tempo todo, normalizando a insatisfação corporal e soluções rápidas, como o uso indiscriminado de suplementos e medicamentos”, alerta. Segundo ela, quando não há mudança real de hábitos, o risco de recaídas, especialmente episódios de compulsão alimentar, é alto, assim como o reganho de peso.

Tratamento exige olhar multiprofissional

O tratamento dos transtornos alimentares, segundo Lucas, deve ser necessariamente multiprofissional. “Psiquiatra, psicólogo, nutricionista e, em alguns casos, clínico ou pediatra atuam de forma complementar. Essa integração é fundamental para reduzir recaídas e promover uma recuperação sustentada”, afirma.

Nesse processo, o papel do nutricionista vai além da prescrição alimentar. “Atuamos na reconstrução da relação com a comida, na regularização do padrão alimentar e na correção de deficiências nutricionais, sempre respeitando o estágio clínico e psicológico do paciente”, explica Bianca.

Ela ressalta que a busca por ajuda profissional se torna necessária quando a alimentação passa a gerar sofrimento psicológico, prejuízo social ou impacto na saúde física. “Quando pensamentos sobre comida, corpo ou peso ocupam grande parte do dia e provocam ansiedade ou culpa persistente, não se trata mais de uma preocupação saudável, mas de um sinal clínico.”

Exemplo de superação ajuda a dar visibilidade ao tema

Casos como o da influenciadora Mirian Bottan, que hoje fala abertamente em suas redes sociais (@mbottan) sobre saúde mental, transtornos alimentares e estética, ajudam a ampliar o debate e reduzir o estigma em torno do tema. Mirian já relatou publicamente que enfrentou diferentes transtornos ao longo da juventude e que o processo de recuperação envolveu terapia, acompanhamento profissional e, principalmente, a compreensão de que o transtorno alimentar era um reflexo de questões emocionais mais profundas.

Atualmente, ao compartilhar reflexões sobre corpo, alimentação e autocuidado, ela destaca a importância de falar sobre o assunto e de buscar ajuda especializada. Para os especialistas, esse tipo de relato contribui para que mais pessoas reconheçam sinais de alerta e procurem tratamento antes que o quadro se agrave.

Diagnóstico precoce faz diferença

Para Lucas, informação e diagnóstico precoce são determinantes para o prognóstico dos transtornos alimentares. “Quanto mais cedo o tratamento é iniciado, menores tendem a ser as complicações clínicas, o risco de cronificação e o impacto sobre o desenvolvimento físico, emocional e social, especialmente em crianças e adolescentes”, afirma. Ele destaca que muitos quadros começam de forma silenciosa e acabam sendo normalizados no dia a dia, o que atrasa a busca por ajuda especializada.

Bianca reforça que reconhecer os sinais e procurar apoio profissional não significa fraqueza, mas cuidado com a própria saúde. “Quando a relação com a comida deixa de ser flexível e passa a gerar sofrimento constante, é um alerta importante”, explica. Segundo ela, quanto mais cedo o acompanhamento multiprofissional é iniciado, maiores são as chances de reconstruir uma relação saudável com a alimentação e evitar que o transtorno se agrave ou se prolongue ao longo dos anos.