ARTIGO

Integrar fé e ação

Por André Sallum | 11/04/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Quando se adere a determinado caminho espiritual, seja ele vinculado ou não a religiões formais, ou quando se resolve  professar determinada fé, enfrenta-se o desafio de integrar os ensinamentos recebidos no ambiente religioso à vida fora do seu círculo.

Nesse sentido, parece-nos oportuno considerarmos a importância da integração harmoniosa de nossas atividades, pois parte significativa dos problemas humanos decorre da fragmentação que promovemos em nossas vidas. Uma espiritualidade genuína não pode estar à parte da vida cotidiana, pois os princípios e valores aprendidos, estudados e comentados nos ambientes religiosos foram revelados para serem vividos e aplicados no ambiente doméstico, no trabalho, na via pública e no convívio social. De nada adiantariam tais ensinos se confinados aos templos onde são apresentados. Seriam, além de inúteis, estímulos a um viver farisaico e desconexo do mundo de relações.

Espiritualidade pode ser compreendida como consciência desperta e manifesta nos pensamentos, sentimentos, palavras e ações, orientando-os a que cumpram propósitos evolutivos. Quem descobre, através de uma sincera busca interior, a dimensão transcendente da vida, passa a se expressar conforme essa descoberta nos mais simples atos do cotidiano. Tal pessoa passa, naturalmente, a manifestar integridade de caráter, correção de conduta e nobreza de ideais, tanto quanto se torna mais sincera e gentil, cooperativa e pacífica, amorosa e benevolente, seja onde for ou com quem estiver.

Restringir as manifestações religiosas aos templos é dissociar os diversos aspectos da existência, os quais fazem parte da mesma vida e são dignos de serem considerados. Perceber a sacralidade de todos os seres (mesmo daqueles que não a reconhecem em si mesmos), assim como de todos os reinos da Natureza, e a partir dessa percepção mudar para melhor a forma de agir e de se relacionar, não por imposição de fora, mas pela realização de dentro, pode ser uma conquista religiosa de consequências positivas a si e aos demais. Em uma acepção mais ampla do termo, religioso pode ser qualquer ser que reconhece, respeita e cuida das mais diversas expressões da vida. Essa atitude reverente tem grande poder transformador das relações interpessoais, removendo delas tudo o que possa contaminá-las ou pervertê-las.

Os movimentos espirituais que possuem uma visão integrada favorecem o despertar das potencialidades anímicas ao mesmo tempo que promovem a aplicação prática dos seus postulados, dentre os quais o respeito à diversidade de expressões da fé. Esse parece ser um caminho necessário à conquista da paz, pois enquanto pessoas e grupos se odiarem em nome de diferenças religiosas, fomentarem guerras por fanatismo e intolerância, competirem pela posse de supostas revelações espirituais e perverterem os ensinamentos em nome de interesses escusos, estaremos distantes de uma sociedade saudável, harmoniosa e pacífica.

Um caminho espiritual não se resume à aquisição de informações de natureza transcendente, à aceitação de determinados preceitos ou à adesão a certas práticas rituais, mas também, e sobretudo, à integração daquilo que haja sido assimilado à vivência diária, preenchendo-a de significado, tornando-a mais amorosa, utilizando-se das infindáveis oportunidades que a vida de relações oferece para expressar o que se haja aprendido. Desse modo, tecem-se, ainda que lentamente e passo a passo, os elementos necessários a um convívio mais fraterno.  
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