ARTIGO

Quando o poder deixa de parecer eterno

Por Álvaro de Carvalho |
| Tempo de leitura: 3 min

Democracia possui uma virtude que políticos frequentemente esquecem: o poder é emprestado. No domingo, o brasileiro lembrou disso. O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Ninguém venceu ainda. Mas alguma coisa mudou. 

Depois de retornar ao Planalto em 2023 cercado pelo discurso de “reconstrução”, Lula chega ao segundo turno atrás do adversário. Seria precipitado decretar o fim do lulopetismo. Quase 54 milhões de votos demonstram sua força. Mas talvez estejamos assistindo ao *fim da ideia de que ele seja eleitoralmente inevitável*. 

E isso é saudável. Democracia não significa apenas permitir que uma maioria governe. Significa permitir que ela diga: chega. 

O PT chegou à Presidência em 2003. Lula governou oito anos, Dilma mais de cinco e Lula retornou em 2023. São aproximadamente 17 anos de presidências petistas. Nenhum partido deveria começar a confundir permanência eleitoral com propriedade sobre o Estado. 

E o terceiro mandato de Lula termina cercado por questionamentos que ajudam a explicar o ambiente político atual. 

O escândalo dos descontos indevidos do INSS atingiu aposentados e pensionistas e desencadeou investigações da Polícia Federal. O governo precisou gastar bilhões para ressarcir vítimas, enquanto as investigações passaram a alcançar pessoas próximas ao entorno político presidencial. O caso Banco Master, por sua vez, revelou uma extensa rede de relações entre empresários, políticos e integrantes de diferentes Poderes — atingindo personagens tanto do governo quanto da oposição. 

Investigar não é condenar. Mas fingir que nada aconteceu também não é democracia. 

Há ainda uma questão institucional mais profunda. Lula indicou ao STF Cristiano Zanin, que havia sido seu advogado, e Flávio Dino, que deixou o Ministério da Justiça para assumir uma cadeira na Corte. Ambos foram aprovados constitucionalmente pelo Senado. A crítica legítima não está em negar essa prerrogativa presidencial, mas em perguntar se relações tão próximas entre política e Judiciário contribuem para a percepção pública de independência entre os Poderes. 

Curiosamente, depois do resultado do primeiro turno, até integrantes do próprio PT passaram a criticar essa proximidade. Lula afirmou carregar nas costas a “promiscuidade do STF”, enquanto dirigentes petistas passaram a defender mudanças no modelo de indicação dos ministros. 

Talvez aí esteja uma das maiores ironias deste momento político. 

Durante anos, setores da esquerda ensinaram que questionar o poder era virtude. Pois deveriam continuar pensando assim quando *eles próprios são o poder*. 

Defendeu fiscalização? Aceite ser fiscalizado. Defendeu liberdade de manifestação? Tolere a crítica. 

Condenou proximidade excessiva entre Poderes? Use a mesma régua quando ela beneficia seu campo. 

Princípio que só vale contra adversário não é princípio. É conveniência. 

E algo semelhante vem acontecendo além das nossas fronteiras. Parte da América Latina experimentou recentemente vitórias conservadoras, embora não exista uma guinada mundial uniforme. Eleitores em diferentes democracias têm demonstrado disposição para punir governos quando custo de vida, segurança, corrupção ou desconfiança institucional ultrapassam antigas fidelidades partidárias. 

Agora teremos um segundo turno. 

Ele não deveria servir apenas para repetir slogans durante mais algumas semanas. Deveria obrigar o brasileiro a fazer uma pergunta muito mais séria: depois de tantos anos de um mesmo grupo ocupando o poder, a continuidade ainda é a melhor resposta para o país?* 

Cada eleitor terá sua resposta. O primeiro turno não enterrou Lula, não absolveu seus adversários e tampouco resolveu nossos problemas. 

Fez algo muito mais democrático: devolveu a decisão ao cidadão. Porque numa República saudável nenhum partido, presidente ou tribunal é proprietário do poder. 

O povo não pertence ao governo. O governo é que, temporariamente, pertence ao povo. 

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