ARTIGO

O supremo circo e o mágico Furtin

Por Walter Naime |
| Tempo de leitura: 3 min

Senhoras e senhores, preparem a pipoca! As luzes se acendem, a cortina abre e começa mais um espetáculo no grande circo da República. 

 No centro do picadeiro aparece o mágico Furtin. Terno impecável, toga reluzente e uma cartola tão grande que parece capaz de esconder até processo de milhares de páginas. 

 Furtin não tira coelhos da cartola. Seu número é mais sofisticado: ele faz desaparecer cartas. 

 — Respeitável público! Prestem atenção! A carta está aqui! 

 E mostra uma carta especial, carta do baralho jurídico : denúncia, documentos, provas, depoimentos e tudo aquilo que o cidadão imagina que deveria ser examinado pela Justiça. 

 — Um, dois, três... 

 A carta desaparece. 

 A plateia olha para a cartola. Nada. 

 Olha para Furtin. Nada. 

 — Cadê a carta? 

 O mágico sorri: 

 — Faz parte do espetáculo! 

 O problema é que esse número já foi apresentado em outros picadeiros. Na Lava Jato, por exemplo, o Supremo anulou atos e processos em diferentes casos, com decisões baseadas em questões jurídicas como competência do juízo e garantias processuais. No caso de Lula, o Supremo confirmou em 2021 a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e anulou as ações penais que ali tramitavam. E Furtin já sabia desde o começo que podia anular o processo. 

 E agora entra em cena um novo cartaz, e a plateia já desconfia do próximo truque: 

 BANCO MASTER! 

 Afinal, cartola grande sempre desperta curiosidade. 

 A comparação com a Lava Jato já apareceu no debate público. Mas aqui é preciso separar o picadeiro da realidade: em setembro de 2026, o caso Master ainda está em discussão no Supremo. O Plenário examinará uma questão de ordem, e o mérito das petições está sendo analisado. O pedido de vista do ministro Flávio Dino suspendeu a discussão. 

 Ou seja: Furtin ainda não fez essa carta desaparecer. 

 Furtin volta ao picadeiro carregando uma pasta enorme. 

 — Senhoras e senhores! Agora, o grande número: “A carta do Banco Master!” 

 A plateia se ajeita. 

 Furtin abre a pasta: 

 — Aqui está o processo! 

 Mostra os documentos e enfia tudo na cartola. 

 Então começa a mágica: 

 — Questão de competência! 

 Sacode a cartola. 

 — Garantias processuais! 

 Outra sacudida. 

 — Nulidade! 

 Mais uma. 

 Furtin levanta a varinha: 

 — Um, dois, três... 

 Cartola vazia. 

 Um cidadão grita da arquibancada: 

 — Cadê o processo? 

 Furtin olha calmamente: 

 — Qual processo? 

 — O que estava na sua cartola! 

 — Tem certeza? 

 — Eu vi! 

 — Então o senhor precisa prestar mais atenção ao espetáculo! 

 A plateia cai na gargalhada. 

 Mas, depois da risada, aparece a pergunta que não tem graça nenhuma: quem paga a entrada? 

 No circo brasileiro tem mágico, palhaço, malabarista, equilibrista, apresentador, vendedor de pipoca e o cidadão. 

 Ele compra o ingresso, paga a pipoca, paga a luz e ainda fica na arquibancada tentando entender o truque. 

 Só que o cidadão não quer mágica. 

 Quer Justiça. 

 E Justiça não deveria funcionar como ilusionismo. 

 Na mágica, o artista faz uma carta desaparecer. 

 Na Justiça, as cartas deveriam estar sobre a mesa. 

 Se uma prova é ilegal, que seja afastada. Se um processo está no lugar errado, que seja corrigido.  

 Se uma decisão precisa ser anulada, que seja anulada com fundamento. 

 Isso é Estado de Direito. 

 O problema começa quando o público fica com a impressão de que, sempre que surge uma carta inconveniente, alguém pode simplesmente colocá-la na cartola. 

 Porque uma decisão judicial pode mudar o destino de um processo. 

 Mas não deveria fazer desaparecer a confiança de quem está assistindo. 

 E confiança não volta com varinha mágica. 

 No final do espetáculo, Furtin faz sua reverência. 

 A cortina começa a fechar.                             

 Antes que as luzes se apaguem, alguém pergunta:                     

 — Furtin, qual será seu próximo número?                     

 O mágico sorri: 

 — Adivinhar onde foi parar a verdade! 

 A plateia fica em silêncio. 

 E o cidadão, já sem vontade de rir, faz a pergunta que nenhum mágico deveria precisar responder: se a Justiça existe para fazer aparecer a verdade, por que o espetáculo parece sempre ensaiar o desaparecimento das cartas?

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