CECÍLIO ELIAS NETTO

'Jornalista é o cão de guarda da sociedade'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 8 min
Arquivo/JP
Cecílio: 'Acho ter sido ali que se iniciou a minha carreira, num versinho infantil de amor'
Cecílio: 'Acho ter sido ali que se iniciou a minha carreira, num versinho infantil de amor'

“Nascido e sempre vivendo em Piracicaba”, Cecílio Elias Netto, 86 anos, é um dos mais renomados jornalistas da Noiva da Colina, com mais de 70 anos de muitos serviços prestados. Além de atuar nos principais veículos de comunicação de Piracicaba e região, Cecílio também tem um vasto material literário publicado ao longo de sua longeva atuação profissional. Foram cerca de 30 livros publicados.

Nesta entrevista, Cecílio conta que sua profissão não foi nada planejada, “simplesmente, aconteceu”. Muito desse sucesso, ele deve a seus pais, que desde cedo apresentaram ao então futuro comunicador o mundo das letras. “Meu pai, quando lia os jornais, me colocava em seus joelhos e eu ia acompanhando a leitura das palavras. Ao me matricular no então curso primário, eu já estava alfabetizado”, lembra Cecílio, que atualmente é colunista do JP.

Aos oito anos de idade, ele se apaixonou por uma amiguinha que morava em Cosmópolis e, diante disso, fez seus primeiros versos. Na adolescência, em 1956, aos 16 anos, ingressou no Jornal de Piracicaba, onde trabalhou como auxiliar de revisão e teve suas primeiras experiências na imprensa. No ano seguinte, passou a integrar a redação do Diário de Piracicaba. Aos 21 anos, assumiu a direção da Folha de Piracicaba. A partir daí, sua carreira decolou...

Ao longo de sua premiada carreira, Cecílio Elias Netto ganhou inúmeras homenagens, sendo a mais recente na última quinta-feira (5), do Sindicato de Jornalistas. Ele diz que recebe todo esse carinho “com muita, muitíssima emoção e agradecimento por tal generosidade para comigo”. Veja, abaixo, a entrevista na íntegra.

Faça, por favor, um breve resumo de sua trajetória jornalística e literária... Simplesmente, aconteceu. Foi acontecendo. O grande desejo sempre foi, desde a infância, o de viver aquele e naquele mundo das artes cultivado por meus pais e irmãos. Foi mágico ver beleza brotando das dificuldades de nossa realidade tão pobre. Até hoje, não entendo como foi possível: ainda quase ao final da II Guerra Mundial, faltava até comida. Mas havia música em nossa casa: o violino do meu pai, o piano, o acordeão de minhas irmãs. E minha mãe pintando seus quadros. Naquele ambiente, aprendi a ler e a escrever ainda em casa, o que se tornou, para aquela criança, verdadeira paixão. Meu pai, quando lia os jornais, me colocava em seus joelhos e eu ia acompanhando a leitura das palavras. Ao me matricular no então curso primário, eu já estava alfabetizado. 

Como surgiu essa paixão pelas letras e quando começou a escrever? Penso ser algo hereditário do qual nunca consegui escapar. Recordo-me claramente de, ainda nos meus oito aninhos de idade, ter-me apaixonado por uma amiguinha lá em Cosmópolis, onde tios meus residiam. E eu lhe fiz os mais belos versos que um poeta, em meu entender, jamais fizera. Escrevi: “Lua bunita/ que ilumina o jardim/ Num leve a Shirley de mim”. Acho ter sido ali que se iniciou a minha carreira, num versinho infantil de amor. Tornou-se meu sonho: quero escrever. 

O senhor completa 70 anos de jornalismo e 60 de literatura. Como enxerga essa trajetória hoje? Ainda é uma trajetória. Tenho um amigo que costuma dizer: “Para ele, escrever e viver é a mesma coisa”. No mundo árabe dos meus ancestrais, acredita-se no “maktub”, o “estava escrito”. Se assim for, não há como escapar. E não consegui. Não consigo. Ao mesmo tempo, acredito no exercício do jornalismo como missão. Aprendi, desde o início, o jornalista “ser o cão de guarda da sociedade”. E um dos meus professores insistia em ensinar: “Ai do cão de guarda que não ladra!”
A cultura caipiracicabana é central em sua obra. Por que esse tema se tornou sua principal referência? Tentei e ainda tento aprender com a imortal lição de Tolstói: “Para ser do mundo, cante a sua aldeia”. Piracicaba é o meu, o nosso mundo. Fernando Pessoa escreveu: “O Tejo é mais belo do que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.” Até mesmo diante de rios como o Amazonas, o Negro, o São Francisco, o Tietê, o Mississipi reconheci: são belos, belíssimos. Mas não são mais belos do que o Piracicaba, o rio que corre pela minha aldeia. Quem ama canta o seu amor. 

Além de retratar muito a cultura caipiracicabana, o senhor também fez vários livros com outros temas, como a biografia da ex-jogadora Paula, que fez história no basquete piracicabano. Como o senhor explica esse lado eclético de suas obras? Parece-me ter sido algo natural no universo humanista de minha geração. Pouco havia de especialistas em Humanidades. O então chamado intelectual era chamado a ser, cada vez mais, generalista. Na educação, para lembrarmos, um professor lecionava diversas disciplinas para os mesmos alunos. Do Latim ao Francês, da Matemática à Filosofia. No jornalismo, o mesmo ocorria. Um repórter tinha que “reportar” o cotidiano ora no futebol, ora na política, ora num concerto musical. Foi por essa razão que se reconheceu o jornalista ser, apenas, um “especialista em generalidades”. De certa forma, é como uma criança querendo sempre saber, indagando, perguntando: “por quê, como?” Para, depois, divulgar. Um contador de histórias do dia a dia. 

Como o senhor vê o papel do jornalismo na preservação da memória cultural de uma cidade? Não creio seja essa a sua responsabilidade principal. Obviamente, ele é parte da história, está na história, imerso em sua cultura. Permito-me lembrar que as próprias palavras jornalismo, jornalistas remetem ao vocábulo francês “jour” (dia, agora); aos latinos “giornata, giornale”. Há um vínculo figadal com o cotidiano. E aquilo que aconteceu ontem lhe é referencial para algo que ainda mais aumenta a sua responsabilidade diante de sua gente: o profetismo. E isso nada tem a ver com o sentido religioso da palavra. Por profeta, entendia-se, no passado, aquele que acendia os lampiões da cidade para iluminar ambientes. Era e sempre foi um “ver antes”, um “saber antes”, o que lhe permitia – e deveria continuar permitindo – a possibilidade de prever consequências. É um estar aberto também às intuições humanas. E sinto já estar acontecendo o “eterno retorno”.

Como o senhor percebe a evolução da linguagem jornalística ao longo de sete décadas de atuação? Evolução ou involução? Pois absolutamente não consigo confundir a linguagem coloquial, informal, do cotidiano, com linguagem formal. O jornalismo foi um dos bastiões da língua, da cultura, da também chamada de linguagem culta. Assim sendo, obedece a regras determinadas. E estas determinam normas de sintaxe correta, de vocabulário e acentuação adequadas. O jornalismo, em especial o “escrito”, tem compromisso também com isso. Precisaríamos atentar mais à competência e profissionalismo nesse universo da Língua. A palavra é nosso instrumento. Também para nós, o “Verbo” há que ser o início. Destaco o jornalismo “escrito”. Como seria possível exercê-lo sem “saber escrever”? Trata-se, sim, de ciência e arte. 

Quais desafios o jornalismo enfrenta hoje para manter objetividade e credibilidade? Não acredito estejamos, ainda, numa época de transição. Já se trata do início de uma história ainda indefinida. O jornalismo – com incertezas diante do novo – sobreviveu a mudanças muitas vezes radicais. Penso estarmos numa fase de depuração nascida, como sempre, daquelas chamadas “coincidências significativas” observadas por Jung. É como se a humanidade tivesse realmente a “alma comum”, a “anima mundi” que reage, lentamente, em todas as latitudes e longitudes. Para acontecer, é preciso chegar a um ponto de saturação, ao “beco sem saída”. Chegamos. É um retorno a bases sólidas universalmente conhecidas e reconhecidas. Digamos que esteja havendo um despertar coletivo para a regra de ouro: “não fazer ao outro aquilo que não queremos seja feito para nós.” Nesse retorno, o jornalismo – como informação e experiência – tem papel fundamental. Creio nisso. A objetividade está no relato da informação colhida. No entanto, a análise, a observação, a crítica são subjetivas. A sociedade está ansiosa por um jornalismo mais de opinião, de análise, de pesquisa, investigativo do que simplesmente noticioso. 

Ao longo de sua carreira, o senhor já recebeu inúmeras homenagens. A mais recente veio na última quinta-feira, do Sindicato dos Jornalistas. Como o senhor recebe esse reconhecimento e esse legado? Com muita, muitíssima emoção e agradecimento por tal generosidade para comigo. Isso me conduz a meditações ainda mais profundas sobre esses 70 anos de jornalismo, 60 de literatura, 50 anos de acolhimento pelo nosso sindicato de jornalistas profissionais. Nunca pensei em legado, nem pretendi deixar algo semelhante. Emociono-me e recorro à Violeta Parra e a Mercedes Soza: “Gracias a la Vida que me ha dado tanto!”

O senhor se sente realizado profissionalmente ou ainda falta algum projeto a ser feito? Vivi alegrias e tristezas, erros e acertos, esperanças e decepções. Jornalismo é jornada, missão. Logo, não tem fim, não se completa. Vive-se na ansiedade, de expectativa. Agora, quase próximo dos 90 anos de idade, começo a entender que o futuro é o próximo minuto. Assim, em cada meu despertar, convenço-me de que inicio um primeiro dia que, porém, pode ser o último. Logo, é preciso vivê-lo intensamente. 

Que conselho daria aos jovens escritores e jornalistas que buscam unir identidade cultural e rigor informativo? Não sei. São novos desafios ao início de uma nova era. As últimas eleições nos mostraram uma realidade empolgante: a juventude e os idosos unidos num mesmo propósito, gerações de mãos dadas. Se os jovens podem se servir da experiência dos mais idosos, estes voltamos a rejuvenescer com o vigor da eterna rebelião da juventude. Somos aprendizes. 

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