ARTIGO

Uma Grécia idealizada, imaginada, sonhada, mas irreal

Por Armando Alexandre dos Santos |
| Tempo de leitura: 3 min

Concluímos hoje a série de artigos sobre o livro “A vida cotidiana na Grécia no século de Péricles” de Robert Flacelière. 

Os capítulos V e VI tratam dos trabalhos e ofícios, da toalete e do vestuário dos antigos gregos. São densos e cheios de pormenores interessantes para o estudioso da velha Hélade, mas tomariam demasiado espaço para serem expostos e comentados num artigo como este. Igualmente não comporta expor aqui o capítulo VII, sobre refeições, jogos e prazeres; basta dizer que nele se trata detidamente da alimentação das várias classes sociais, desde os requintados (para o gosto da época, naturalmente) menus dos symposia (banquetes), até o mais trivial nutrimento das camadas inferiores da sociedade.  

A respeito da vida religiosa e do teatro - assuntos de grande importância na Grécia, e muito relacionados entre si - estende-se o cap. VIII, que discorre sobre cerimônias religiosas, sacerdócio, sacrifícios, adivinhos, oráculos, métodos de adivinhação do futuro, rituais propiciatórios e de cura, santuários e peregrinações. No tocante ao teatro, seu papel (ou  função) de catarse é objeto de atenção do autor. 

A justiça é o tema do cap. IX. Uma diferença básica entre o sistema judiciário ateniense e os nossos sistemas modernos é que não havia propriamente uma representação oficial do interesse coletivo. Em outras palavras, não havia o que no Brasil se designa como Ministério Público. Diante dos tribunais, em causas de interesse privado qualquer pessoa lesada podia fazer uma acusação e solicitar uma audiência, ou por si mesma, ou por meio de um representante que atuava à maneira de advogado e defensor dos seus interesses. Em causas de interesse público, porém, quando se tratava de um interesse coletivo em jogo, não havia um funcionário público para patrocinar a demanda, mas qualquer cidadão podia tomar a iniciativa de propô-la.  O sistema de tribunais atenienses era amplo e complexo, desde o mais alto e respeitado deles, o Areópago, até os menores, de vários níveis e âmbitos de jurisdição e competência, e chegando a tribunais populares (Héliée), aos quais competia julgar praticamente tudo que não fossem crimes ou causas de morte.   

 À guerra é consagrado o último capítulo. Tratava-se de um assunto de extrema importância no mundo helênico em geral, e no ateniense em particular. É, aliás, sintomático o modo com que Flacelière abre esse capitulo: “Pensa-se geralmente hoje que os regimes democráticos são mais pacíficos que os ditatoriais. Não era bem assim na Antiguidade, no qual a democracia ateniense, pelo menos a do tempo de Péricles, revelou-se belicosa, conquistadora, imperialista.” O autor faz longas digressões de caráter histórico sobre guerras em que Atenas se envolveu, desde bem antes de Péricles até períodos muito posteriores a ele. A comparação com Esparta - o outro polo, podemos dizer assim, da Hélade antiga, perpétuo contraponto ao ateniense - é recorrente nesse capítulo. Uma exposição técnica detalhada sobre a composição dos exércitos, sua estruturação, os respectivos armamentos, as táticas que adotavam, é feita ao longo dele capítulo. Como em tudo o mais numa sociedade em que o elemento religioso estava profundamente imbricado com o civil, o cerimonial religioso que cercava a vida militar é também exposto. E, em se tratando de um povo eminentemente mareante, como o grego, o papel da marinha de guerra é também exposto em pormenores. 

O livro conclui com uma visão de conjunto, na qual o autor procura explicar, aos leitores, o motivo pelo qual se estendeu tanto sobre aspectos menos brilhantes do mundo grego, afastando-se da visão idealizada de uma Grécia clássica modelo de perfeição sob todos os pontos de vista. É a esses leitores, porventura decepcionados com o realismo com o qual o livro tratou dos vários aspectos do que se poderia chamar, sem dúvida de modo anacrônico, de “greek way of life”, e ao fato de ter se estendido menos sobre as tão propaladas grandezas e sublimidades do gênio grego, que ele dedica esse fecho, no qual conclui que seu livro “pode servir de antídoto a certa literatura que, na França e no Exterior, desde o Renascimento apresenta aos leitores uma Grécia idealizada, imaginada, sonhada, mas irreal.”

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