ARTIGO

'A solidão em tempos de excesso de escolhas'.

Por Junior Ometto |
| Tempo de leitura: 3 min

Existe algo triste acontecendo nos relacionamentos atuais: pessoas incríveis estão ficando sozinhas. 

E não podemos deixar de lembrar que existem muitas pessoas acompanhadas mas sozinhas... 

Não porque faltem boas pessoas no mundo. Elas existem, e muitas. Mas estamos perdendo a capacidade de poder conhecê-las e muitas vezes nem estamos querendo conhecer por autoengano. 

Ou então decidimos rápido demais, julgamos rápido demais e... descartamos rápido demais! Emoção e razão descalibrados. 

Vivemos o que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida”, em que os vínculos se tornam frágeis e as relações parecem cada vez mais substituíveis. 

Nesse cenário, uma pessoa gentil, íntegra, responsável e emocionalmente madura pode não passar pelo teste das “primeiras impressões” E, logicamente, não vai conseguir competir com expectativas irreais, comparações constantes e critérios superficiais que alimentam tudo, menos o que precisam alimentar: a alma. 

O problema é que as características mais valiosas de um ser humano raramente se revelam de imediato. É preciso tempo, oportunidade... Caráter, empatia, lealdade e maturidade não são atributos que necessariamente impressionam nos primeiros minutos. São qualidades que o tempo revela, mas nossa ansiedade destrói. 

O amor não nasce da perfeição. As exigências estão achando que sim! A admiração não se sustenta no imediatismo ou na emoção e a construção de uma vida inteligente e produtiva a dois exige mais do que atração: exige disposição para dialogar, enfrentar dificuldades, reconhecer diferenças e, quando necessário, ceder sem abrir mão da própria dignidade. 

Mas tudo isso depende do nível de inteligência emocional para enxergar além do óbvio ou dos “comandos da sociedade moderna”. 

Talvez a pessoa que você procura não seja aquela que impressiona no momento que conhece, da forma que conhece, do jeito que você acha que deva ser ou no curto prazo, nem aquela que corresponde ao modelo de parceiro que a sociedade ensinou você a desejar. Cuidado com o “efeito manada”: o que serve para a maioria talvez não sirva para sua paz e sua felicidade... E as estatísticas estão cada vez mais provando essa realidade que as pessoas não querem ver. 

A pessoa “certa” talvez seja alguém que, aos poucos, revele valores, caráter, empatia e verdade. 

E se você estiver, sem perceber, atrapalhando a sua própria felicidade? 

Onde está o seu foco? Na aparência, na força física ou na essência? Na emoção passageira ou na segurança de uma relação saudável? Na expectativa de encontrar alguém sem defeitos ou na possibilidade de construir algo verdadeiro com alguém real? 

É claro que dar uma oportunidade não significa ignorar incompatibilidades, aceitar desrespeito ou permanecer em relações prejudiciais. Significa não confundir imperfeição humana com falta de valor, nem ausência de encantamento imediato com ausência de potencial para o que realmente você precisa. 

Em um mundo que nos ensina a substituir pessoas, talvez um dos maiores atos de inteligência emocional seja permitir que alguém mostre quem realmente é, sem exigir que tudo aconteça no nosso tempo ou conforme nossas expectativas. 

Não exija que ninguém seja como você, essa tarefa é impossível. 

Porque algumas das melhores coisas da vida não acontecem no primeiro olhar, nem da maneira como imaginávamos. Acontecem quando existe disponibilidade para conhecer, compreender e construir - com tempo, calma e equilíbrio. 

Talvez estejamos tão ocupados procurando a pessoa perfeita que não percebemos as pessoas extraordinárias. 

E, nessa busca incessante pelo ideal, corremos o risco de descartar justamente aquilo que mais desejamos encontrar: uma conexão verdadeira. Paz. 

Há pessoas que nos encantam no começo. Mas existem as que transformam nossa vida ao longo dos anos.  

Nem sempre são as mesmas.

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