10 de julho de 2026
SAÚDE

Melatonina pode não ser tão segura quanto parece; VEJA os riscos

Por Bia Xavier - Jornal de Piracicaba |
| Tempo de leitura: 3 min
Imagem gerada por IA

A melatonina, cada vez mais popular entre pessoas que enfrentam dificuldades para dormir, é vendida livremente nas farmácias brasileiras desde 2021. Disponível em cápsulas, gotas e versões em goma, o hormônio ganhou espaço como uma alternativa considerada natural para combater a insônia. No entanto, especialistas alertam que o consumo contínuo e sem orientação médica pode trazer riscos à saúde, especialmente quando utilizado por longos períodos.

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Liberação sem prescrição gera preocupação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza a comercialização da melatonina como suplemento alimentar, o que dispensa a exigência de receita médica. Apesar disso, médicos destacam que a substância não atua como um nutriente comum. Trata-se de um neuro-hormônio, com influência direta sobre diferentes sistemas do organismo, o que exige cautela no uso.

O consumo indiscriminado pode levar a desequilíbrios fisiológicos, principalmente quando não há avaliação prévia da produção natural do hormônio pelo corpo.

Estudo aponta associação com doenças cardíacas

Um estudo apresentado em novembro de 2025 durante as Sessões Científicas da Associação Americana do Coração (AHA), nos Estados Unidos, trouxe novos dados sobre os possíveis efeitos do uso prolongado da melatonina. A pesquisa analisou mais de 130 mil prontuários médicos de adultos com insônia crônica, comparando aqueles que utilizaram o hormônio por pelo menos um ano com indivíduos que nunca fizeram uso da substância.

Os resultados indicaram que os usuários apresentaram cerca de 90% mais risco de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo de cinco anos. O índice de hospitalização pela condição foi aproximadamente 2,5 vezes maior, além de um aumento significativo na mortalidade por todas as causas.

Os dados ainda são considerados preliminares e não passaram por revisão por pares, o que impede conclusões definitivas sobre causalidade. Ainda assim, os números reforçam a necessidade de atenção quanto ao uso contínuo da substância.

Função vai além de induzir o sono

Produzida naturalmente pela glândula pineal, no cérebro, a melatonina é liberada com a redução da luminosidade no período noturno. Sua principal função é regular o ritmo circadiano, conhecido como relógio biológico, coordenando os ciclos de sono e vigília.

Durante a noite, o hormônio contribui para a diminuição da temperatura corporal, redução da pressão arterial e indução do estado de repouso. Também atua como um marcador do tempo de escuridão, auxiliando o organismo a se adaptar às variações sazonais e manter o equilíbrio fisiológico.

Excesso e efeitos colaterais

A Anvisa estabelece como limite seguro a ingestão diária de até 0,21 mg de melatonina. No entanto, relatos de uso acima dessa dosagem são frequentes, especialmente entre pessoas que aumentam a quantidade por conta própria na tentativa de obter melhores resultados.

O excesso pode provocar efeitos imediatos como sonolência diurna, tontura, dor de cabeça, desorientação e dificuldade de concentração. As consequências do uso prolongado ainda estão sendo investigadas, mas levantam preocupação entre especialistas.

Poucas indicações clínicas

A suplementação de melatonina é indicada apenas em situações específicas. Entre elas estão distúrbios do ritmo circadiano, como atraso ou avanço da fase do sono, e casos em que há prejuízo na percepção da luz, como em algumas condições de cegueira.

Fora desses contextos, o uso tende a tratar apenas o sintoma da insônia, sem corrigir sua causa.

Dormir melhor sem medicação

A insônia costuma estar associada a fatores como estresse, ansiedade, depressão, dor crônica e hábitos inadequados. Por isso, o tratamento deve priorizar abordagens não medicamentosas sempre que possível.

A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é considerada o padrão-ouro no tratamento do distúrbio, atuando na modificação de comportamentos e crenças que prejudicam o sono. Medidas simples, como reduzir a exposição à luz de telas à noite, manter horários regulares para dormir, praticar atividade física e adotar técnicas de relaxamento, também contribuem para melhorar a qualidade do descanso.

Diante de dificuldades recorrentes para dormir, a orientação é buscar avaliação médica especializada, evitando a automedicação, mesmo com substâncias classificadas como naturais.