ARTIGO

Todos os Santos e Finados

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

No dia 1º. de novembro se comemora liturgicamente a festa de Todos os Santos - ou seja, celebra-se a Igreja Triunfante, constituída por todos os bem-aventurados que salvaram sua alma e estão no Paraíso, na posse da visão beatífica de Deus. Os inumeráveis heróis anônimos, na sua imensa maioria esquecidos pelos demais homens e pela História, que ao longo dos tempos foram passando desta vida para a Eternidade em estado de graça, e pelos méritos da Paixão de Jesus Cristo foram sendo admitidos no Paraíso - todos esses, embora esquecidos na Terra, são santos e são honrados pela Igreja nesse dia.  

Depois de ter celebrado nessa festa seus filhos admitidos à Glória eterna, no dia seguinte, de Finados, a Igreja recorda aqueles que já salvaram suas almas mas ainda não puderam entrar no Paraíso, por estarem se purificando no Purgatório. Ela incentiva os fiéis a rezarem por essas almas padecentes e abre com liberalidade, em benefício delas, os tesouros de suas indulgências. 

No último século, a Santa Sé tem procurado apresentar aos fiéis católicos a santidade como possível de ser atingida, e não tão inacessível que somente por via de exceção poderia ser alcançada. A Igreja sempre entendeu que o chamado à mais excelsa perfeição, é dirigido a todos. Assim se pronunciou, por exemplo, o Papa Pio XI na Encíclica Rerum omnium perturbationem, de 26/1/1923: “'A vontade de Deus', escreveu São Paulo, 'é a vossa santificação'; e o próprio Senhor declarou o que deveria ser essa santificação: 'Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste'. Não se pense que tal convite se dirige apenas a algumas almas privilegiadas, e que as demais possam contentar-se com um grau menor de virtude. Pelo contrário, como se depreende do teor das palavras, a lei é universal e não admite exceções.” 

Não somente pela via dos conselhos, seguida habitualmente pelas almas consagradas, mas também pela via dos preceitos, a qual todos, sem exceção, podem trilhar, a perfeição é sempre atingível, para o qual temos a própria palavra do Senhor a nos convidar. 

No século XVII, o Papa Urbano VIII (1625-1634) proibiu que pessoas não beatificadas ou canonizadas pela Santa Sé recebessem qualquer tipo de culto público e fixou normas muito estritas para o trâmite dos processos de beatificação e canonização. Tais normas, que hoje poderiam parecer extremadamente rigorosas, eram, sem dúvida, necessárias no contexto em que foram estabelecidas, para introduzir uma indispensável disciplina onde, antes, havia uma situação anômica e que requeria urgente normatização. Durante séculos vigoraram, em toda a Igreja, as normas que aquele pontífice fixou, mas, mudados os tempos, julgou a sabedoria da Igreja mais conforme às necessidades atuais, apresentar em maior número, e com maior variedade, modelos de santidade aos fiéis de todas as condições, permitindo assim que, pela via da exemplaridade, mais acessível se tornasse a santidade, de acordo com a frase latina “verba movent, exempla trahunt” (As palavras movem, mas os exemplos arrastam). 

Com esse escopo, o Papa João Paulo II promulgou, em 1983, a Constituição Apostólica Divinus perfectionis Magister, na qual estabeleceu novas regras para os processos de beatificação e canonização, que abrandaram e suavizaram um tanto exigências que tinham sido necessárias no passado, mas cuja prática, pouco a pouco, acabara produzindo um formalismo por vezes excessivo e até mesmo impeditivo de que muitos processos fossem abertos ou que, tendo sido abertos, chegassem a bom termo.  

Durante os 26 anos de seu pontificado, desde 1978 até 2005, o referido pontífice realizou 147 cerimônias de beatificação e 51 de canonização, proclamando 1338 novos Beatos e 482 novos Santos - cifras essas superiores às de qualquer outro Papa anterior, em toda a história da Igreja. Entre os novos beatos e santos proclamados em seu pontificado, podem ser encontrados homens, mulheres e crianças de todas as condições, de todas as profissões lícitas, de todas as categorias sociais, para servirem de espelhos ou modelos, além de intercessores, aos fiéis. 

Comentários

Comentários