31 de janeiro de 2026
74 MORTES EM 2025

Álcool e mortes: Piracicaba tem trânsito mais letal de SP; VEJA

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução/Dani Acorda Piracicaba
Motorista morre em acidente brutal na rodovia Cornélio Pires

Piracicaba fechou 2025 com 74 mortes provocadas por acidentes de trânsito, o maior índice proporcional entre os municípios paulistas acompanhados pelo Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito (Infosiga-SP). A taxa chegou a 17,17 óbitos a cada 100 mil habitantes, colocando o município no topo do ranking estadual e acendendo um alerta sobre a efetividade das políticas de segurança viária.

Os dados revelam um cenário persistente de risco nas vias urbanas e rodovias que cortam a cidade, agravado por fatores estruturais, crescimento da frota e comportamentos de alto risco ao volante.

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Números podem ser ainda maiores

As estatísticas oficiais consideram apenas ocorrências registradas em boletins de ocorrência, o que indica que o total real de acidentes pode ser superior. Casos sem vítimas graves ou danos aparentes, especialmente os mais leves, muitas vezes não chegam a ser formalizados, o que dificulta a leitura completa do problema e o planejamento de ações preventivas mais precisas.

Histórico recente mostra retomada da alta

Após uma queda observada durante os anos mais críticos da pandemia, Piracicaba voltou a registrar crescimento nas mortes no trânsito. Em 2020, foram contabilizados 43 óbitos. O número subiu gradualmente, alcançou 76 em 2024 e permaneceu elevado em 2025, com 74 mortes.

O comportamento da curva ao longo dos últimos 11 anos indica que reduções pontuais não se sustentaram ao longo do tempo, reforçando a necessidade de políticas contínuas e integradas.

Motociclistas lideram vítimas fatais

A distribuição das mortes por tipo de usuário evidencia a vulnerabilidade de quem circula sem proteção estrutural. Em 2025, 35 vítimas fatais eram motociclistas, quase metade do total registrado no ano. Na sequência aparecem:

O dado reforça o impacto da velocidade e da convivência desigual entre diferentes modais no sistema viário urbano.

Faixa etária mais afetada foge do estereótipo

Os registros de 2025 mostram que as mortes no trânsito atingem majoritariamente adultos em idade produtiva, e não apenas jovens. As faixas etárias com maior número de óbitos foram:

Também houve registros relevantes entre idosos, especialmente entre 70 e 74 anos, com seis mortes.

Embriaguez ao volante cresce na cidade

Outro dado que chama atenção é o aumento dos casos de embriaguez ao volante em Piracicaba. Entre 2024 e 2025, os registros desse tipo de infração cresceram 36%, passando de 33 para 45 ocorrências, segundo informações extraídas de boletins de ocorrência.

O crescimento contrasta com o cenário estadual, onde houve leve queda de 0,5% no mesmo período. Em Limeira, por exemplo, os casos aumentaram 22%, enquanto Piracicaba apresentou um dos avanços mais expressivos da região.

Penalidades existem, mas efeito ainda é limitado

Dirigir sob efeito de álcool é classificado como infração gravíssima, com multa de quase R$ 3 mil e suspensão do direito de dirigir por 12 meses. Quando o teste do etilômetro aponta índice igual ou superior a 0,34 mg de álcool por litro de ar alveolar, o condutor também responde por crime de trânsito, com pena que pode variar de seis meses a três anos de detenção.

Em casos com vítimas feridas, as sanções podem ser agravadas por lesão corporal. Ainda assim, processos administrativos e judiciais costumam ser longos e permitem recursos, o que, na prática, acaba reduzindo o efeito imediato das punições previstas em lei.

Ranking estadual reforça problema estrutural

Mesmo com população menor que cidades como Campinas e Guarulhos, Piracicaba lidera o ranking de mortes no trânsito por habitante no estado de São Paulo. O dado indica que o problema vai além do volume de veículos e está ligado à forma como o trânsito é organizado, fiscalizado e utilizado.

Entre as dez cidades com maiores taxas estão municípios de diferentes portes, o que reforça a relação entre letalidade e gestão da mobilidade urbana.

Fiscalização, engenharia e educação no centro do debate

Boletins técnicos e análises setoriais apontam que a redução consistente das mortes depende da combinação de várias frentes:

Os dados históricos mostram que ações isoladas têm impacto limitado quando não fazem parte de um plano estruturado de médio e longo prazo.

Crescimento da frota pressiona sistema viário

Em 2025, a frota de veículos de Piracicaba passou de 357 mil para 366 mil, ampliando a pressão sobre vias já saturadas e aumentando o risco de conflitos entre modais. O crescimento exige respostas mais robustas, especialmente em áreas com grande circulação de pedestres e motociclistas.

A letalidade no trânsito não se restringe à mobilidade. O impacto atinge diretamente o sistema de saúde, o atendimento de emergência e a vida de famílias inteiras. Os dados do Infosiga-SP reforçam que a violência viária precisa ser tratada como um problema estrutural e contínuo, que exige planejamento, monitoramento e ação permanente.

Enquanto os números seguem elevados, Piracicaba permanece no centro de um debate urgente: como transformar estatísticas em medidas eficazes para preservar vidas.