12 de junho de 2026
EXCLUSIVO

'Vimos Marco Aurélio pela última vez', diz chefe dos escoteiros

Por Guilhermo Codazzi | Piquete
| Tempo de leitura: 11 min
Editor-chefe de OVALE
Reprodução
Marco Aurélio desapareceu aos 15 anos

"Foi quando vimos Marco Aurélio pela última vez."
Chefe do Grupo Escoteiro Olivetano, Juan Bernabéu Céspedes volta a 8 de junho de 1985, um dia que já dura 41 anos.

Em um manuscrito inédito de 107 páginas, obtido com exclusividade por OVALE, Juan reconstrói passo a passo a expedição ao Pico dos Marins, em Piquete, que terminou com o desaparecimento de Marco Aurélio Simon, de 15 anos.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

O documento, que OVALE revela em uma série especial, é uma "caixa-preta" do caso que há mais de quatro décadas intriga a polícia, tortura a família Simon e comove o Brasil.

"Nunca eu (...) fui verdadeira e sinceramente consultado pelos diversos escritores sobre o ocorrido", escreveu Juan no livro. "Creio que é hora de dar um fim às especulações e relatar fielmente o ocorrido naquela ocasião", completou o chefe dos escoteiros, chamado de "assassino" pelo pai de Marco Aurélio.

Após os dois primeiros capítulos, que mostraram o início da expedição e a véspera do desaparecimento — quando a barraca dos escoteiros sofreu um "ataque" e Marco Aurélio fez uma oração emocionante — a série chega ao seu ponto mais decisivo: os acontecimentos que culminaram no desaparecimento do menino. O relato será dividido em dois capítulos.

Leia o primeiro capítulo da série: Chefe dos escoteiros abre 'caixa-preta' do caso Marco Aurélio

Leia o segundo capítulo da série: Oração e ataque à barraca: as horas antes do sumiço do escoteiro

Além de Marco Aurélio e Juan, este com 36 anos à época, o Grupo Olivetano contava ainda com os escoteiros Ricardo Ferraz Salvioni, Oswaldo Lobeiro Machado e Ramathis Rhom, também adolescentes.

Por que Juan enviou Marco Aurélio sozinho? Onde estava a mochila do menino? O que havia na barraca misteriosa encontrada na mata? E por que o chefe dos escoteiros acreditava que o adolescente conseguiria retornar sozinho?

Acompanhe o relato do chefe Juan. É exclusivo.

Juan, Marco Aurélio e amigos iniciam a subida ao Pico dos Marins

Às 9h iniciamos a caminhada. Orientei para que todos fechassem bem as mochilas, deixando-as no fundo da barraca e escondidas. Levamos apenas a minha para transportar o que fosse necessário para a viagem, como roupas e alimentos. As demais, ficaram fechadas e guardadas.

Ao sair, passamos pelo Sr. Afonso, que se encontrava na porta. Cumprimentamo-nos e pedi a gentileza de que vigiasse o material, ao que respondeu para que ficássemos tranquilos.

O desvio no caminho

Seguimos o rastro de um caminhão que deveria levar excursionistas ao “Morro do Careca”. Após longa distância, percebemos que o caminho não conduzia até onde desejávamos. Tentamos retornar, mas por não encontrar uma bifurcação satisfatória, prosseguimos até uma estrada à direita, com rastros de carro. Isso demonstrava a presença recente de alguém. Pensando que fosse a trilha certa, prosseguimos.

Escoteiros encontram acampamento suspeito na mata

A trilha, no entanto, ficava cada vez mais estreita, forçando a que nos embrenhássemos no mato em direção ao Pico, até encontrarmos uma barraca, tipo bangalô, armada numa clareira, fechada e sem ninguém a vigiar.

Pela janela conseguimos ver um pacote de 5 kg de açúcar, ao lado de um fogão a gás, e algumas folhas estranhas que não se encontravam na região. Estranhamos o fato de que alguém pudesse levar tanto açúcar para passar uma ou duas noites, em uma barraca para no máximo 6 pessoas, mesmo porque a barraca é pesada e é necessário um veículo para transportá-la e naquele local não havia acesso para veículos.

Subida íngreme e os primeiros sinais de cansaço

Depois das especulações, prosseguimos a caminhada. Para evitar cansaço, revezamos a mochila. Marco Aurélio carregou pouco tempo. Por se tratar de um terreno íngreme, todos tivemos dificuldades para subir.

Eu já estivera no Pico dos Marins anteriormente. Assim, embora com alguma dificuldade de orientação, sabia por onde deveríamos passar, eis porque optamos por subir pelo meio da mata, pois era sabedor que deveríamos passar pelo “Morro do Careca”, e a barraca serviu como fonte de orientação. Lá chegando, soprava um vento forte, gelado. Iniciamos a caminhada rumo ao Pico, mas o capim tipo elefante, também denominado pela população local de “cabeça de nego”, tinha a altura de um homem. Assim, era extremamente difícil se orientar e reconhecer o caminho correto (...)

Escoteiros encontram sinais de facas nas pedras

Eu caminhava na frente, seguido por Salvioni, Ramathis, Marco Aurélio e Oswaldo. Não andávamos próximos, sendo necessário, de vez em quando, parar para descansar e reagrupar.

Alguém havia passado pelo local, riscando uma seta com uma faca sobre as pedras e rochas. Como havíamos solicitado anteriormente a um escotista que deixasse sinais de pista, resolvemos segui-los achando que teriam sido feitas por ele, conforme solicitado. Uma vez que o local estava cheio de sinais semelhantes, escolhemos o mais recente e o seguimos o tempo todo, servindo de guia.

Cansado, Marco Aurélio queria interromper a subida

Ventava bastante e fazia frio. O sol brilhava com intensidade. Por ser algo novo para os seniores, tudo era justificativa para vencer o desafio. Em certo momento, sob forte vento, retiramos os agasalhos maiores, colocando-os na mochila.

Marco Aurélio, que pesava aproximadamente 40 kg, chegou a se agachar perto de uma pedra para se proteger do vento e do frio, comentando com um dos demais membros da equipe que estava cansado e, se dependesse dele, parava a subida naquele instante.

Chegamos ao Morro do Cruzeiro

Oswaldo sofreu de câimbra e eu o socorri. Os sinais indicavam contornar pela direita, o que foi difícil. Depois de ultrapassar umas rochas, cheguei ao “Morro do Cruzeiro”, seguido por Salvioni, Ramathis e Oswaldo. Marco Aurélio não se via. Ouvimos um apito e Oswaldo disse ser dele.

Eu voltei e vi porque se atrasara. Ocorreu que Oswaldo, que caminhava na frente dele, subiu em uma pedra, pulando a seguir. Marco Aurélio, no entanto, por ser mais fraco, não pôde fazer o mesmo, motivo pelo qual teve dificuldade para acompanhar os demais (...)

Oswaldo sofre acidente

Desde o “Morro do Cruzeiro”, percebemos que o caminho para chegar ao Pico seria outro. Passamos por um local de onde saía água da pedra. Esta estava congelada. O vento diminuíra. Passamos próximos de outra pedra que tinha um desenho que recordava o número dois. Depois disso, prosseguimos a subida, apoiando-nos às vezes com ambas as mãos, como se fosse uma “escalada”. Era uma rocha de 2 ou 3 metros.

Reiniciamos a caminhada, mas, como seguimos o tempo todo os sinais em forma de flechas, estas, ao invés de irem em direção ao cume, desviaram à esquerda e as seguimos. Alguns metros depois, Oswaldo, ao pisar em uma moita, falseou o pé. Reclamando de forte dor no joelho, chamou por mim, que me encontrava juntamente com Salvioni. Ramathis correu para avisar-me, retornando imediatamente. Marco Aurélio, que chegara por último, também o socorreu.

Garoto chora e urra de dor

Oswaldo chorava e urrava de dor. Eu pedi que se acalmasse e que o levassem a um lugar seguro. Eu e Salvioni saímos à procura de um local melhor ou de alguém que pudesse nos auxiliar. Não encontramos nada. Ao retornar, já com talas, usamos todos os lenços escoteiros, mas não conseguimos imobilizar o membro, por ser justamente na dobra da perna. Seria necessária uma tala maior, e não havia material apropriado para isso (...).

Oswaldo, aos gritos, não deixava nem mesmo encostar a mão para saber o local da dor, somente dizia ter quebrado a perna e não mais poder caminhar. Visualmente, nada tinha acontecido, mas como alegava não poder dobrar a perna, desconfiei que o problema pudesse ser no joelho. Sendo assim, julguei melhor transportar o ferido de volta para o acampamento.

Improvisando o Socorro e a Maca

A aplicação de talas não é tão simples como parece. Primeiramente, não se encontra madeira plana na natureza. Os galhos são redondos e com pontas salientes. Devem ser ajustados com a faca, de forma a se tornarem lisos. Para não machucarem ao entrar em contato com a pele, devem ser envolvidos com lenços, panos, papéis ou o que houver ao alcance. Seguidamente, são amarradas, prendendo tanto a coxa como a perna, imobilizando os ossos tíbia e fêmur.

Por se tratar de dor localizada na região do joelho, não era possível determinar antecipadamente se havia ou não a lesão, o que seria possível somente após exame clínico por ortopedista.

Salvioni sugere que fosse feita uma maca

Seguindo as orientações dadas pelo C.O.E., combinamos dar um tempo para ver se a dor do Oswaldo diminuía. Descansamos e, após nos alimentarmos, lavamos os pratos com água de uma bromélia, pensando sempre em como poder transportar Oswaldo. Salvioni sugeriu que fosse transportado de maca.

Há várias maneiras de se fazer uma maca. A mais comum consta de duas varas. Entre elas podem ser colocados cobertores, agasalhos, cintos ou cordas, para servir de leito para o paciente. Naquele local, no entanto, não havia árvores, o que impossibilitava obter varas. A poucos metros, encontramos um único arbusto que poderia ser usado como vara, mas não tínhamos levado machado, pois como não imaginávamos sua utilização, seria um peso inútil.

Com uma faca, grupo tenta fazer maca

Dessa forma, usando a faca de cozinha que eu trazia na cintura, eu e Salvioni cortamos o arbusto, junto com Ramathis. Marco Aurélio ficou acompanhando Oswaldo, que ao parecer havia adormecido. Esse arbusto nascia dentro de uma grota, em um espaço muito apertado e profundo. Se o galho tivesse sido cortado rente ao chão, poderíamos ter obtido um acréscimo de pelo menos 50 centímetros.

No entanto, não havia como cortá-lo sem as ferramentas adequadas. Nem mesmo com machadinha seria possível fazer o corte, de modo que realizamos o melhor trabalho possível. Em certa ocasião, a faca caiu na grota e Salvioni teve que descer para pegá-la.

'Salvioni e eu poderíamos carregá-lo'

É possível improvisar uma maca com uma única vara, mas é necessário fazer uma rede para poder pendurar o paciente. Esse método é incomum e essa vara precisa ter um comprimento capaz de acomodar o paciente e pelo menos duas pessoas em cada ponta. No entanto, a única vara que conseguimos era curta.

Mesmo aplicando o nó balso pelo seio, mal dava para que duas pessoas, uma em cada ponta, a carregassem. Como Oswaldo era pesado, somente os maiores, que éramos Salvioni e eu, poderíamos carregá-lo.

Juan decide enviar Marco Aurélio à frente

Iniciamos a caminhada de retorno. Salvioni e eu transportávamos Oswaldo. Ramathis carregava a mochila. Por ser um local muito acidentado, com pedras e rochas, não havia como transportar a maca sobre os ombros. Salvioni não resistiu ao peso, impossibilitando o transporte.

Assim, resolvemos que seria mais prático carregá-lo sobre os ombros, mas havia outra dificuldade: quem o estivesse carregando não poderia se preocupar com a orientação, correndo-se o risco de que nos desviássemos do caminho.

A maca improvisada

Percebendo a dificuldade, Ramathis se ofereceu para ir à frente, assinalando o caminho. Essa solução foi rejeitada por mim, visto ser ele novato e não ter conhecimento técnico.

Marco Aurélio se ofereceu a seguir, insistindo, por ser a única coisa que ele poderia fazer, visto seu corpo frágil e por já estar há anos no movimento escoteiro, com conhecimento de sobrevivência, 2ª classe escoteira, único sênior com Eficiência I, curso de sobrevivência pelo C.O.E., por ter provas que o capacitavam a fazer caminhadas em locais ermos... Todas essas circunstâncias o tornavam mais adiantado tecnicamente que os demais companheiros.

Juan entrega pedaços de giz a Marco Aurélio

Por ser um local onde crianças de poucos anos de idade têm subido corriqueiramente, junto com pessoas maiores, por ser possível visualizarem-se as fazendas próximas e até ouvir a conversa dos moradores, e ante a necessidade de alguém fazer isso, eu o autorizei.

Dei-lhe uns pedaços de giz (quase 10) que sempre levava comigo para emergências, orientando-o a riscar o nº 240 (nº de registro do Olivetano) para diferenciá-lo dos demais sinais. Isso facilitaria a remoção do ferido. Eu lhe pedi que trouxesse alguém que pudesse ajudar a transportar o escoteiro ferido.

Oswaldo lhe deu sua faca escoteira, para qualquer eventualidade. Nessa ocasião, eu e Marco Aurélio caminhamos alguns metros após uma curva, indicando-lhe o caminho que deveria ser seguido.

Equipamentos e o último contato com Marco Aurélio

Marco Aurélio levava o uniforme escoteiro composto de sapatos pretos, modelo Vulcabrás, meias ¾ cinza, calça curta e camisa caqui, cinto escoteiro, faca escoteira que lhe emprestou Oswaldo, camiseta, blusa de lã vermelha, gorro de lã branco e vermelho, duas folhas de jornal, uma bússola (segundo relata Oswaldo), um cordão de apito verde com apito e barras de giz.

"Foi quando vimos Marco Aurélio pela última vez"

Lá pelas 14h30 ou 14h45, alcançamos a rocha que escalamos anteriormente (nº 2), ocasião em que avistamos pela última vez Marco Aurélio, que já se encontrava na parte inferior. Eu lhe pedi que tentasse procurar a barraca que vimos, durante a subida, para pedir socorro. Se não achasse ninguém, que se dirigisse ao Sr. Afonso, que certamente saberia como agir.

Ramathis ainda o viu fazendo a curva junto ao Morro da Cruz, depois não mais foi visto (...).