28 de setembro de 2026
DIA DO JORNALISMO

'Desinformação mata': presidente da ANJ defende o jornalismo

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 14 min
Reprodução
Marcelo Rech, presidente executivo da ANJ (Associação Nacional de Jornais)

Para marcar o Dia Mundial do Jornalismo, movimento global que conta com a adesão de OVALE, neste dia 28 de setembro, Marcelo Rech destaca o papel do jornalismo profissional como barreira indispensável contra o avanço da desinformação, das fake news e de ataques à imprensa.

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Presidente executivo da ANJ (Associação Nacional de Jornais) e vice-presidente do Comitê de Diretores da Associação Mundial de Editores de Notícias, o executivo ressalta que apuração, checagem e independência exigem método e investimentos altos — contrastando com conteúdos opinativos, discursos radicais ou ativismo de influenciadores digitais sem compromisso ético.

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Diante das ameaças do uso predatório da inteligência artificial e do enfraquecimento econômico do setor, Rech defende a urgência da educação midiática para a sociedade e cobra a remuneração justa de grandes plataformas digitais pelo uso do conteúdo jornalístico.

Confira a seguir a entrevista com Marcelo Rech na íntegra.

Com quase 100 veículos e entidades mobilizados no Brasil, ao lado de lideranças globais de mídia, qual é o impacto esperado dessa união internacional na defesa do jornalismo?

Essa campanha surgiu há quase 10 anos no Canadá, por um jornal [The Globe and Mail], que é um dos principais jornais canadenses, com a intenção de celebrar, chamar a atenção da sociedade para a importância e a relevância do jornalismo e o impacto que ele produz na sociedade.

Isso por meio do Fórum Mundial de Editores, que é o organismo ligado à Associação Mundial de News Media. Alguns anos depois, ganhou visibilidade mundial. Eu fui presidente do Fórum Mundial de Editores e membro do BOD até o ano passado, e a gente sempre estimulou muito a difusão do World Day, no Dia Mundial do Jornalismo.

A ideia é criar um dia de reflexão, na maior quantidade possível de países e de veículos, sobre o impacto que o jornalismo produz positivamente para a sociedade.

Desde artigos — eu assino um dos artigos deste ano, sobre liberdade de imprensa, sobre jornalismo, sobre a relação com a IA, todas as situações novas — até reportagens e matérias que mostram, no plano local, como uma reportagem colaborou e contribuiu para transformar positivamente a sociedade.

Seja desde uma simples denúncia, uma visibilidade de um problema local ou até uma questão que pode ser profundamente transformadora na sociedade, como uma componente de conscientização, por exemplo, sobre saúde, segurança e assim por diante.

 

A campanha destaca o método por trás da informação confiável — apuração, checagem, contextualização e edição. De que maneira a ANJ planeja conscientizar a sociedade sobre a diferença do jornalismo em relação ao conteúdo opinativo informal?

É uma maneira que a gente tem, por todos os nossos canais e por meio dos associados, que é muito importante, demonstrar que o jornalismo profissional não nasce espontaneamente.

Não é uma coisa que não tem custo ou que é facilmente produzida. Exige todo um ciclo de planejamento, de pessoas que planejam o que vão fazer e como vão fazer. Um ciclo de apuração, de ir a campo, procurar fontes, muitas vezes estar presente nos eventos etc.

Um ciclo de edição, que é o processamento profissional daquela quantidade de informações para dar sentido a ela ou dar uma hierarquia a essa quantidade de informações apuradas. Um ciclo de distribuição, que é a divulgação dessa notícia ou dessa opinião, dessa coluna, o que seja, em uma série de plataformas.

Então, tudo isso tem um esforço muito grande, de uma equipe muito grande, que custa muito. E não é alguém abrir o microfone e sair falando uma bobagem, como a gente vê muitas vezes nas redes sociais. Tem muito tempo, muito planejamento, muito esforço e investimento na execução do jornalismo.

E isso nós temos tentado, procurado, não só nas campanhas, mas em todos os meios de comunicação associados. O Dia Mundial do Jornalismo é um momento muito propício para isso, para a gente mostrar que esse jornalismo profissional também não está no ramo de fazer amigos, digamos, ou de relações públicas, com todo o rigor da propaganda.

O jornalismo tem que ser independente. Muitas vezes ele produz atrito com pessoas que venham a ser denunciadas ou investigadas e assim por diante. Pessoas, governos, partidos, o que seja. E isso é parte da nossa atividade. A independência, o distanciamento em relação a essa circunstância também têm um custo.

Muitas vezes é o custo da intimidação, da pressão, de enfrentar, em outras ocasiões, processos, ações, perseguições, intimidações. E até, em alguns casos, infelizmente, no Brasil não é tão raro assim, assassinatos de jornalistas, mortes de jornalistas e agressões.

Então, fazer jornalismo profissional tem um custo pessoal e um custo organizacional das empresas, muito grande, mas isso é uma causa que a ANJ e que todos os veículos abraçam em nome da sociedade, do público, a quem devem satisfações.

 

Diante do avanço acelerado de conteúdos enganosos e fake news nas redes, de que forma o slogan "Conheça os fatos. Entenda o que importa. Escolha o jornalismo confiável" pode se traduzir em práticas de combate à desinformação?

Infelizmente, nós estamos vendo um avanço ainda mais sofisticado da desinformação, das fake news, porque ficou muito fácil, muito simples produzir essa informação enganosa, ilustrações, imagens e vídeos enganosos com inteligência artificial.

Então, um problema adicional é que a própria inteligência artificial se vale dos conteúdos jornalísticos e quase sempre sem nenhuma remuneração, sem reconhecimento de que se vale desses conteúdos de terceiros, e transfere para o público sem nenhum pagamento ao jornalista ou à organização que produziu essa informação.

Então, nós estamos vendo um perigoso momento, um momento em que cresce a desinformação, crescem os modelos de criação e produção de conteúdo desinformativo e, de outro, o enfraquecimento, a fragilização econômica da atividade jornalística por meio da IA.

Se continuar nesta toada, nessa batida, nesse ritmo, nós vamos ver cada vez mais o enfraquecimento do jornalismo e cada vez mais o crescimento da desinformação, da manipulação e da distorção. Então, é importante que a sociedade esteja muito atenta e que apoie o jornalismo profissional. Sociedade, governos democráticos e organizações internacionais, como tem acontecido muitas vezes.

No entendimento de que o enfraquecimento do jornalismo é a perda de uma barreira, a perda da barreira da verificação, da checagem, da confrontação daquela desinformação com a realidade. Então, o jornalismo é a última barreira entre, digamos, a barbárie informativa, o caos informativo e o público.

Então, o enfraquecimento dessa barreira interessa a governos autocratas, a regimes autocratas, a políticos corruptos e malfeitores em geral. É importantíssimo para a sociedade ter um jornalismo confiável, que faça a verificação das informações, e que a própria IA, as próprias plataformas de IA, precisam muito do jornalismo de qualidade.

Porque esse é o jornalismo que produz informações confiáveis, mas precisa, por outro lado, pagar por esse conteúdo, pagar o devido valor à produção jornalística, conforme eu tinha dito, que não é simples e barata de ser produzida.

 

A substituição de jornalistas por influenciadores digitais em diversas mídias expõe o público a conteúdos frequentemente sem compromisso ético ou checagem factual. Como a imprensa profissional pode competir em alcance sem perder o rigor metodológico?

Esse é um dos grandes desafios que nós temos hoje: definir o que é imprensa e o que não é imprensa. Não precisa necessariamente ter um certificado de que é imprensa. A imprensa se caracteriza por um conjunto de valores.

A imprensa, entendida como um grupo de jornalistas organizados por meio de uma redação, ou um próprio jornalista que, por conta própria, produza informação confiável.

Mas o fundamento da atividade jornalística pode ter uma ou outra particularidade regional, ser um pouquinho diferente na África, um pouco diferente na Suécia. Não importa o país, não importa a cidade, não importa a região do planeta: ele tem alguns valores, alguns princípios elementares. O primeiro deles é buscar a verdade.

Então, não há hipótese de alguém se declarar jornalista se ele não tiver imbuído de buscar a verdade ou de usar a verdade, os fatos verdadeiros, para emitir sua opinião. Então, isso é um elemento básico. O outro é reconhecer erros. Eventualmente, cometem-se erros de avaliação ou de informação; corrigir erros é outra característica.

A outra característica do jornalismo é dar visibilidade para o outro lado, para outras versões, procurar o outro lado, procurar o contraponto. Então, esses são elementos basilares do jornalismo.

Quem não faz isso não faz jornalismo. Faz outra coisa, que está muito mais no campo da propaganda e das relações públicas do que do jornalismo. O problema é que muita gente está fazendo ativismo e se declarando jornalista ou se declarando como imprensa.

E isso não é bom para a própria imprensa, não é bom para a própria sociedade. Nenhum problema em fazer ativismo. Ativismo é uma atividade que, quando bem-intencionada, é super saudável em regimes democráticos. Mas é diferente de fazer jornalismo.

Então, é importante, e aí nós defendemos também, por meio dos nossos associados e de outras organizações, que a gente avance numa coisa chamada educação midiática, que é a alfabetização, digamos, ou a capacidade da sociedade de entender e distinguir as formas de comunicação com que ela é confrontada diariamente.

Saber que aquele ali é um influenciador, não é um jornalista. É um ativista, de alguma forma, diferente daquele que é um jornalista que produz informação confiável, verificada, que dá visibilidade para o outro lado.

Eu acho que existe espaço para tudo, mas a informação verificada, a informação checada, tem um valor muito maior, muito mais essencial do que uma opinião qualquer emitida numa rede social, porque ela exige muito mais esforço, tem muito mais valor para a sociedade do que apenas mais uma entre milhões de opiniões que todo mundo tem.

 

E como o jornalismo profissional pode se defender de ataques vindos de políticos importantes no Brasil, que influenciam milhões de pessoas a desacreditar da imprensa?

Isso é um fenômeno que não é brasileiro. Infelizmente, ele tem até origens internacionais, que é a instrumentalização de um discurso, uma narrativa de descrédito da imprensa para que uma mensagem desvirtuada, manipulada, possa se impor para a sociedade.

Então, eu preciso eliminar o mensageiro, preciso destruir a credibilidade, a confiança naquele mensageiro. Quando é que vimos isso acontecer de uma forma dramática, com suas consequências? Na pandemia no Brasil.

Então, na pandemia, as pessoas precisavam destruir, digamos, a informação científica, a informação qualificada, buscada em fontes confiáveis. Não que todo mundo tivesse as respostas, mas pelo menos as pessoas com boas intenções, para impor mensagens absurdas, do tipo que não precisava se cuidar, que isso era assim mesmo, que haveria imunidade de rebanho. E milhares de pessoas morreram por causa de desinformação.

Outro exemplo de desinformação que mata agora é em Ceuta, por exemplo, na Espanha: 70 mil pessoas, a maioria jovens, porque os jovens consomem cada vez mais as redes sociais e cada vez menos os meios de comunicação profissionais, acreditaram que bastava chegar a Ceuta, que é na Espanha, no Norte da África, pelo mar, que ganhariam o direito de viver na Europa.

E 70 mil, 80 mil pessoas se lançaram ao mar, nadaram 3, 4, 5 quilômetros, e mais de 80 morreram porque acreditaram nessa desinformação. Depois, ficaram lá 24 horas, voltaram a pé, de cabeça abaixo. 80 não voltaram porque seus corpos não tiveram retirada do mar. Então, a desinformação não é só um jogo político, ela mata. Ela tem interesses econômicos, ela tem interesses políticos.

Ela mata, seja, como tivemos na pandemia, por pessoas que deixam de se cuidar, de se tratar ou de se prevenir, e mata jovens que não têm acesso à informação correta, como aconteceu agora em Ceuta, na Espanha.

Então, infelizmente, muitas pessoas, muitos segmentos sociais só vão se dar conta da relevância, da importância da internet quando caem numa armadilha, quando têm um parente afetado diretamente, seja porque foi iludido num golpe financeiro, num golpe econômico, seja porque sofreram uma consequência grave, digamos, de um sequestro do pensamento lógico, responsável, racional etc.

Mas eu sei que não adianta ficar dizendo. Uma vez que a pessoa está radicalizada, está tomada por uma mensagem radical, não basta o discurso. Muitas vezes, tem que dar com a cara na parede para que se cale e caia na realidade.

 

Para garantir um jornalismo independente e plural, a sustentabilidade financeira dos jornais é indispensável. Quais caminhos a ANJ aponta para equilibrar a relação entre os veículos de comunicação e as grandes plataformas digitais? Ainda está em discussão a remuneração pelo conteúdo jornalístico, já que as plataformas ganham dinheiro divulgando conteúdo sem remunerar quem produz?

Sem dúvida. Esse é o assunto mais relevante do momento, porque a sustentabilidade do jornalismo é a sustentabilidade da informação verdadeira, correta e precisa. Sem ela, as próprias plataformas de IA não vão ter como alimentar seus modelos de linguagem. Então, a informação precisa é uma matéria-prima muito valorizada, deveria ser. A gente tem defendido que existem quatro caminhos.

Um caminho é o tecnológico, de começar a cobrança pelo acesso das máquinas, dos robôs, que acessam aos borbotões os veículos sem nenhuma remuneração, que é um caminho tecnológico que está sendo desenvolvido ainda.

Outro caminho é o da negociação. Quer dizer, que essa plataforma que utiliza o conteúdo do jornal negocie com aquele jornal, com aquele veículo, um contrato, feche um contrato e pague por esse uso. Então, alguns já começam a adotar isso.

Terceiro caminho é o caminho jurídico. Uma vez que se vale de informações e conteúdo de terceiros sobre os quais não tem direito autoral, isso é furto de conteúdo. Então, isso tem que ser levado à Justiça para que a Justiça repare, por meio de uma ação indenizatória, quem tem seus conteúdos furtados por terceiros.

E, por último, é o campo regulatório, da regulação, das leis, da legislação.

Então, nós estamos começando a ver agora avanços na Austrália. O Parlamento aprovou, neste mês de agosto, uma nova legislação que prevê o pagamento pelas big techs de 2,5% do faturamento das suas receitas extraídas em publicidade na Austrália para os veículos de comunicação australianos de diferentes tamanhos, pequenos, médios e grandes, caso não chegue a um acordo com eles.

Então, se não se chegar a um acordo, eles terão que pagar um imposto, uma taxa de 2,5% sobre a receita publicitária, e esse valor vai ser redistribuído entre os veículos mediante o critério do número de jornalistas contratados por veículo. Está aprovado no Parlamento, deve vigorar ainda até o fim do ano, retroativo a 2025. É um caminho muito positivo.

A Austrália tem tradicionalmente feito alguns avanços nesse campo, e nós acreditamos que isso tende a se reproduzir, se replicar em outros países do planeta.

 

A campanha convida abertamente professores, estudantes e a comunidade acadêmica a se unirem ao movimento. Como a nova geração de comunicadores pode contribuir para redefinir o valor do jornalismo na era digital?

Muito. Nós temos, por incrível que pareça, muita similaridade com o professor. O professor faz uma comunicação, passa uma informação, um conhecimento, que é muitas vezes histórico, acumulado ao longo dos anos, com informação, precisão e credibilidade para um público.

Um público muitas vezes limitado pelo número de alunos, enquanto nós passamos uma informação que é da atualidade também com os mesmos valores de conhecimento, apurado, checado, verificado, para um público específico. Então, essa transferência de conhecimento tem similaridade entre o professor e um meio de comunicação, entre um jornal, nesse aspecto, nesse tipo de procedimento.

Então, é muito salutar que as escolas, que os estudantes, sobretudo por causa da questão da educação midiática que eu tinha falado, aprendam a distinguir a informação correta da desinformação, da manipulação, das fake news; quando desconfiar, como ser cético em relação à imagem que alguém recebe. Por que tem que desconfiar de notícias que sejam excessivamente apelativas.

Desconfiar quando alguém manda algum conteúdo com senso de urgência, no sentido de "faça isso, faça aquilo", que pode ser golpe, enfim. Ou diz: "Você não vai ler isso na imprensa porque eles estão comprometidos" ou "os fulanos não querem que você saiba disso".

Então, são fórmulas, truques para que as pessoas caiam na conversa de quem se beneficia com a disseminação de desinformações.

 

O manifesto da campanha reforça que "jornalismo fortalece sociedades mais livres, justas e fortes". Qual é a mensagem principal e o chamado de ação que o movimento faz ao leitor no dia 28 de setembro?

A nossa mensagem principal é escolher a verdade, escolher os fatos, escolher o jornalismo. Esse é o grande mote deste ano, em que está na mão do cidadão escolher a verdade, escolher os fatos e escolher o jornalismo.

Então, basta querer para que isso aconteça, para que as pessoas não tenham suas vidas alteradas, prejudicadas pela desinformação, pelo sequestro, digamos, do pensamento lógico e racional.