ARTIGO

Revolucionários, conservadores e reacionários

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

O termo “revolucionário” é geralmente visto, pela historiografia inspirada nos autores marxistas, como algo elogioso. Se considerarmos o desenrolar da história como algo progressivo e inelutável, dentro da lógica de um sistema determinado por forças sociais que ultrapassam de muito o livre arbítrio dos homens individualmente considerados, revolucionários são aqueles que se antecipam no processo e, por assim dizer, queimam as etapas do seu desenrolar. Apressam, por seus atos, muitas vezes radicais, os entrechoques dialéticos que fazem a História avançar.  

Marx e Engels chegam a falar, no Manifesto do Partido Comunista, de 1848, de uma “roda da História”, cujo curso não deve ser retardado, pela inércia dos conservadores, menos ainda forçado a girar em sentido contrário, como pretendem os reacionários. Suas palavras textuais: “De todas as classes que ora enfrentam a burguesia, só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária. As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria; o proletariado, pelo contrário, é seu produto mais autêntico. As classes médias - pequenos comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos, camponeses - combatem a burguesa porque esta compromete sua existência como classes médias. Não são, pois, revolucionárias, mas conservadoras; mais ainda, reacionárias, pois pretendem fazer girar para trás a roda da História.” 

Dentro dessa ótica, que da teoria marxista passou para a linguagem comum dos livros de história e, mesmo, para a linguagem corrente, os revolucionários têm sempre uma aura simpática, mesmo quando procedem às maiores barbaridades e aos genocídios mais espantosos. São sempre apresentados como heróis, idealistas, sublimes visionários dignos do maior respeito e de total compreensão, ainda quando criminosos. São apresentados sempre como modelos para a juventude... como um Che Guevara, para citar um único exemplo. 

Lembro da idealização perfeita do revolucionário no romance “Os miseráveis”, de Victor Hugo. Ele descreve um personagem de nome Enjolras, um jovem terrorista das barricadas da Comuna de Paris, como o revolucionário ideal. É frio, é duro, é implacável, mas é sublime no seu radicalismo. É uma visão cem anos avançada, do Che Guevara, assassino cruel “sin perder la ternura” (sic), como se isso fosse possível! 

Eu recuso essa lógica e recuso essa terminologia. Para mim, o revolucionário é quase sempre (note-se o advérbio quase) um bandido, que utiliza meios ruins para atingir fins ainda piores. Revolucionário provém, como é sabido, do latim “revolvere”, que significa revolver. Revolucionário é quem sente necessidade de destruir para melhorar. Conservador, pelo contrário, é quem, diante de uma situação, procura sempre que possível, alternativas razoáveis para melhorá-la, corrigi-la, aprimorá-la, sem a sanha incontenível de destruir tudo para começar de novo. 

O que faz o médico diante de um organismo doente é sempre um tratamento conservador. Procura afastar as causas das doenças, destruir os focos que ela produziu no doente, vitalizar o que ainda há de bom no seu organismo e deixar que o tempo faça a sua obra. Há horas em que, sem dúvida, deve-se destruir, deve-se cortar com decisão, até mesmo, se indispensável, a sangue frio. Há horas em que é preciso recomeçar tudo da estaca zero. Mas essas são soluções extremas que não devem constituir regra geral, são antes exceções. 

A velha e sempre citada imagem de que a revolução é um meio fecundo para assegurar o progresso, porque é revolvendo a terra que ela desperta sua força criativa e germinativa, até isso a evidência dos fatos hoje nega. Hoje sabe-se perfeitamente que o sistema de revolver a terra favorece a erosão e o empobrecimento dos solos, e que o sistema pioneiro do plantio direto, desenvolvido por técnicos de nosso país, que propõe replantar sobre o solo não revolvido, produz muito mais, com menos adubo e com menor agressão ao ecossistema. Assim também, transformações lentas, graduais, seguras e pacíficas nas sociedades, sem os desgastes e os inconvenientes das revoluções, servem para assegurar melhor o progresso e o bem-estar dos povos.

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