Uma lista com 18 nomes de comerciantes, empresários, profissionais liberais e empresas de São José dos Campos, associados a posições políticas de esquerda, circula em grupos de WhatsApp e redes sociais.
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A publicação incentiva o boicote a estabelecimentos e a identificação de pessoas consideradas apoiadoras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais.
Em São José dos Campos, o material inclui bares, restaurantes, supermercados, lojas, construtora, oficina automotiva e prestadores de serviços.
Entre os segmentos citados na lista joseense estão alimentação, bebidas, produtos naturais, construção civil, serviços automotivos e corretagem de seguros. Também aparecem profissionais liberais e pessoas ligadas a atividades de proteção animal.
A relação apresenta estabelecimentos de diferentes regiões da cidade, incluindo Centro, Vila Ema, Jardim São Dimas e áreas próximas ao Parque Vicentina Aranha. Há ainda referências a negócios instalados em centros de compra e avenidas comerciais de São José.
As justificativas apresentadas nas mensagens variam. Algumas associam os responsáveis pelos negócios a posicionamentos políticos de esquerda. Outras mencionam supostas manifestações de funcionários ou proprietários e até comentários atribuídos a trabalhadores sobre consumidores identificados com a direita.
O material não apresenta, necessariamente, comprovação das associações políticas atribuídas a cada pessoa ou estabelecimento.
Levantamento realizado por OVALE identificou listas em pelo menos quatro municípios: São José dos Campos, Taubaté, Ubatuba e Guaratinguetá. Juntas, as relações reúnem mais de 150 nomes.
Taubaté aparece com a maior lista identificada nominalmente, com 45 registros. O material inclui médicos, arquitetos, professores, escolas, estabelecimentos comerciais e empresas.
Em Ubatuba, são 43 nomes, entre restaurantes, comércios, médicos e empresas. Já em Guaratinguetá, a relação que circula pelo WhatsApp apresenta mais de 50 nomes.
As mensagens que acompanham algumas das publicações deixam explícita a intenção de orientar consumidores a escolher onde comprar ou contratar serviços com base nas supostas preferências políticas de empresários e profissionais.
Em Ubatuba, por exemplo, uma das mensagens afirma que um grupo de empresários teria adotado o chamado "lado esquerdista". O texto também menciona a preparação de novas relações, separadas por cidades e categorias profissionais.
A circulação das listas em São José dos Campos ocorre em meio a manifestações de representantes políticos e denúncias de possíveis casos de assédio eleitoral.
A professora Jéssica Marques, porta-voz da Bancada Feminista do PSOL no Vale do Paraíba, publicou um vídeo nas redes sociais informando que protocolou um ofício na Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos. O documento solicita orientações aos comerciantes para prevenir práticas de assédio eleitoral.
Ela também afirmou que foram encaminhadas representações ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério Público Estadual.
Segundo Jéssica, a iniciativa busca impedir pressões políticas no ambiente profissional e situações que possam configurar irregularidades.
A vereadora Juliana Fraga também denunciou, em seu perfil no Instagram, relatos de assédio eleitoral, incluindo pressões relacionadas a possíveis demissões e boicotes a estabelecimentos comerciais.
Em uma publicação, a parlamentar ressaltou que a preferência política de um trabalhador não pode ser utilizada como instrumento de pressão pelo empregador.
"A eleição acabou, mas a proteção aos trabalhadores continua. Ameaças, perseguições e demissões motivadas pela escolha política são inaceitáveis", afirmou.
Juliana também citou um balanço do Ministério Público do Trabalho (MPT), segundo o qual a região de São José dos Campos havia registrado 24 denúncias de assédio eleitoral até 28 de outubro.
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Em Guaratinguetá, a circulação de uma lista com mais de 50 nomes provocou repercussão e levou a Aceg (Associação Comercial e Empresarial de Guaratinguetá) a divulgar um comunicado em defesa do respeito e da pluralidade de opiniões.
A manifestação ocorreu após a circulação, em grupos de WhatsApp, de uma mensagem atribuída a uma empresária e diretora da entidade que defendia a demissão de trabalhadores petistas.
No comunicado, a associação condenou manifestações que incentivem intolerância, discriminação e divisão de pessoas por suas escolhas políticas.
"A Aceg não compactua com manifestações que incentivem a intolerância, a discriminação ou a divisão entre pessoas em razão de suas escolhas políticas", afirma a nota.
A entidade também destacou que opiniões individuais de seus integrantes não representam necessariamente o posicionamento institucional.
"Essa posição vale para todos, independentemente do lado político, pois o respeito e a tolerância devem prevalecer sobre qualquer divergência ideológica", diz outro trecho do comunicado.
Manifestações relacionadas às campanhas de boicote e à iniciativa intitulada "Demita um petista" também repercutiram em Jacareí, Pindamonhangaba e Caraguatatuba.
As publicações misturam críticas políticas, identificação de estabelecimentos comerciais e mensagens que incentivam consumidores a evitar negócios em razão de supostas posições ideológicas de seus proprietários.
A movimentação ganhou força após o resultado das eleições presidenciais de 2026, vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno realizado em 25 de outubro.
A circulação das listas reacende o debate sobre os limites entre liberdade de manifestação política, decisões individuais de consumo e possíveis práticas discriminatórias nas relações de trabalho.
A Constituição Federal assegura a liberdade de consciência e de convicção política. No ambiente profissional, ameaças, constrangimentos e retaliações motivadas pela escolha eleitoral de trabalhadores podem configurar assédio eleitoral, dependendo das circunstâncias e das provas de cada caso.
O procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, já alertou para tentativas de intimidação de trabalhadores por suas escolhas políticas.
"O empresário é dono do seu negócio, e não do voto do seu empregado", afirmou.