12 de janeiro de 2026
VACINAÇÃO INFANTIL

EUA alteram calendário vacinal e preocupam comunidade médica

Por Bia Xavier - JP |
| Tempo de leitura: 4 min
Freepik

A atualização do calendário de vacinação infantil nos Estados Unidos voltou a colocar a imunização no centro do debate público. A decisão das autoridades norte-americanas de retirar seis vacinas da lista de recomendações universais, transferindo parte delas para o modelo de “decisão clínica compartilhada” ou para grupos específicos de risco, acendeu um sinal de alerta entre especialistas em saúde coletiva.

Embora o novo desenho não elimine completamente essas vacinas, médicos e pesquisadores avaliam que a mudança pode gerar efeitos indiretos importantes, sobretudo na confiança da população e na adesão aos programas de imunização — um fator decisivo para evitar o retorno de doenças já controladas.

VEJA MAIS:



O que muda no calendário infantil dos EUA

No modelo atualizado, seguem como vacinação de rotina para todas as crianças imunizantes contra sarampo, caxumba e rubéola, poliomielite, coqueluche, tétano, difteria, HPV, varicela, além de vacinas contra Hib e doença pneumocócica.

Por outro lado, imunizações como gripe, hepatites A e B, meningococo, rotavírus, Covid-19 e estratégias relacionadas ao vírus sincicial respiratório (VSR) deixam de constar como recomendação universal e passam a depender de avaliação individual entre famílias e profissionais de saúde ou de critérios de maior risco.

Abordagem individual ou risco coletivo?

Para a doutora em Biologia Molecular e Genética Humana pela Fiocruz, Patrícia Vanderborght, responsável pelo setor de Imunização Humana da Rede D'Or/Richet, a mudança pode ser interpretada como uma tentativa de personalização da vacinação, desde que acompanhada de comunicação clara e responsabilidade institucional.

“Trata-se de uma estratégia que transfere parte da decisão para o diálogo entre médico e família, especialmente para grupos de maior risco. O problema surge quando isso acontece em um cenário de desinformação crescente”, avalia.

Já para o patologista clínico Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do Richet, o impacto vai além da esfera individual. “Vacinas universais sustentam a imunidade coletiva, protegendo quem não pode se vacinar. Ao relativizar essa recomendação, o Estado reduz seu papel como garantidor da saúde pública e pressupõe um nível de acesso e letramento em saúde que não é homogêneo nem mesmo em países desenvolvidos”, alerta.

Desinformação e desigualdade em foco

Especialistas concordam que o maior risco não está nos efeitos imediatos da decisão, mas no impacto silencioso e progressivo sobre a confiança da população nas vacinas. Em um ambiente marcado pela circulação de fake news e discursos antivacina, a mudança pode ser interpretada como sinal de menor importância da imunização.

“Quem tem acompanhamento médico regular seguirá protegido. Mas as famílias mais vulneráveis perdem a principal mensagem pública de cuidado coletivo”, aponta a infectologista Rosana Richtmann, consultora em vacinas da Dasa. Segundo ela, decisões desse tipo tendem a aprofundar desigualdades em saúde.

O infectologista Alberto Chebabo, dos laboratórios Bronstein e Sérgio Franco, reforça que as consequências costumam aparecer a médio e longo prazo. “Meses ou anos depois, surgem surtos de meningite, bronquiolite ou gastroenterite em crianças. A lógica da saúde pública não é a mesma do consultório individual”, explica. Ele lembra que, apesar da decisão governamental, a Academia Americana de Pediatria manteve a recomendação dessas vacinas.

Vacinas em debate e por que elas importam

Entre os imunizantes que deixaram de ser universais, especialistas destacam o papel estratégico de cada um:

“Muitas dessas doenças deixaram de ser visíveis justamente pelo sucesso das vacinas. Isso não significa que deixaram de existir”, resume o infectologista Guenael Freire, do Laboratório São Marcos.

Brasil segue caminho oposto

Enquanto os Estados Unidos revisam seu calendário, o Brasil mantém uma das políticas públicas de imunização mais amplas do mundo. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece gratuitamente 19 vacinas de rotina ao longo da vida, além de imunizantes específicos para grupos de risco. No total, o SUS disponibiliza 47 imunobiológicos, entre vacinas, soros e imunoglobulinas.

Além disso, há vacinas aprovadas pela Anvisa e recomendadas por sociedades científicas que estão disponíveis na rede privada, com esquemas ampliados ou maior cobertura de sorotipos, especialmente para meningococo e pneumococo.

Para Patrícia Vanderborght, independentemente do modelo adotado, o ponto central é evitar retrocessos. “Reduzir ou flexibilizar calendários sem vigilância epidemiológica rigorosa pode abrir espaço para o retorno de doenças controladas. A vacinação continua sendo uma das maiores conquistas da saúde pública”, conclui.