A Raízen (RAIZ4) deu mais um passo em seu amplo processo de reestruturação financeira e poderá emitir mais de 100 bilhões de novas ações ordinárias, caso seja necessário converter parte de sua dívida em participação acionária. A medida integra o plano de reorganização da companhia, que busca reduzir seu elevado endividamento e recuperar a capacidade financeira após meses de crise.
Segundo informações divulgadas, a emissão faz parte de uma autorização societária e não significa que todas as ações serão colocadas no mercado imediatamente. O objetivo é criar uma estrutura que permita converter dívidas em capital caso as negociações com credores avancem nesse formato.
Na prática, porém, a autorização preocupa investidores porque pode provocar uma forte diluição da participação dos atuais acionistas. Isso acontece porque, com um número muito maior de ações em circulação, quem não acompanhar um eventual aumento de capital passa a deter uma fatia proporcionalmente menor da empresa.
A medida é mais um capítulo da maior crise enfrentada pela Raízen desde sua criação, em 2011, na parceria entre Cosan e Shell. No início deste ano, a companhia entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas, considerado um dos maiores processos desse tipo já registrados no país. A estratégia incluiu negociações com bancos e investidores, venda de ativos, redução de investimentos e reforço da geração de caixa.
Analistas atribuem a deterioração financeira a uma combinação de fatores, entre eles: expansão acelerada dos investimentos; projetos de longo prazo ligados à transição energética; problemas climáticos que reduziram a produtividade da cana; aumento do custo financeiro com juros elevados; crescimento da alavancagem da companhia.
A relação entre dívida líquida e Ebitda chegou a níveis considerados elevados pelo mercado, levando credores a defenderem uma capitalização da empresa como alternativa para reduzir a alavancagem.
Outro desdobramento da reestruturação é a possibilidade de mudança na composição acionária da empresa. Caso parte das dívidas seja convertida em ações ou haja novos aportes de capital, a Shell poderá ampliar sua influência na companhia, dependendo do formato final das operações e das decisões tomadas pelos controladores.Para os investidores, o principal efeito da autorização para emissão de mais de 100 bilhões de ações é o risco de diluição.
Especialistas destacam que uma quantidade tão elevada de novos papéis tende a reduzir o percentual de participação dos atuais acionistas caso eles não acompanhem futuras capitalizações. Além disso, o aumento expressivo da oferta de ações costuma pressionar as cotações no mercado, motivo pelo qual os papéis da companhia já vêm acumulando forte desvalorização desde o início da crise.
Apesar disso, analistas ressaltam que a emissão representa apenas uma autorização prevista no processo de reestruturação. A efetiva utilização desse instrumento dependerá do andamento das negociações com os credores e das necessidades financeiras da companhia nos próximos meses.