04 de abril de 2026
NOVA DESCOBERTA

Sensor da UFSCar identifica aditivo cancerígeno em bebidas; Veja

Por Da redação |
| Tempo de leitura: 3 min
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Em fase de testes, projeto identifica nitrito de sódio em vinhos, água e suco de laranja.

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) anunciaram a criação de um sensor capaz de identificar a presença de nitrito de sódio (NaNO2) em amostras de água mineral, suco de laranja e vinho, substância usada como conservante e corante em embutidos, mas proibida em bebidas e associada à formação de nitrosaminas, compostos com potencial cancerígeno. A tecnologia combina baixo custo, sustentabilidade e rapidez, e pode se tornar uma ferramenta prática para controle de qualidade e segurança alimentar.

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O dispositivo foi produzido a partir de cortiça, material abundante e empregado tradicionalmente em rolhas, cuja superfície foi gravada com laser para gerar traçados de grafeno, uma forma do carbono de alta condutividade elétrica. Após essa etapa, os pesquisadores aplicaram um verniz à prova d’água e delimitaram a área funcional com esmalte para unhas; o conjunto passou por cura em forno a 40 °C por 30 minutos para estabilizar o acabamento. Esse processo dispensa reagentes tóxicos e aproveita uma plataforma reciclável e de baixo custo como matriz sensorial.

Em laboratório, amostras de água, suco de laranja e vinho foram diluídas em um eletrólito e submetidas ao sensor. Os testes apontaram elevada sensibilidade e boa estabilidade operacional: o protótipo detectou nitrito em concentrações compatíveis com limites relevantes para vigilância alimentar e ambiental, segundo os autores. O desempenho foi considerado promissor para identificar contaminações que poderiam representar risco à saúde, especialmente porque o uso de nitrito em bebidas não é legalmente permitido na maioria dos países, incluindo o Brasil.

Para Bruno Campos Janegitz, líder do Laboratório de Sensores, Nanomedicina e Materiais Nanoestruturados (LSNano) da UFSCar, a escolha da cortiça e da técnica a laser atende aos critérios de sustentabilidade do grupo: “Optamos por uma plataforma acessível e ambientalmente responsável para gerar um material altamente condutor, essencial para a detecção eletroquímica do nitrito”, diz ele, destacando a relevância de métodos simples e rápidos para vigilância em campo.

O estudo, publicado em revista científica especializada, contou com apoio da FAPESP e reúne contribuições de vários alunos do LSNano. A primeira autora é a mestranda Beatriz Germinare, que desenvolveu parte do trabalho com bolsa de iniciação científica da Fundação. Os pesquisadores ressaltam que a tecnologia ainda passa por validação laboratorial e que o design precisa ser aprimorado antes de uma aplicação prática e comercial em larga escala.

Além do aspecto técnico, o desenvolvimento reforça a importância do monitoramento de aditivos em alimentos e bebidas — a presença de nitrito fora de produtos permitidos preocupa por sua potencial conversão em nitrosaminas, substâncias ligadas ao risco cancerígeno. A proposta brasileira acrescenta uma opção promissora para detectar rapidamente contaminações em diferentes matrizes líquidas, com baixo custo de produção e reduzido impacto ambiental.

Os próximos passos incluem otimizar o formato do sensor para uso fácil em campo, ampliar a validação com mais amostras reais e estabelecer protocolos que permitam integração com rotinas de fiscalização e controle de qualidade em indústrias e órgãos reguladores.