JÚLIA SIMÕES

'Tenho uma relação de muito carinho e gratidão com Piracicaba'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 11 min
Will Baldine/JP
'A música exige estudo, dedicação, escuta e, principalmente, disposição para continuar aprendendo e se reinventando'
'A música exige estudo, dedicação, escuta e, principalmente, disposição para continuar aprendendo e se reinventando'

A cantora e compositora Júlia Simões é um dos grandes nomes de nossa música. Talentosa e com um repertório eclético, Júlia nasceu em Campinas, mas foi em Piracicaba que viu sua carreira alavancar. Por isso, a artista pavimentou uma relação muito forte com a música e com a cena cultural da Noiva da Colina.

“Apesar de não ser piracicabana de nascimento, tenho um sentimento de pertencimento muito grande. Piracicaba é a cidade onde construí minha história”, reconhece Júlia, que também é formada em Publicidade e Propaganda pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba).
Nesta entrevista, a cantora fala de seus 30 anos de carreira, de suas influências, de seus gostos, de suas parcerias e de seus projetos pessoais. Ela conta que sua identidade musical está muito ligada à música brasileira, mas existe também uma influência muito forte do jazz em sua maneira de cantar e de interpretar. 

Júlia conta ainda sobre seu processo de composição, dos momentos marcantes em sua carreira, sobre seus planos para o futuro e, no final, deixa uma dica para os que estão começando: “Eu diria três coisas: estudem, escutem e tenham paciência”. Veja, abaixo a entrevista completa:

Como e quando você descobriu que queria seguir carreira na música? Quais foram os maiores desafios no início da sua trajetória? A música entrou na minha vida muito cedo. Meu pai tocava violão e eu cresci com música dentro de casa. Comecei a cantar por volta dos 13 anos, muito nova, e aos poucos fui percebendo que aquilo era muito mais do que uma paixão ou um hobby. Era realmente o que eu queria fazer da minha vida. Acho que um dos maiores desafios no começo foi justamente transformar essa paixão em profissão. Quando você começa tão jovem, vai aprendendo tudo na prática: a relação com o palco, com os músicos, com o público, a escolha de repertório e também toda a parte profissional que existe por trás de uma carreira artística. Foi uma construção. E, olhando hoje, depois de mais de três décadas, percebo que essa construção nunca termina. A música exige estudo, dedicação, escuta e, principalmente, disposição para continuar aprendendo e se reinventando.

Quanto tempo de estrada já, Júlia? Além da música, você também trabalha com jingles, não? Já são mais de 30 anos de carreira profissional. É praticamente uma vida inteira dedicada à música. Nesse período, passei por muitos palcos, eventos, festivais, casamentos, projetos autorais, gravações e diferentes formações musicais. E sim, também trabalho com jingles, produção e direção musical. Tenho o IPUVAE, meu estúdio em Piracicaba, onde desenvolvemos trabalhos de gravação, produção musical, jingles, locuções, mixagem, masterização e outros projetos. Acho muito interessante porque minha formação em Publicidade e Propaganda acabou se encontrando com a música justamente nesse universo. O jingle precisa ter uma linguagem musical, mas também precisa comunicar. É música a serviço de uma ideia, de uma marca ou de uma mensagem, e eu gosto muito desse processo criativo.

De que forma Piracicaba influenciou sua formação artística? Piracicaba teve uma influência enorme na minha trajetória. Cheguei à cidade aos 17 anos, justamente numa fase muito importante da minha formação pessoal e artística. Foi aqui que minha carreira começou a ganhar corpo, que conheci músicos, construí parcerias, participei de projetos e fui encontrando meu espaço profissionalmente. Piracicaba tem uma vida cultural muito rica e me proporcionou encontros fundamentais ao longo desses anos. Foi aqui também que construí o IPUVAE, que hoje é uma parte muito importante da minha vida profissional e me permite estar dos dois lados: como artista e também como produtora e diretora musical. Então tenho uma relação de muito carinho e gratidão com a cidade. Campinas é a minha cidade de nascimento, mas Piracicaba é a cidade onde construí grande parte da minha história artística, profissional e pessoal.

Como você descreveria sua identidade musical para quem ainda não conhece seu trabalho? Minha identidade está muito ligada à música brasileira, mas existe também uma influência muito forte do jazz na minha maneira de cantar e de interpretar. MPB, samba, bossa nova e jazz fazem parte do meu universo. Gosto muito da riqueza harmônica, da improvisação e da liberdade que o jazz proporciona, mas tenho uma ligação afetiva muito profunda com a música brasileira. Acho que, depois de tantos anos cantando, fui encontrando uma maneira muito particular de interpretar. Gosto de respeitar a essência da música, mas também de encontrar a minha própria leitura. Nunca tive muita vontade de ficar presa dentro de uma única caixinha musical. Gosto da liberdade de transitar.

Quais artistas, gêneros ou movimentos mais influenciam sua carreira? A MPB, a bossa nova, o samba e o jazz são grandes referências para mim. Ao longo da minha vida ouvi muitos compositores e intérpretes brasileiros e internacionais. A música brasileira tem uma riqueza impressionante, tanto melódica quanto harmonicamente, e sempre foi uma grande escola para mim. O jazz também me ensinou muito sobre liberdade, interpretação, improvisação e sobre estar verdadeiramente presente na música. Depois de tantos anos, acho difícil separar exatamente de onde vem cada influência. Tudo aquilo que a gente escutou, estudou e cantou vai ficando dentro da gente e, com o tempo, passa a fazer parte da nossa própria linguagem. Entre eles, Elis Regina, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Lenine, Gal Costa, Simone, Ivan Lins, Djavan, Chico Buarque e Marisa Monte.

O que você busca transmitir emocionalmente quando canta? Acima de tudo, verdade. Para mim, cantar é contar uma história. Não importa se estou interpretando uma música minha ou uma canção que já foi gravada por dezenas de artistas. Eu preciso encontrar dentro daquela música alguma coisa que faça sentido para mim. A técnica é muito importante, claro. A gente estuda para ter recursos e segurança. Mas chega uma hora em que é preciso esquecer um pouco a técnica e simplesmente cantar. Eu gosto dessa sensação de estabelecer uma conexão com quem está ouvindo. Às vezes você olha para uma pessoa na plateia e percebe que aquela música chegou até ela de uma maneira especial. Para mim, é aí que a música realmente acontece.

Como nasce uma música sua: letra e melodia? Não existe uma fórmula. Às vezes nasce primeiro uma frase, uma ideia ou alguma coisa que estou sentindo e quero transformar em palavras. Em outras situações, aparece primeiro uma melodia e, a partir dela, a letra começa a surgir. Também gosto muito de compor em parceria. Acho muito interessante quando duas pessoas chegam com universos diferentes e, daquele encontro, nasce uma terceira coisa que talvez nenhuma das duas criasse sozinha. Composição tem muito de observação e de vivência. A gente escreve sobre o que vive, sobre o que vê, sobre amor, perda, encontros, desencontros, alegrias, dores. No fundo, a música acaba transformando experiências em alguma coisa que pode ser compartilhada.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira até agora? Essa é uma pergunta difícil porque, depois de mais de 30 anos de carreira, são muitos momentos importantes e cada um representa uma fase diferente da minha vida. Um deles, sem dúvida, foi ter cantado com Rita Lee, em 1999. É uma lembrança muito especial para mim e um daqueles momentos que ficam guardados para sempre na história de um artista. Também foi muito marcante participar de programas de televisão e chegar à final do Astros, no SBT, além de todas as gravações, festivais, grandes shows e encontros musicais que tive ao longo desses anos. Mas hoje penso que uma carreira não é construída por um único grande acontecimento. Ela é feita de muitos momentos, inclusive daqueles menores, que às vezes acontecem num palco e ficam só entre a gente e o público. Poder olhar para trás e perceber que, depois de mais de três décadas, continuo cantando, criando, gravando, iniciando novos projetos e, principalmente, continuo me emocionando com a música talvez seja uma das maiores conquistas da minha trajetória.

Como você enxerga o cenário musical independente no interior paulista? Eu vejo um cenário muito rico. Temos artistas, compositores e músicos extraordinários no interior paulista, com trabalhos de altíssimo nível. Talvez uma das maiores dificuldades ainda seja a circulação desses trabalhos. Durante muito tempo existiu a ideia de que o artista precisava estar em uma grande capital para conseguir projeção. Hoje isso mudou bastante com as plataformas digitais e as redes sociais, mas surgiram outros desafios. Existe uma quantidade gigantesca de conteúdo sendo lançada todos os dias, então não basta produzir um bom trabalho. Existe também o desafio de fazer esse trabalho chegar às pessoas. Por isso acredito muito nas parcerias, nos festivais, nos espaços culturais, nos projetos públicos e privados e, principalmente, na valorização dos artistas locais. O interior tem uma produção cultural enorme e precisa acreditar cada vez mais na própria força.

Em que projetos você está trabalhando no momento? E como foi para você a experiência com a Orquestra Educacional de Piracicaba (OEP)? Estou vivendo um momento muito especial artisticamente. Um dos meus principais projetos agora é a gravação do novo álbum “Serenata Brasileira – Volume 2”, ao lado do Alessandro Penezzi, um músico que admiro profundamente e com quem tenho uma parceria musical muito bonita. Estamos dando continuidade ao Serenata Brasileira, um projeto muito ligado à essência da música brasileira e à interpretação. É um trabalho pelo qual tenho um carinho enorme e estou muito feliz de poder chegar agora a esse segundo volume. Paralelamente, continuo desenvolvendo meus shows, meus projetos ligados ao jazz e à música brasileira, além de todo o trabalho de produção que realizamos dentro do IPUVAE. E a experiência com a Orquestra Educacional de Piracicaba – OEP foi muito especial. Cantar MPB acompanhada por uma orquestra transforma completamente a experiência. Você ouve aquelas músicas ganharem novas cores, novas texturas e uma dimensão diferente. Além disso, existe o aspecto educacional da Orquestra, que considero muito bonito. Poder dividir o palco com esses músicos e fazer parte desse processo foi uma experiência de muita troca e muito emocionante para mim.

Há planos para novos lançamentos, turnês ou colaborações? Sim. Neste momento, o grande lançamento que estamos preparando é justamente o “Serenata Brasileira – Volume 2”, com Alessandro Penezzi. Estamos em processo de gravação e estou muito envolvida e feliz com esse trabalho. Também quero continuar desenvolvendo meu repertório autoral, gravar novas músicas e realizar outras colaborações. Gosto muito de encontros musicais. Acho que algumas das coisas mais bonitas que fiz na minha carreira nasceram justamente da troca com outros artistas. E quero ampliar a circulação dos meus shows, levando esses projetos para outras cidades e outros públicos. Hoje estou numa fase em que quero fazer trabalhos que realmente tenham significado para mim. Depois de tantos anos de carreira, você começa a escolher cada vez mais aquilo que tem verdade, que te emociona e que representa artisticamente quem você é naquele momento.

Onde você se imagina artisticamente nos próximos anos? Primeiro, eu me imagino cantando. Sempre! [risos]. Não consigo imaginar minha vida sem música. Mas me imagino também cada vez mais livre artisticamente. Acho que existe uma coisa muito bonita que vem com o tempo e com a maturidade: você passa a entender melhor quem é, o que gosta de cantar e o que realmente quer dizer através da sua arte. Quero continuar gravando, fazendo shows, criando novos projetos, trabalhando com músicos que admiro e explorando cada vez mais essa relação entre a música brasileira e o jazz. Também quero continuar desenvolvendo o IPUVAE como um espaço de criação, não apenas para os meus trabalhos, mas como um lugar onde outros artistas possam gravar, produzir e desenvolver seus próprios projetos. Quero continuar curiosa. Acho que essa é uma coisa que não quero perder nunca.

Que conselho daria para jovens artistas de Piracicaba? Eu diria três coisas: estudem, escutem e tenham paciência. Vivemos numa época em que existe uma ansiedade muito grande para que tudo aconteça rapidamente. As redes sociais muitas vezes dão a impressão de que alguém apareceu de um dia para o outro e imediatamente construiu uma carreira. Mas, na maioria das vezes, a gente não vê os anos de trabalho que vieram antes. Uma carreira artística é construída. Tem acertos, erros, portas que se abrem, outras que se fecham, períodos maravilhosos e outros mais difíceis. Também diria para os jovens artistas aproveitarem o que Piracicaba oferece. Conheçam os músicos da cidade, assistam aos shows, frequentem os espaços culturais, façam parcerias, conversem com artistas de outras gerações e valorizem quem está produzindo arte perto de vocês. E, principalmente, não tenham tanta pressa para encontrar uma identidade. Estudem suas referências, experimentem, errem, mudem de ideia. Aos poucos, a própria voz aparece. Depois de mais de 30 anos de carreira, eu ainda estou aprendendo. E acho que essa é uma das coisas mais bonitas de ser artista: a gente nunca chega a um ponto em que não exista mais nada para descobrir.

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