11 de julho de 2026
ELEIÇÕES

Descubra por que os argentinos voltaram a apoiar Milei

Por Da redação |
| Tempo de leitura: 3 min
Foto : LUIS ROBAYO / AFP

A surpreendente vitória de Javier Milei nas eleições legislativas de meio de mandato, nas quais obteve mais de 40% dos votos, consolidou o presidente argentino como protagonista de uma nova fase política no país. O resultado chamou atenção por ocorrer em meio ao duro ajuste fiscal, redução drástica de gastos públicos e instabilidade cambial, fatores que, em tese, enfraqueceriam sua base eleitoral. Em vez disso, o eleitorado parece ter recompensado a queda da inflação, expressado medo de um novo colapso financeiro e, sobretudo, rejeitado o peronismo, que amargou 31,6% dos votos.

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Entre os argentinos que foram às urnas, o sentimento predominante foi de esgotamento político e cansaço econômico. Para muitos eleitores, Milei representa ainda um símbolo de ruptura com o que consideram ser décadas de políticas ineficientes e instabilidade. O cientista político Carlos Fara explicou que o antiperonismo teve peso decisivo, superando até mesmo o descontentamento com as medidas impopulares do governo. Segundo ele, a sociedade foi às urnas “cansada e desiludida”, vendo em Milei uma aposta pela continuidade da mudança iniciada em 2023.

A baixa participação eleitoral, cerca de 67% — a menor desde o retorno da democracia, em 1983 — reforça o argumento de um país desencantado com a classe política tradicional. O também analista Sergio Berensztein criticou a oposição, destacando que “nem houve autocrítica pelos erros do passado, nem uma proposta concreta de alternativa à agenda econômica atual”. Para o cientista político Carlos Germano, setores sociais diversos decidiram renovar o apoio ao presidente porque “a oposição voltou a oferecer mais do mesmo, sem nenhum projeto de inovação econômica”.

Apesar do impacto social da política de austeridade — que resultou em perdas salariais, desemprego e cortes nas áreas de educação, ciência e saúde — o eleitorado valorizou os primeiros sinais de controle da inflação, um dos pesadelos históricos da economia argentina. A analista Shila Vilker, da consultoria Trespuntozero, observou que a “memória traumática da hiperinflação” falou mais alto que o desconforto com a recessão. “Para a psiquê coletiva, a estabilidade de preços é algo extremamente valioso. Isso explica por que amplos setores da classe média optaram por manter a confiança no governo”, afirmou.

Outro fator que pesou para a estabilidade financeira foi o anúncio de uma possível assistência econômica dos Estados Unidos, articulada por Donald Trump e condicionada ao bom desempenho eleitoral de Milei. Para o mercado argentino, a promessa foi vista como um sinal de segurança externa diante da volatilidade do dólar, que chegou a disparar antes do pleito. Já para os críticos, o apoio americano representou ingerência direta nos rumos do país. Mesmo assim, analistas afirmam que esse “socorro” ajudou a conter a crise cambial e suavizar a tensão nos mercados.

No balanço final, a eleição legislativa refletiu uma aposta da população na continuidade do projeto de transformação econômica de Milei, mesmo com seus altos custos sociais. Como avaliou o cientista Carlos Germano, o eleitor argentino “decidiu seguir em frente com o novo, ainda que com falhas, diante de um passado político que já conhecia bem”.