ARTIGO

Início, meio e fim

Por Edson Rontani Júnior |
| Tempo de leitura: 3 min

No início, foi um olhar profundo, daqueles que se conectam entre o emitente e o receptor. “Você me merece” pensou aquela criança carente e cheia de vida mesmo com seus poucos meses de nascimento. Foi uma conexão imediata, e sem perder tempo se embrenhou entre os cabelos longos, colocando seu queixo no ombro de forma muito bem acomodada, presa como se fosse um imã ao mais puro metal. A partir daí, notava-se uma interação que se prolongaria por alguns anos. “Eu te mereço”, pensamos. 

Foi um início de júbilo, com muita alegria, conhecimento que serviu para preenchimento da ausência de um membro da família. Curioso é que a ausência se prostrou num dia e no dia seguinte uma nova vida chegou ao nosso lar. Há todo um simbolismo e crença por trás disso. Interessante é ver como aprendemos com uma nova vida no nosso meio. Voltamos a fazer coisas que não fazíamos por muito tempo. Voltamos a ser criança, mesmo com a idade avançada, descobrindo a cada dia desta vida um prazer que ficou no passado. 

No meio, foram vários anos de alegria. Preocupação com a alimentação, com a vestimenta, com o ondular do cabelo, com a companhia enquanto dormia. Já teve aquela sensação de acordar a noite e ver se alguém está respirando, tão profundo é o sono e a calma ao seu entregar aos braços de Morfeu? Foram muitas festas acompanhando sua família. Até fotografias motivavam uma expressão de concentração, olhando sempre para a lente, de olhos escuros abertos tomando atitude de um ser humano consciente do que fazia, observando seu foco com avidez.  

Toda manhã, um novo despertar com um tremendo sorriso. Não havia tempo feio. Foi uma vida de prazer, emoção e alegria. Uma vida que acompanhava toda viagem, todo evento social, e se comportava como uma verdadeira dama ao acomodar-se na cadeira de qualquer restaurante, observando por debaixo da toalha as crianças que alegravam o ambiente. 

No bom humor, na tristeza e na doença também era uma espécie de guardião que nos dava força para enfrentar um dia após o outro. Era uma alma que ajudava, de forma totalmente consciente, a revelar os amigos secretos da família separando o nome de cada um dos outros membros contidos num pequeno pedaço de papel. Motiva todos a para e disputar um bonequinho nas máquinas pega-pelúcia instaladas nos supermercados ou nos shoppings. Qual criança não gosta de um mimo ?  

O fim se deu numa manhã quente de inverno. Poderia completar doze anos de vida conjunta nesta semana. Mas, não deu. Os planos do ser humano são diferentes dos planos do destino. Sabemos que a morte vem um dia. Por mais que nos preparemos para ela, de forma sorrateira a mesma vem. E não avisa. Entristece a alma de qualquer um. Nos cala. Nos joga num abismo de sofrimento e dor, ao qual ficam apenas as lembranças.  

Conclusão: O francês Anatole France escreveu em 1908 que um monge chegou a uma ilha onde só havia pinguins. Cegado pelo branco da neve confunde-os com homens, evangeliza e os batiza. Ao saber de tamanha heresia, os Céus urdem e os anjos, santos e Deus ouvem, durante a assembleia, a ideia de Santa Catarina: que seja concedida uma pequena alma aos animais. 

Assim como Catarina, que sigamos o conselho de Francisco de Assis, cujo dia foi recentemente lembrado, e que sua memória perdure em nossos corações. Queria que tivesse durado um pouco mais, Sophia.  

Comentários

Comentários