A decisão da líder da oposição venezuelana María Corina Machado de entregar sua medalha do Prêmio Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, causou forte repercussão internacional e gerou reações duras na Noruega, país responsável pela premiação. O gesto, considerado inédito, foi interpretado por críticos como um ataque direto à credibilidade do Nobel da Paz.
O encontro ocorreu na quinta-feira (15), na Casa Branca. Trump, que há anos manifesta publicamente o desejo de receber a honraria, aceitou a medalha, apesar de não ser oficialmente laureado pelo Comitê Norueguês do Nobel.
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Dias antes do episódio, o Comitê Norueguês do Nobel havia reiterado que o prêmio é pessoal e não pode ser transferido, compartilhado ou cedido a terceiros. Mesmo assim, a instituição optou por não se manifestar oficialmente após o ocorrido, mantendo silêncio diante das solicitações da imprensa internacional.
Especialistas apontam que a ausência de um posicionamento imediato contribuiu para ampliar o desconforto em torno do caso.
Na Noruega, a entrega da medalha foi recebida com perplexidade. A professora Janne Haaland Matlary, da Universidade de Oslo, afirmou à emissora pública NRK que o gesto rompe com a tradição do prêmio e demonstra desrespeito à sua história. Segundo ela, a atitude esvazia o simbolismo do Nobel da Paz e expõe seu uso político.
O meio político norueguês também reagiu. Trygve Slagsvold Vedum, ex-ministro das Finanças e líder do Partido do Centro, criticou duramente Trump por aceitar a medalha, enquanto Kirsti Bergstø, líder do Partido da Esquerda Socialista, classificou o episódio como absurdo e sem propósito.
O caso reacendeu uma discussão antiga sobre a vulnerabilidade do Prêmio Nobel da Paz a disputas políticas. Embora o Comitê atue de forma independente, seus cinco integrantes são indicados pelo Parlamento norueguês, o que frequentemente alimenta questionamentos sobre critérios e motivações das escolhas.
Críticos lembram que o Nobel já esteve no centro de outras controvérsias, como a premiação de Barack Obama em 2009, ainda no início de seu mandato, e de Abiy Ahmed em 2019, pouco antes do início de uma guerra civil na Etiópia. Também é citado o caso de Aung San Suu Kyi, vencedora em 1991, que mais tarde passou a ser criticada por sua postura diante da crise humanitária em Mianmar.
O gesto de María Corina Machado contrasta com ações vistas como alinhadas ao espírito do prêmio. Em 2022, o jornalista russo Dmitry Muratov leiloou sua medalha do Nobel da Paz para arrecadar recursos destinados a refugiados da guerra na Ucrânia, iniciativa amplamente elogiada pela comunidade internacional.
Para analistas, a diferença está no propósito: enquanto Muratov usou o prêmio para fins humanitários, o episódio atual é visto como um movimento político direto.
A polêmica ocorre em um momento delicado das relações entre Noruega e Estados Unidos, marcadas por tensões comerciais e pela exclusão de empresas americanas do fundo soberano norueguês, avaliado em cerca de US$ 2,1 trilhões.
Na Venezuela, María Corina Machado está fora do processo de transição política após a derrubada de Nicolás Maduro por forças americanas em janeiro. Ao justificar sua atitude, a líder afirmou que entregou a medalha como reconhecimento ao que chamou de “compromisso de Trump com a liberdade do povo venezuelano”.
Para Raymond Johansen, ex-prefeito de Oslo, o episódio representa um dano significativo à imagem do Nobel da Paz. Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que a premiação se tornou vulnerável a disputas de poder e corre o risco de perder sua autoridade moral no cenário internacional.
Criado a partir do testamento de Alfred Nobel, em 1896, o Nobel da Paz segue sendo uma das honrarias mais prestigiadas do mundo. No entanto, episódios como este reforçam o debate sobre os limites entre reconhecimento diplomático e instrumentalização política.